Carlos Eduardo Pereira assumiu uma bomba. O Botafogo chegou perto de implodir em 2014 e, diante de polêmicas dentro e fora de campo, foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, o administrador, com 56 anos à época, virou presidente do clube. A situação não era fácil, como o próprio mandatário, em entrevista exclusiva ao LANCE!, conta.

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– O Botafogo, quando nos foi entregue, no final de 2014, a situação era a pior possível: todas as contas bloqueadas, excluído do Ato Trabalhista, bloqueios da procuradoria da Fazenda Nacional, ações trabalhistas com seis jogadores. Quando contratei o Antônio Lopes, disse a ele que não tínhamos time para entrar em campo. Jamais acreditei que ele fosse acreditar trabalhar aqui. Ele falou que ia montar uma equipe mesmo com as contas bloqueadas. Perdemos alguns jogadores, como o Gabriel. Disse para ele não fazer isso conosco, que faria um acordo para a saída. O Botafogo estava indefeso. Ele conseguiu a liberação. Montamos um time e fizemos uma campanha digna no Carioca – afirmou.

Uma das grandes polêmicas envolvendo a gestão de Carlos Eduardo Pereira, presidente do Botafogo de 2015 a 2017, foram os contatos com a Rede Globo, detentora dos direitos televisivos para transmissões de competições. O atual vice-presidente geral de Nelson Mufarrej, que comanda o clube, é acusado de adiantar cotas. O dirigente explicou que boa parte do dinheiro vindo da empresa durante sua passagem como presidente chegou como renda extra para quitar importantes questões financeiras.

– Fechamos um contrato com a Globo e recebemos luvas de R$ 60 milhões. É importante explicar que luva é algo extra-contrato. O adiantamento é algo que tira do contrato, é um direito a mais. Com ela, você financia seu custeio ou amortiza suas despesas. A dívida do Botafogo em 2014 cresceu 27%. Ao fazer o Ato Trabalhista, conseguimos colocar quase todo mundo, menos o elenco daquele ano, que quase não recebeu salário. Nós sabíamos que ia chegar muita coisa. Buscamos uma defesa contra essas ações. De Ato, pagamos 50 milhões, tudo em dia. Dos R$ 60 milhões que a Globo entregou, 50 foram para pagar o Ato. Não tem mágica. O Alvinegro tinha uma posição confortável no Ato, que era declarar parte da sua receita ao juízo. Recebia 2 milhões e dava 10%. Agora não. Quando renovamos, tínhamos perdido a credibilidade. Começou uma parcela fixa de 1 milhão por mês, custe o que custar. Não tinha escolha – explicou.

– Na procuradoria da Fazenda Nacional, foi a mesma coisa, parecia que eu ia ser preso. Tinham reclamado que o Botafogo fazia promessas e não voltava. Garanti que as coisas tinham mudado. O primeiro caso foi o do Fellype Gabriel. Vendemos por 323 mil dólares, o clube árabe pagou, o dinheiro foi penhorado e o Botafogo não trouxe a renda para o Brasil, ele ficou voando. Chamei o Domingos (Fleury, VP Jurídico), que falou que não tinha jeito. Disse ao doutor que ia trazer o dinheiro ao país e depositar. Foi nosso primeiro movimento na presidência. Expliquei a ele que tinham momentos que ele teria que entender que algumas coisas nós não conseguimos fazer. Só de acordos e condenações diversas, nós pagamos mais 20 milhões nos três anos de gestão. Foram 70 milhões do tais adiantamentos que a gente recebeu. Foram uma luva e um adiantamento – completou Carlos.

O ex-presidente, contudo, admite que realmente houve um adiantamento de cotas. Nas palavras de Carlos Eduardo Pereira, a ação partiu da Rede Globo, que fez um reajuste financeiro e ofereceu um desconto sem juros no futuro, com haviam feito com os outros 19 clubes da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O administrador, portanto, garante: suas ações financeiras com a empresa de comunicação foram a luva e este adiantamento, totalizando mais de R$ 100 milhões.

