Em longa entrevista ao site Globoesporte.com publicada nesta segunda-feira, o presidente do Botafogo, Nelson Mufarrej, revelou estar na torcida para a entrada de investidores com a formação de uma SPE (Sociedade de Propósito Específico), plano proposto pelo estudo encomendado pelos irmãos Moreira Salles.

Segundo ele, uma das prioridades no momento é encontrar uma pessoa para tocar o projeto. O Botafogo precisa criar um novo CNPJ (que seria o Botafogo S/A) para fazer a transferência no final do ano e iniciar 2020 já sob nova gestão. Ainda não há a definição nem de quem comandará a operação e nem quem e quantos serão os investidores.

– Eu não sei ainda se a Ernst & Young (auditoria) vai continuar, se ela já avançou em algum ponto no projeto em si. Não temos ainda uma concepção efetiva de quem irá. É dos grandes botafoguenses? Dos grandes investidores que vão se unir? Alguém vai chamar? Ou é através desse projeto da Ernst & Young? Hoje (sexta) completam duas semanas que tomamos conhecimento do projeto. Várias pessoas estão se movimentado, inclusive eu. Toda a diretoria sente a movimentação, mas uma pessoa tem que liderar. E ainda não existe essa pessoa liderando – afirmou Mufarrej, ressaltando que os irmãos não irão liderar essa transição:

– Os irmãos não vão liderar, eles vão ficar equidistantes examinando como vai ser o andamento desse projeto. Se vão participar ou não, eles que vão determinar. Por isso, eu já estou chamando de grupo de investidores. Eles podem estar ou não. Eles já disseram isso: “Talvez não”. Todo mundo estava achando inicialmente que um dia eles chegariam aqui na Sala da Presidência e falariam: “Dá licença, presidente, botamos o dinheiro aqui e nós que vamos gerir”. Ótimo se eles fizessem isso. Estaria abraçando muito a eles. Mas eles não querem. A gente não pode exigir isso deles.

– Eles (Moreira Salles) deram o pontapé inicial, o jogo já começou. A bola já começou a rolar e tem que rolar nesses 90 minutos, ou seja, nesses cinco meses restantes – resumiu.

O presidente do Botafogo disse que não vê a hora do projeto dar os próximos passos e revelou não ter vaidade e apego ao cargo:

– Se chegarem agora, a gente interrompe a entrevista, e disserem: “Presidente Nelson Mufarrej, o senhor vai ficar ali olhando. O senhor entrega seu cargo? Acabou, entrego a hora que quiser”. Não por falta de capacidade, vamos colocar bem isso, sim para ajudar o engrandecimento do Botafogo. Falei exatamente isso: não sou um cara vaidoso, sou vaidoso para certas coisas, mas não me apego a cargos. Exerci vários cargos no Botafogo e na vida pública. Quero contribuir a um cargo que exerço. Aprendi com meu pai. Ele não era um cara vaidoso.

Veja outros pontos importantes da entrevista:

PRÓXIMOS PASSOS
“Primeiro lugar: quando tivemos naquela sexta-feira (26 de julho) na Ernst & Young, ficou combinado de que assinaríamos uma carta de concordância ou não. Eu tomei a iniciativa de logo dizer a todos presentes que estávamos plenamente de acordo. E que se houvesse essa carta, que nos mandassem o mais rapidamente possível para pegar a assinatura de todos os vice-presidentes que estavam presentes e dos que não estavam presentes. Essa carta não veio, mas o projeto em si está aprovado, não tenho o que dizer nada contra o projeto, mas é um projeto ainda conceitual. Agora sim ele tem de sair do papel, têm as etapas a serem cumpridas. Só que essas etapas, na minha opinião, têm que ser muito rápidas. Porque entre dezembro e janeiro nós vamos poder transferir os direitos federativos para a SPE que vai ser feita. Caso contrário, só no ano seguinte. Não tem jeitinho, é aquilo ali, e isso tem que ser respeitado. Isso nos preocupa. Existe um trabalho que está começando a ser feito. É preciso saber quem vai fazer parte da SPE, ou seja, quem são os investidores efetivamente.”

‘PROJETO MOREIRA SALLES’
“Com relação ao nome que foi dado, “Projeto Moreira Salles”, isso incomoda muito a eles. Eu gostaria que todos falassem “Projeto dos Investidores”. Não tenho dúvida, acho eu, de que eles vão fazer parte. Mas eles não querem que fique essa responsabilidade. Eles deram o projeto para nós. Simplesmente falaram “Toma esse projeto, Botafogo”. Os botafoguenses de relação com eles que participaram diretamente desse processo e que vão efetivamente começá-lo. Eles não participaram. Foi a Ernst & Young, teve a parte jurídica. Então, outras pessoas que vão se arrumar para cumprir todas as etapas necessárias para a formação e efetivação desse projeto. Esse é o funcionamento. Temos 15 dias de agosto, setembro, outubro, novembro e 15 dias de dezembro por causa das festas, e a CBF fecha também. E a gente tem o início de janeiro. É um tempo muito rápido. Eu vejo esse projeto como importantíssimo para a sobrevivência do Botafogo, a nossa sobrevivência. Nós, botafoguenses, estamos ansiosos para que esse projeto se realize.”

