Neste dia 20 de janeiro de 2015 fazem exatamente 32 anos que Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, faleceu de cirrose hepática no Rio de Janeiro. Conhecido por sua genialidade com a bola entre as pernas tortas, o eterno camisa sete do Botafogo ainda brilhou, e muito, com a seleção brasileira, onde conquistou duas Copas do Mundo – 1958 e 1962.

Em outubro de 1933, nascia no distrito de Pau Grande, em Magé, no Rio de Janeiro, um garoto franzino, mas que com o tempo conquistaria o Mundo. Conforme crescia, o pequeno menino deixava evidente aquela que seria sua principal marca: as pernas tortas. Alguns afirmam que o futuro jogador já nasceu assim, outros contestam e apontam uma sequela de poliomielite.

O fato é que a perna direita de Manuel era seis centímetros mais baixa que a esquerda e, portanto, para encostar no chão, o menino tinha que dobrar o joelho. Esta distrofia física o diferenciava não só dos demais garotos, mas também fez com o que o futuro jogador criasse um dom com a perna direita.

Por estar sempre caçando um passarinho muito comum na região, a irmã do jogador o apelidou de Garrincha, nome dado à espécie Troglodytes musculus. Com 14 anos de idade, o pequeno menino começou a jogar amadoramente no Esporte Clube Pau Grande. Como despertou interesse de um olheiro, o rápido ponta-direita foi convidado a fazer um teste no Botafogo.

Já no primeiro treino, sem demonstrar timidez e com habitual a felicidade nas pernas, Garrincha enfrentou o renomado zagueiro Nílton Santos e não facilitou para o adversário. Os registros contam que foram dezenas de dribles desconcertantes no defensor, que lhe rendeu uma vaga no elenco da Estrela Solitária. Nílton ainda teria pesadelos com Mané.

Dali em diante o jogador deixou para trás o tempo de garoto e a cada partida se firmava como titular do Alvinegro. Nascia uma lenda. Não só pelos títulos que conquistou, mas pelo amor que tinha com a camisa. No Botafogo, Garrincha conquistou nove título e defendeu o clube por 12 anos, de 1953 até 1965, mais de 600 partidas e 245 gols.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Não cabia a Garrincha ser apenas ídolo do Botafogo, o ponta-direita precisava também conquistar todo um país, fazer os milhões de brasileiros se apaixonarem por seu futebol. O ‘Rei dos Reis’ fez tudo o que pode pela Seleção Brasileira. Foram sessenta partidas e apenas uma derrota em mais de 11 anos, contra a Hungria, na Copa de 1966, exatamente seu último jogo com a camisa canarinho.

Em um outro tempo, quando o futebol aceitava repórteres no gramado e dentro dos vestiários, onde era normal jogadores rivais se encontrarem em botecos e o ‘padrão FIFA’ ainda não tinha dominado, Guarrincha montou o seu reinado. Vestindo a tímida verde e amarela, o jogador levava à torcida toda a felicidade de participar do espetáculo.

O camisa 7 carregava a bola até o ataque, driblava o defensor e, descontente, voltava o lance para driblar o mesmo jogador. Até mesmo o mais cético torcedor brasileiro se divertia no Maracanã. E sua principal conquista aconteceu no Chile, não foi muito longe daqui, na Copa do Mundo de 1962.

Pelé, o camisa 10 da Seleção, sofreu uma lesão e teve que abandonar a competição ainda na fase de grupos, na primeira partida. Esta foi a oportunidade do ponta-direita tornar-se protagonista e não decepcionou. A estrela do carioca de pernas tortas começou a brilhar nas quartas de final, quando, praticamente sozinho, despachou a Inglaterra por 3 a 1.

Mais tarde, nas semifinais, o camisa 7 balançou as redes duas vezes contra o o Chile, time da casa, e colocou o Brasil na grande final da Copa do Mundo, contra a forte Iuguslávia. Mesmo sem marcar, o ponta levou a seleção canarinho ao bicampeonato, recebeu a Bola de Ouro, como melhor jogador da competição, e ainda conquistou a vice-artilharia, com quatro gols.

Não cabe comparações entre dois ‘deuses do futebol’, mas se Pelé era o atacante eficiente, que marcou mais de mil gols, Garrincha tornava o futebol mais leve, irreverente. Fazia do gramado seu parquinho e jogar bola era sua maior diversão. A morte precipitada, com 49 anos, foi consequência de um estilo de vida boêmio que o Anjos das Pernas Tortas escolheu para si. Com Pelé e Garrincha no gramado, o Brasil nunca perdeu.

Alguns ídolos já passaram pela Seleção Brasileira depois de Garrincha, mas nenhum deles pode substituir o vazio que o camisa 7 deixou. O homem que transformava um pequeno guardanapo em um latifúndio, como escreveu Armando Nogueira, foi um dos primeiros a valorizar o talento tupiniquim, o famoso ‘jeitinho brasileiro’. A Alegria do Povo era famoso por transformar todos os defensores em ‘joões ninguém’.

Fonte: Futebol Interior