Engenhão mal-assombrado: assaltos, comércio às moscas e inquérito no MP

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Quarta-feira à noite, dia de casa cheia no Maracanã. Mais de 50 mil pessoas foram ao estádio ver a vitória do Flamengo sobre o Goiás. A poucos quilômetros dali, ao relento, o Engenhão, que foi o principal estádio do Rio de Janeiro entre o segundo semestre de 2010 até março deste ano, fechado para obras na cobertura. Já são quase oito meses sem uma partida de futebol – a última foi o empate em 0 a 0 entre Flamengo e Boavista, no dia 23 de março – naquele que será o palco principal das Olimpíadas de 2016 e se tornou alvo de um inquérito no Ministério Público.

Nesse período, o estádio se transformou em um castelo mal-assombrado. Desde o crescimento do número de assaltos relatados pelos moradores, passando pelo fechamento de comércios abertos exclusivamente para funcionamento durante os jogos até o vandalismo, que chegou a afetar as estátuas de ídolos do Botafogo e da seleção brasileira, com pichações seguidas.

Um dos personagens desta história é Carlos Alberto Alves Ferreira, de 46 anos. Ele apostou na abertura de um pequeno bar, bem próximo à entrada do Setor Norte, que funcionava dentro da própria casa. Sofreu com o fechamento, fez bicos e conseguiu a chance de participar da luta para reabrir o estádio. Hoje, ele é uma das 250 pessoas, entre engenheiros e operários, que trabalham na reforma de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h30m.

– Trabalho na montagem. Vamos desmontar as coberturas. Já descemos as passarelas e está tudo caminhando bem. Com o bar, eu ganhava o triplo. Em algumas semanas, o Engenhão recebia quatro jogos. Hoje, é um deserto. Muita gente fez investimento, juntou mercadoria. Quando o estádio fechou, alguns entraram em depressão – afirmou Carlos Alberto, conhecido como Beto, pai de seis filhos.

Morador do Engenho de Dentro desde 1986, Beto está assustado com as mudanças ocorridas desde o fechamento do estádio. Ele se preocupa com os relatos de assaltos contados por amigos que residem nas proximidades do Engenhão.

– Com o movimento dos jogos, a segurança fica melhor. Agora, está a esmo. Muitos assaltos estão acontecendo. Antes, a malandragem ficava longe daqui – comentou Beto.

Nas redondezas, o número de bares fechados assusta. Um dos sobreviventes é o Bar da Loura, comandado por Iara Couto, que funciona desde 2001, bem antes do início das obras do Engenhão. Ela segue com sua vida, mas ressalta a perda que teve com o fechamento do estádio e a necessidade de readaptar o seu comércio.

– Tive uma queda de 80% no meu rendimento. Isso é muita coisa. Nem vendo mais cerveja, só quando a torcida do Botafogo se concentra aqui em frente para viajar em jogos fora do Rio. Na época da construção do estádio, fiquei três anos gastando dinheiro com medicamentos. Tive prejuízo, pois as pessoas sequer podiam parar aqui em frente. Agora, fizeram mais uma vez. Acho que tem muita política envolvida – disse Iara.

Engenhão Iara Couto - bar da loura setor leste  (Foto: Thales Soares)
Iara Couto no comando do Bar da Loura no Setor Leste do Engenhão (Foto: Thales Soares)

Os ouvidos de quem mora ao lado do Engenhão estão atentos sobre as notícias que circulam. Eles falam com entusiasmo sobre a possibilidade de a reabertura ser antecipada para abril, com capacidade reduzida. Nada que seja confirmado pela Prefeitura ou pela RioUrbe.

– Conforme cronograma apresentado pela Prefeitura, a conclusão da obra está prevista para o mês de novembro de 2014. Os trabalhos também acontecem na parte externa ao estádio, com o estudo do solo e avaliação de profundidade para instalação das gruas que irão auxiliar a execução da obra. Em paralelo, operários já estão na fase de finalização da criação do canteiro de obras. As obras no Estádio Olímpico João Havelange foram iniciadas em julho deste ano, quando o Consórcio Engenhão apresentou à RioUrbe o projeto para o reforço da cobertura do estádio – informou a assessoria de imprensa da RioUrbe.

