O ex-presidente alvinegro Mauricio Assumpção quebrou o silêncio e resolveu falar à Rádio Botafogo. Entre os assuntos abordados está a polêmica interdição do Estádio Nilton Santos em março de 2013. O ex-dirigente revelou que o prejuízo do clube foi de R$ 42 milhões, contou que chegou a fechar naming rights com a Caixa e explicou por que não entrou na Justiça, além de criticar o ex-prefeito César Maia.

O FOGÃONET transcreveu partes da entrevista.

AS CONDIÇÕES DO ESTÁDIO

MA: “O que tem por trás do fechamento do estádio? Quando chegou para a nossa direção, tínhamos responsabilidade de manutenção estrutural. A Odebrecht estava no estádio fazendo acompanhamento da cobertura. Nós deveríamos nos preocupar com as outras questões do estádio. Tivemos problemas de gramado, elétrico e outros menores. Uma parte da torcida não tinha conhecimento, mas nós sim.

O VP de Patrimônio (Chico Fonseca) teve cuidado grande de fazer relatório de acompanhamento no que cabia ao Botafogo. Estes relatórios foram elogiadíssimos pelo Tribunal de Contas do Município, que os utilizou para cobrar previdências da Prefeitura. O problema da energia elétrica é o mais simbólico. Cada um dos quatro setores tinha uma subestação e deveria ter nobrakes isolados e refrigerados, para, em caso de pane elétrica, estes nobrakes segurarem por 15 minutos e acionarem o gerador. Mas os nobrakes eram baterias de caminhão. O Botafogo reformou tudo. Quando foi testar, o gerador era subdimensionado. Quando tinha mais de 20 mil pessoas no estádio, não chegava água no banheiro de baixo. Havia azulejos caindo.

Um ex-prefeito disse que era estranho o meu silêncio. Estranho foi o senhor assinar que recebeu esse estádio.”

NAMING RIGHTS FECHADO

MA: “Em uma sexta-feira recebi ligação do diretor de marketing da Caixa. Ele me ligou meses antes falando que a Caixa tinha interesse em patrocinar o clube e me convocou para uma reunião. Fui à Brasília, levando também um projeto de naming rights do estádio. No fim da conversa sobre patrocínio, pedi cinco minutos para apresentar. Mostrei o quanto poderia ser interessante para a Caixa ter uma arena às vésperas da Olimpíada, ele gostou. Trabalhamos de uma forma que não precisamos de ingerência política. Ele me ligou em uma sexta-feira dizendo que estava tudo aprovado, não pelo valor que pedíamos, mas que ia sair. Nós pedimos R$ 18 milhões. Perguntei: “Já podemos comemorar?” Ele respondeu que sim.

Na terça chega uma ligação da Prefeitura. Prefeito (Eduardo Paes) pega o telefone e diz que não tem uma notícia muito boa. “Recebi um laudo, diz que existe possibilidade de queda do estádio, vou tomar a decisão de fechar”. Imagina a situação. Em 2013, estávamos muito bem, em 2012 faturamos R$ 9 milhões no estádio. Tinha acabado de fechar negócio de R$ 18 milhões, ou perto disso, em propriedade dificílima.

A Odebrecht apresenta famoso laudo de empresa alemã dizendo que havia risco de cair o estádio. Era ela que controlava o teto. Por que tinha esse cuidado e o restante passou para nós tem que perguntar para a Odebrecht.”

POR QUE NÃO BRIGOU?

MA: “Levantaram a suspeita de ser porque eu era do mesmo partido dos governantes. Se eu tivesse aspiração política, poderia ser verdade. Mas não tinha. Só entrei no partido por pedido do vice-governador (Pezão), botafoguense apaixonado, e porque Flamengo e Vasco tinham representantes na política (Patricia Amorim e Roberto Dinamite).

O que faria naquele momento? Falar que Botafogo ia devolver o estádio? Posso estar chateado de perder R$ 18 milhões e 2 anos, mas o Botafogo tinha mais 17 anos pela frente. Eu tinha uma responsabilidade. Podia devolver o estádio e pedir indenização na Justiça, mas onde o Botafogo jogaria hoje? Acha que ganharia a concessão depois da reforma? Vamos ter esse problema lá na frente, quando a concessão acabar. Vai ter clube do Rio de Janeiro louquinho nesse estádio. Tentaram inventar que era difícil chegar, mas tem trem do lado e estacionamento para 1500 vagas. Quantas e quantas vezes lotamos o estádio. Qualquer coisa que eu falasse poderia significar o Botafogo estar sem estádio hoje. Se entrasse na Justiça, ia estar brigando até hoje sem ser ressarcido. Romper e devolver o estádio era um tiro na cabeça. Onde jogaríamos hoje? Quem estaria com o Nilton Santos na mão?”

PREJUÍZO

MA: “O prejuízo todo ficou com o Botafogo. Ganhamos o Carioca em Volta Redonda, era para ser no Estádio. A decisão foi não romper, não devolver e brigar para correr atrás do prejuízo. Passamos 2013 sem estádio e 2014 com receita bloqueada. Quando chamamos os escritórios para entender onde devíamos ir, contra quem brigar, ficava claro que deveríamos ter um relatório das perdas que tivemos. Senão não ia adiantar. Isso tinha um custo. No início do segundo semestre de 2014 conseguimos esse relatório, deixamos de faturar R$ 22 milhões em 2013 e mais R$ 20 milhões em 2014. Receita líquida.

Fizemos toda uma programação para entrar na Justiça contra. Mas eu estava no fim de mandato. Não sabia se a outra direção ia querer dar continuidade, cabia a eles. Juntei toda a documentação, entreguei à secretária do presidente novo, caberia a ele tomar a decisão. Contra quem na Justiça? Contra a Prefeitura. Pagávamos um valor de aluguel à Prefeitura, se ela ia pagar direto ou entrar com A, B ou C era problema dela. Não podíamos entrar contra consórcio porque não tínhamos ligação com consórcio.

Se eu tivesse isso no início de janeiro era responsabilidade minha, eu ia entrar na Justiça. Mas estava no fim do mandato. Outra diretoria podia dizer que não queria aquele escritório. O grande problema foi que não conseguimos, por falta de dinheiro, fazer essa laudo antes. Se a decisão coubesse a mim no início de 2014 teria tomado a decisão. No fim do mandato não podia decidir.”

ACREDITA NA INTERDIÇÃO?

MA: “Eduardo Paes me fez uma pergunta. “Tenho um laudo, você assume o risco e vai para o jogo?” Respondi: “Você recebe um laudo de empresa alemã, não sou engenheiro, entendo algo de engenharia dentro da cavidade oral, que tem parâmetros similares. Óbvio que não assumo o risco.” Na minha cabeça era estádio com 40 mil pessoas tendo um problema. Ah, mas o Botafogo poderia contratar uma empresa para fazer um laudo. Mas com que dinheiro?

Quantos anos têm de Lava-Jato? 4? O que apareceu nessas diligências todas, em algum momento apareceu algo? Se houvesse ingerência da Odebrecht não teria aparecido? Fiquei p da vida, mas romper significava devolver o estádio. Quem iria pegar o estádio depois?

Ser valente, berrar, brigar era prejuízo para o Botafogo. Apanhei muito por isso. Disseram que politicamente eu estava encrespado para falar, e não estava. Minha decisão tinha que ser pensando em estádio retornar e o Botafogo brigar na Justiça para retomar o dinheiro. Infelizmente, tem um tempo que não gostaríamos fosse tão longo. Não há como recuperar em uma semana R$ 42 milhões que tivemos de prejuízo.”

 

Fonte: Rádio Botafogo