Titular da seleção brasileira, ídolo máximo da torcida do Botafogo, Jefferson vive uma situação insólita. Atingiu o ápice de sua carreira no mesmo momento que seu clube, o Botafogo, enfrenta uma das maiores crises de sua história, com risco elevadíssimo de ser rebaixado para a segunda divisão. Na última quinta-feira, numa conversa de quase uma hora no Engenhão, Jefferson abriu o coração. Acompanhado de dois assessores de imprensa, um particular e outro do clube, o goleiro falou sobre quase tudo. Só pediu para não falar mais sobre a crise do Botafogo, respeitando um trato feito no vestiário entre jogadores, comissão técnica e dirigentes. Hoje, o time enfrenta o líder Cruzeiro, no Mineirão, em nova batalha para evitar a degola. Para o capitão da equipe, até mesmo um empate será bem-vindo. “O importante é a equipe jogar bem”.

Você chega ao ápice de sua carreira no mesmo momento em que o Botafogo luta desesperadamente contra o rebaixamento. Como está convivendo com isso?

Realmente evoluí bastante em 2014. Disputei uma Copa do Mundo e hoje sou titular da seleção. Acho que isso é fruto da minha regularidade. Mesmo com o time mal este ano, consegui manter um bom nível de atuações. O segredo foi ter sabido diferenciar os dois ambientes, os dois momentos. O mau momento do Botafogo não me afetou (na seleção).

Mas teve a Copa do Mundo. Diego Tardelli disse que sentiu o ambiente carregado quando chegou à seleção no primeiro amistoso após o Mundial.

É verdade. Depois da Copa, ficou aquela desconfiança em todo mundo, inclusive entre nós. Os jogadores que estiveram no Mundial não sabiam como seria o recomeço (na seleção). Tínhamos que quebrar o gelo. Felizmente, vencemos os dois primeiros jogos e aos poucos a descontração está voltando. Hoje, já se vê o pessoal brincando no vestiário.

Muita gente acha que você deveria ter sido titular na Copa do Mundo. Se o Mundial tivesse sido disputado fora do Brasil, Jefferson teria sido o titular ?

Não acredito. O Felipão fez as suas escolhas e temos que respeitar. Todas estas questões, a meu ver, estão ligadas ao 7 a 1 contra a Alemanha. Não se pode julgar todo um trabalho por causa de um jogo. Também houve coisas boas.

Desde 1950 há, no Brasil, uma crença de que goleiro de seleção não pode ser negro, por causa da falha que o Barbosa teria cometido na partida final contra o Uruguai.

Entendo a colocação e eu mesmo já senti esta desconfiança por ser negro. Mas, em relação à seleção na Copa, não existiu nada disso. Como já disse, Felipão escolheu quem ele queria.

Você é paulista e se formou na base do Cruzeiro. De onde vem esta identificação com o Botafogo?

Não sei direito. Desde a primeira passagem (entre 2003 e 2005), eu me identifiquei com a torcida. Por isso, quando decidi voltar para o Brasil, em 2009, o clube que eu queria jogar era o Botafogo. E, quando cheguei, o treinador de goleiros era o Wagner, que foi titular por muitos anos do Botafogo, e ganhou vários títulos. Procurei me espelhar nele. Gosto de jogar no Botafogo.

Faltam sete rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro, e o Botafogo precisa de pelo menos mais quatro vitórias. No domingo, enfrenta o Cruzeiro, líder isolado, no Mineirão. Dá para ganhar?

Conseguimos uma boa vitória sobre o Flamengo e caminhamos mais um pouco. Lógico que é complicado vencer o Cruzeiro, mas vamos para vencer. Porém, na minha visão, o mais importante é jogarmos bem. Não podemos mais retroceder. Se jogarmos bem, até o empate no Mineirão será um bom resultado.

Vocês ficam fazendo contas? Qual o número estipulado por vocês para escapar do rebaixamento?

Claro, como todo mundo. Nosso número mágico é 45 pontos. Faltam sete jogos e não podemos mais perder.

No ano passado, o Botafogo tinha Seedorf e você, como capitão da equipe, andou batendo de frente com o ex-craque holandês. Como foi a convivência com ele?

Os problemas que tivemos foram coisas normais no futebol. Ele veio com outra cultura, e algumas atitudes causaram estranheza. Mas vou ser sincero: particularmente, aprendi muito com ele. Seedorf nos mostrou a importância do comprometimento, do profissionalismo. Ele mostrou a importância de haver cobrança entre nós. Aqui no Brasil, a gente fica com receio de melindrar um companheiro com uma cobrança mais forte. O Seedorf mostrou que isso não pode existir de maneira alguma dentro de campo.

Voltando à seleção. Como foi pegar um pênalti do craque Messi num Brasil x Argentina?

Engraçado que, antes do jogo, pensei como seria se tivesse um pênalti contra nós e o Messi fosse bater. Mas, na hora do pênalti, nem me lembrei disso. Só pensava em defender a cobrança.

Em quatro jogos como titular da seleção, você ainda não levou gol. Acha que ainda há desconfiança em relação ao seu nome?

Como já disse, venho mantendo uma regularidade desde 2009, mas nem todo mundo acompanha os jogos do Botafogo. Seleção é outro patamar, outra visibilidade. Hoje, recebo mensagens de gente me dando parabéns.

A Europa ainda te seduz?

Todo jogador deve pensar grande, querer jogar nos grandes times, e não sou diferente. Mas já estive na Europa (jogou na Turquia) e hoje só voltaria para um time de ponta, que disputa títulos, como o Botafogo.

Seu contrato com o Botafogo terminará em dezembro de 2015. Você vai cumpri-lo até o fim?

O clube terá eleições no próximo dia 25 e ninguém sabe quem será o novo presidente, como será o planejamento.

Mas quem quer que seja eleito vai querer contar com você.

O que o Botafogo pretende no ano que vem? Qual será o planejamento? Se estiver pensando grande, ótimo. Quem não quer jogar num clube grande, com time para ser campeão? Vamos ver.

Fonte: O Globo Online