A retirada dos refletores já foi praticamente encerrada e o material está sendo armazenado para reutilização. Os trabalhos também acontecem na parte externa ao estádio. A solução foi proposta pela empresa alemã SBP, a mesma responsável pelo laudo que interditou o Engenhão. Ela consiste na instalação de dois cabos estaiados nos lados oeste e leste do estádio, que pinçarão a cobertura, distribuindo a carga das estruturas comprometidas. O projeto possibilita a redução do tempo das intervenções no estádio.

Todo esse trabalho vem sendo acompanhado de perto pelos funcionários que continuam trabalhando no Engenhão. A Prefeitura vem repassando ao Botafogo o valor das despesas do estádio durante a sua interdição. Mas há quem reclame das circunstâncias vividas desde o seu fechamento, mesmo que o seu emprego tenha sido preservado. Muitos precisaram ser transferidos e o clube alocou alguns na sede do remo e em General Severiano para evitar um maior número de demissões.

– Ainda dava para ganhar mais. A gente também trabalhava no quadro móvel e isso ajudava na renda. Agora, sem jogos no Engenhão, perdemos essa chance e precisamos correr atrás para complementar a renda. Nem a pelada que o pessoal jogava no campo society que tem aqui no estádio acontece mais. Falta gente – disse um funcionário do estádio, que pediu para não ser identificado.

Mosaico - engenhão |  estádio mal-assombrado (Foto: Editoria de Arte)
Situação do Engenhão após oito meses de interdição (Foto: Editoria de Arte)

O Botafogo também tem reclamações. Seus dirigentes seguem em silêncio e procuram não entrar em conflito com a Prefeitura. No entanto, havia a previsão de um repasse para o clube em função da cessão do local para o atletismo no campo anexo. A verba não foi vista desde a interdição do estádio.

Além disso, o clube já lamentou em outros momentos a perda da chance de vender os naming rights do estádio e a renda que deixou de ganhar sem os jogos de Flamengo e Fluminense no Engenhão. Publicamente, o Botafogo vive uma crise financeira, com seguidas penhoras, que já atingiram até mesmo o presidente Maurício Assumpção.

Mais recentemente, a interdição do Engenhão custou ao Botafogo a perda da Brahma como parceira na administração do estádio. A empresa, por exemplo, havia ajudado o clube a adquirir os equipamentos de uma fábrica na Holanda para melhorar o estado do gramado, que está impecável e continua sendo tratado.

Todo esse processo, desde a construção do estádio, está sendo investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Desde a interdição, o órgão recebeu uma série de questionamentos e a promotora Gláucia Santana decidiu instaurar um inquérito. A Prefeitura enviou os documentos pedidos e o presidente do Botafogo já foi ouvido. 

– Foram afastadas as suspeitas de violação da impessoalidade que vinham apontadas nas mensagens que circularam pela rede web e o fato de que a interdição teria sido resultado de engodo para beneficiar terceiros. O laudo sobre a segurança do estádio é bem composto e demonstra que a decisão pela interdição foi acertada. Agora, estou na fase de examinar se houve falha no processo de contratação da empresa que teria prestado o serviço de elaboração do projeto e da que executou as obras – explicou Gláucia, por e-mail.

Uma licitação de mais de R$ 120 milhões foi encerrada há pouco mais de um mês para as obras no entorno do estádio. Ainda há a previsão de mais uma obra em 2015 no Engenhão para as Olimpíadas de 2016. Estruturas provisórias serão instaladas para que a capacidade de público chegue a 60 mil. A Prefeitura garante que não haverá a necessidade de novo fechamento do estádio.

Fonte: Globoesporte.com

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