Embora todo aparato em torno do Engenhão esteja voltado para o reforço de sua cobertura, as dúvidas deixadas pelos laudos e vendavais do ano passado lembram que o risco da queda é maior para quem vive na parte debaixo da tabela do Brasileiro. Alheio à pujança das obras, o Botafogo enfrenta uma rotina de precariedade e improviso, a começar pela uso das estátuas de seus ídolos na entrada do estádio para sustentar rede de vôlei da vizinhança. De volta ao amadorismo, o futebol do clube completou 110 anos nesta terça-feira, em atraso com os salários e as vitórias.

— Nosso compromisso é com a camisa do clube e com os milhões de torcedores — disse o goleiro Jefferson, no fim da tarde, ainda na expectativa de que a mediação do sindicato dos jogadores se transforme em crédito em conta. — Não saiu nada.

Com as receitas bloqueadas desde que perdeu o direito ao parcelamento das dívidas, por ter sonegado receitas à Justiça do Trabalho, o alvinegro teve que usar a conta do sindicato para receber uma cota de TV da ordem de R$ 2,5 milhões. Segundo o diretor de futebol Wilson Gottardo, a demora até que o dinheiro chegue aos jogadores e funcionários se justifica pelo fato de a transferência estar sendo feita por meio de quase 500 cheques assinados pelo sindicato. .

Seis no fim da fila

Num mundo cada vez mais digitalizado, a operação rudimentar não tem precedentes nem na origem do clube. Nos tempos de amadorismo, além de jogarem de graça, os jogadores não lutavam contra o rebaixamento nem contra uma espécie de discriminação financeira trazida pela crise. De acordo com o Globoesporte.com, os atletas com salários mais altos ficaram de fora do rateio. Como a quantia é insuficiente para pagar toda a folha, Lucas, Marcelo Mattos, Bolívar, André Bahia, Ferreyra e Bolatti foram para o fim da fila. Com a concentração e a carga de trabalho reduzidas por conta das adversidades, não haverá mais treino integral nesta quarta, como estava programado.

Embora a marca dos três meses de inadimplência, atingida no último dia 5, dê aos jogadores o direito de romper o vínculo com o clube, as lideranças do elenco alvinegro ainda evitam falar em litígio. Depois de disputar a Copa, entre a elite do futebol profissional, restou ao goleiro Jefferson o amor à camisa. No lugar da virtual valorização, chegou a hora de botar na ponta do lápis até quando é possível suportar tal situação. Figura frequente na rotina do futebol, o presidente Maurício Assumpção anda sumido do Engenhão, onde jogadores reafirmam o compromisso diário com a profissão e com o clube na luta contra a queda.

— Nosso grupo está fechado — disse o goleiro.

No lugar do dinheiro, o maior patrimônio nesta terça no Engenhão era a presença do torcedor Diego Menezes, de 7 anos, que fez o pai deixar o trabalho mais cedo para ver o jogo-treino dos reservas. Em meio aos tempos sombrios que encobrem a estrela alvinegra, os olhos de Diego brilhavam com os gols diante do Nova Iguaçu. A julgar que todo o jogador já foi criança, só resta o coração para unir time e torcida. Por amor ou dinheiro, a realidade obriga a fazer contas. Até a reabertura do Engenhão, prevista para o fim do ano, o risco da queda deve ser medido regularmente.

Fonte: O Globo Online