SEM VAIDADE
“Já me perguntaram: “O que o senhor, como presidente, acha disso? Então o senhor vai ficar no segundo plano”. Pelo Botafogo, eu fico em 10º plano. Isso aí me dá tranquilidade e um incentivo de trabalhar para que esse projeto saia. E que a gente chegue ao final com todo mundo vendo o Botafogo numa nova fase. É difícil? É difícil. Mas aí digo a todos os botafoguenses que fatalmente podem ajudar o Botafogo: “Venham ajudar o Botafogo”. O Botafogo precisa dessa ajuda, de pessoas que vão se unir pelo engrandecimento e para o Botafogo voltar a ser aquele Botafogo que conhecemos com Garrincha, Amarildo, Quarentinha, Nilton Santos, Manga… Aquele clube que mais cedeu jogadores à seleção brasileira. Isso é muito importante. É um momento importante do Botafogo, e a gente precisa de muita união para colocar realmente esse projeto em andamento final. Ou seja, a partir de janeiro de 2020.”

INVESTIDORES NA SPE
“Penso inicialmente que você tem que ter a liderança, tem que ver realmente quem são os investidores porque você só pode formar a SPE se você os tiver. Você pode formar a SPE com cinco ou seis investidores. O local já temos, bom que o Botafogo tem várias sedes. Não tem problema. Quando não se tem o local, é preciso procurar um e alugá-lo. É preciso ver também que a Companhia Botafogo (pessoa jurídica criada em 2007 para administração do futebol alvinegro) tem a concessão do estádio. A concessão do Nilton Santos vai para a SPE? Não. Continua com o Botafogo. Pode ser uma locação ou um acordo. São etapas cheias de detalhes que vamos ter. Para eu falar todas as etapas, posso estar errando. É preciso também saber quantos serão os investidores. Disseram que é preciso R$ 332 milhões, mas vamos arredondar para R$ 300 milhões. Pode-se pegar 30 investidores com R$ 10 milhões. Evidentemente que vamos ter que levar esses detalhes para o Conselho Deliberativo ou para a Assembleia Geral.”

REUNIÃO DO CONSELHO
“Setembro vai ter uma reunião do Conselho Deliberativo, eu gostaria de ter antes. Até para se houver uma necessidade de alteração no Estatuto do Botafogo, que é pequena. Não tem nada de mirabolante no meu entendimento, mas estamos vendo isso friamente. Tomara que seja antes. Fazendo uma comissão estatutária rapidamente, aprova isso, e acho que a Assembleia Geral também aprova. Acho que é interesse dos botafoguenses. Não vejo nenhum botafoguense contra esse projeto. O botafoguense quer ver o Botafogo sem essas dificuldades que temos e sem essas dívidas que nos atrapalham. São penhoras atrás de penhoras a cada dia. Eu chego aqui, vejo o celular e teve mais uma penhora. Risco de penhora é o termo mais usado aqui (risos). A gente tem que sair correndo para tentar negociar essas ações a fim de que a receita não seja totalmente comprometida.”

PERFIL DOS INVESTIDORES
“Ainda não há uma definição. Citei o exemplo de 30 investidores, sejam empresários ou ex-empresários que tenham dinheiro e queiram investir na SPE. A SPE tem que ser lucrativa, dar retorno aos investidores. Não estão dando dinheiro para o Botafogo. Há entrada e saída de dinheiro com retorno. O grupo ou uma pessoa que coordenar esses investidores que vai poder dizer efetivamente se vai ser com 30 investidores ou 100, por exemplo. Se a pessoa com valor menor vai poder entrar ou não. Acho que esse é o momento mais delicado: conseguir os investidores e definir como se fazer (a SPE).”

R$ 30 MILHÕES PARA CONTRATAÇÕES
“Se eles se comprometeram não sei, ainda não falaram comigo. De todos que a gente imagina que serão investidores, a intenção deles é essa. É um período muito curto. Em 2020, para se formar isso é preciso de um investimento muito grande. Não sei se com R$ 30 milhões, a gente consegue formar uma boa equipe. Apesar de termos jogadores que são nossos e permanecerão em 2020, e esse planejamento tem que ser feito. Não posso dizer se são R$ 15 milhões, R$ 30 milhões ou R$ 50 milhões. O investidor que vai analisar qual é a melhor estratégia. Eu chego para você e digo “R$ 30 milhões está tudo bem, tá ótimo”. Aí o cara chega e diz: “Não é nada disso, para formar um timaço preciso de R$ 80 milhões”, ou então: “eu com R$ 10 milhões resolvo”.”

Fonte: Globoesporte.com