– A Globo nos chamou e disse de um adiantamento aconteceu no contrato de todos os clubes. Com dificuldade no fluxo de caixa, propuseram um reajuste menor e que tentaria compensar com um percentual maior na forma de adiantamento na cota do Brasileirão, descontando este valor no futuro sem juros. Mais nada foi feito na nossa gestão. Foi a única coisa feita. Como a gente só tinha seis jogadores no momento que chegamos, não mexi em nada e entreguei um elenco completo para o Nelson (Mufarrej). Um plantel que havia tido uma performance fantástica na Copa do Brasil e na Libertadores. Seguramos o Igor Rabello e o Matheus Fernandes, só aí foram 30 milhões em vendas, coisa que não tinha. O Bruno Silva foi um dos melhores negócios que a gente já fez. Foram 20% dele por 5 milhões de reais, e o Cruzeiro pagou. Por oposição, tem pessoas que não gostam de você – afirmou CEP.

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POLÊMICA COM A ODEBRECHT

O Botafogo foi rebaixado jogando longe de sua casa. O então Engenhão estava interditado pela Prefeitura do Rio de Janeiro por um suposto risco de queda. Além da questão esportiva, o fechamento da estádio fez com que o Alvinegro perdesse R$ 60 milhões que estavam previstos para serem recebidos pela arena. CEP explicou o primeiro contato que teve com a Odebrecht, empresa responsável pela construção e obras no, agora, Estádio Nilton Santos.

– Quando assumi o clube vi que era o maior credor do Botafogo. Primeira coisa que fiz foi falar com o Carlos Alberto Torres e ir ao prédio da Odebrecht. Falei com o diretor que tinha acabado de chegar e queria conversar sobre o contrato. Ele me olhou e respondeu: “Meu filho, você está preocupado com esse contrato? Esquece dele”. Eu disse que assumiria um compromisso e nunca mais falaria disso. Acabou, tomamos café e nunca mais ninguém falou desse contrato – explicou o ex-presidente.

A questão, contudo, aumentou de maneira desproporcional. O Botafogo se sentiu prejudicado pela interdição do Estádio Nilton Santos e cobrou R$ 20 milhões da Odebrecht, valor de dois empréstimos (de R$ 10 milhões cada) feitos ainda na gestão Maurício Assumpção. A construtora, em contrapartida, devolveu com uma cobrança de R$ 35 milhões ao clube. Mesmo com os valores elevados, Carlos Eduardo Pereira entende que questionar o contrato foi a melhor opção para o Alvinegro.

– Faltando três dias para o contrato vencer, com a Odebrecht já com problemas, fizeram a cobrança. Fomos consultar o contrato e vimos todas as operações estruturadas. Um contrato que não tem objetivo claro. O Botafogo, se não tivesse tido a iniciativa de questionar, atualmente estaria com mais uma dívida gigantesca apontada. Criou-se um imbróglio gigantesco. A interdição do estádio virou uma grande confusão. A Odebrecht apresentou um laudo que a Prefeitura se baseou nele para interditar o Nilton Santos, eles fizeram a obra junto com a OAS, a Prefeitura não paga nada. Aí a Odebrecht cobra da Racional, a Racional briga com a Odebrecht porque fez a montagem da cobertura e não admite que tenha havido erro na montagem e o Botafogo é uma vítima dessa grande confusão. Se o Botafogo não faz nada, ainda sairia devendo 50 milhões dessa história. Conseguimos mover essa ação e bloquear isto até que tudo se resolva. Não sei quando vai se resolver nem quem tem razão, isso cabe ao Judiciário – afirmou o ex-presidente.

Na época, o Botafogo apresentou notícia de crime contra a Odrebecht e Maurício Assumpção, presidente que fechou o contrato com a construtora na década passada. O departamento jurídico, liderado pelo advogado Walmer Machado, está cuidando da ação contra a empresa – no começo de dezembro, o Alvinegro conseguiu a suspensão da tramitação da Execução movida pela companhia.

