No começo dos Estaduais, os torcedores de Palmeiras e Botafogo terão de colocar a mão no bolso para poderem ver seus times em campo. De acordo com as tabelas parciais divulgadas por FPF (Federação Paulista de Futebol) e Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro), os dois times praticamente só serão vistos no estádio ou no pay-per-view.

A análise leva em conta as nove primeiras rodadas do Paulista e as sete primeiras da Taça Guanabara, primeiro turno do Estadual do Rio. Até o momento, as duas federações ainda não desmembraram as rodadas seguintes, como é praxe em todas as competições. Ainda assim, é possível ter uma base do que espera Palmeiras e Botafogo.

O levantamento do UOL Esporte mostra que o Palmeiras só será exibido na TV aberta em duas das nove primeiras rodadas do Paulistas, ainda assim em clássicos. É o mesmo número do Santos, que também só ganha espaço em confrontos diretos. Em compensação, o clube da Vila Belmiro sobra em transmissões no Sportv, com quatro – cada um de seus rivais será exibido uma vez no canal fechado.

Portanto, exceção feita a três datas (um dos clássicos transmitidos é justamente entre Palmeiras e Santos), só Corinthians e São Paulo terão espaço na TV aberta até a nona rodada. Em duas dessas oportunidades, diga-se, o Estadual ficará de lado por conta do confronto entre Corinthians e Once Caldas pela Libertadores. Ainda assim, quem vai ao ar na Band, que herda as transmissões como parceira da Globo, é o São Paulo.

A situação do Botafogo é ainda pior no Rio de Janeiro. Nas sete rodadas que já foram desmembradas pela Ferj, o clube de General Severiano não aparece na Globo ou no Sportv em nenhuma oportunidade. Se quiser ver o jogo de seu time, o torcedor alvinegro terá de ir ao estádio ou assinar o pay-per-view.

Como em São Paulo, a preferência é pelos clubes populares. Em sete rodadas, o Flamengo será atração na TV aberta em quatro oportunidades, contra duas do Vasco e uma do Fluminense. No Sportv, cada um dos outros três grandes será exibido uma única vez.

Embora a tabela seja divulgada pelas federações, a Globo é fundamental nesse processo, já que as federações encaixam os jogos na grade de programação da emissora, principal mantenedora do futebol nacional. A própria divulgação parcial da tabela está relacionada ao interesse da televisão, já que o desmembramento das rodadas finais pode ser encaixada de acordo com o interesse de quem transmite, levando em conta o andamento do torneio.

A reportagem questionou a Globo sobre os critérios para escolha e o quanto a audiência é importante nesse processo. A comunicação da emissora respondeu o seguinte:

“A Globo mantém seu compromisso de promover a valorização do futebol brasileiro e, em especial, a relação do torcedor com seu clube, reservando em sua grade um espaço nobre para o futebol, não apenas para as transmissões das partidas como também nas matérias e coberturas em seus telejornais esportivos e de rede. É importante ressaltar que o calendário do futebol é definido pelas federações em concordância com os clubes”, disse a TV.

Impacto nos clubes
A diferença no tratamento é, de alguma forma, um reflexo da relação que a Globo vem mantendo com os clubes nos últimos anos. Desde a renovação do contrato de transmissão do Brasileiro em 2011, marcado pela dissolução do Clube dos 13, Corinthians, Flamengo e São Paulo passaram a ganhar mais da TV que os demais, o que se reflete no quanto eles são explorados no dia a dia pela emissora, já que a lógica do torneio Nacional também se estendeu aos Estaduais.

Além de ganharem menos no contrato com a Globo, Palmeiras e Botafogo ainda perdem uma exposição importante quando deixam de aparecer na TV aberta. Sem serem transmitidos ao vivo, os dois perdem, entre outras coisas, poder de barganha com patrocinadores.

Só que os mesmos Palmeiras e Botafogo, no entanto, mostram que nem tudo está perdido. Márcio Padilha, vice de comunicação do clube carioca, tenta ver o lado positivo da situação.

“Por um lado isso valoriza o meu estádio, o programa de sócio-torcedor que nós acabamos de reformular para deixar mais acessível. É uma grande maldade o que a Globo faz com os clubes. Por outro lado, peço à torcida que vá ao estádio. Contamos com eles para mostrar o que o Botafogo pode fazer com ou sem a TV”, disse Padilha.

O cartola alvinegro ainda dá um exemplo interessante. Padilha argumenta que essa política da Globo não é nova e lembra que, mesmo nos tempos de Seedorf, o Botafogo nunca sobrou em termos de espaço na TV Aberta. Ainda assim, o clube teve bons resultados de marketing.

“O patrocínio não é pura e simplesmente exposição de mídia. Há uns anos nós colocamos um xarope de guaraná no ombro do uniforme. A torcida não gostou, dizia que tinha vergonha daquele guaraná, falava que era de quinta. Hoje a GuaráVitton é da moda. O Flamengo tem, o Fluminense tem, o Vasco e outros tentaram. Todo mundo quer ter”, conta Padilha.

O exemplo do hoje fragilizado Botafogo se aplica ao Palmeiras. No teoricamente poderoso mercado paulista, o único grande com patrocínio fechado para a camisa é justamente o dono do Allianz Parque, que na última semana anunciou Crefisa e Prevent Senior, enquanto Corinthians, São Paulo e Santos, com mais tempo de TV, ainda negociam renovações ou novos parceiros.

Fonte: UOL