Veja mais declarações de CEP ao Lance:

Atual situação do grupo “Mais Botafogo”
– O Mais Botafogo se desgastou muito em imagem nessa gestão. Eu saí do grupo, mas não vou dar as costas para as pessoas que concorri em 2011 e ganhei junto em 2014. Tenho muitos amigos lá. Acho que você tem que ter equilíbrio na hora de avaliar. Nem todo mundo é 100% ruim nem 100% bom, todo mundo tem erros e acertos. Infelizmente agora os resultados negativos estão mais próximos, estão aparecendo mais. Mas é claro que o período de 2014 a 2017 foi muito importante para permitir que o clube voltasse a um ritmo de funcionamento. Foi algo bacana. Os torcedores tiveram a autoestima recuperado. Politicamente ninguém pode negar isso.

Crise do grupo político
– Acho que foi uma questão de opção. Toda mudança de gestão depende do grupo e algumas pessoas da diretoria optaram por mudanças no modelo que a gente vinha imprimindo. Alguns indivíduos do Mais Botafogo usaram da sua influência para a mudança desse modelo. Acho que isso ajudou para que as coisas ficassem um pouco mais difíceis do que elas estavam. Foi por esta razão que deixei o grupo. Houve uma incompatibilidade. Eu tentei alertar, mas os alertas não foram ouvidos. Já estava vendo um grau elevado de divergência e achei por bem que não havia por bem estressar mais essa relação. Não estava sendo ouvido, então optei democraticamente por sair. Já havíamos perdido o Jorge Aurélio Domingues, um grande amigo, não queria criar tumulto no ambiente do Botafogo, o clube já estava muito fragilizado.

Por que o clube não conseguiu repetir o destaque de 2017?
– O departamento de futebol foi muito modificado no final de 2017. Saíram Jair Ventura, Antônio Lopes, preparadores físicos, o Antônio, o nosso melhor analista de desempenho. Mudou a forma como o departamento trabalhava. O Lopes estava conosco desde o primeiro momento, em 2015. Treinador tivemos o Renê Simões, Ricardo Gomes e Jair Ventura esse tempo todo. Era uma espinha dorsal que estava junta há muito tempo. Acho que essa mudança, da forma como feita, pode ter influenciado essa queda de desempenho, além da mudança da forma de trabalhar. Nós tínhamos foco no coletivo. Nós vemos declarações do time campeão da Libertadores que você não pode mais trabalhar com uma pessoa decidindo tudo, e foi justamente o que o Botafogo fez. Era uma pessoa para decidir tudo. A chance de dar errado era muito grande.

O fato de não ter se classificado à Libertadores de 2018 pesou para o atual momento financeiro do clube?
– Pesou financeiramente. Isso foi importante. O time perdeu valores em 2017. Temos que fazer um elogio ao Antônio Lopes, porque ele trouxe muitos jogadores que hoje estão em clubes de ponta, como o Diogo Barbosa e Willian Arão, quando eram desconhecidos e vieram de graça para o Botafogo. Gatito e Carli estão conosco. Atletas sem custos e conseguimos montar um time forte. Quando começamos a perder alguns desses jogadores, o time enfraqueceu. Sobre contusões, o time não tinha uma boa reposição porque o orçamento era restrito. Na fase final do campeonato aconteceram coisas incríveis. A derrota para o São Paulo foi inexplicável. Normalmente o Botafogo estaria classificado para a Libertadores do ano seguinte. Mas, para o outro lado, nós vimos o Botafogo de 2018 ser eliminado na primeira partida da Copa do Brasil, então não sabemos o efeito do que poderia ter acontecido. Essas competições mata-mata são muito importantes para o caixa, nós sentimos isto em 2017. Foi uma decepção, todos estavam contando com aquela classificação.

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Você contava com a Libertadores para o planejamento de 2018?
– Eu esperava entregar o clube novamente classificado. É claro que, na minha cabeça, inicialmente, nunca passou isso. Assumi com o objetivo de voltar à Série A e ficar por ali. De repente, subimos, classificamos para a Libertadores, vamos adiante na competição e sonhamos com outras coisas. Você espera entregar o clube pelo menos no mesmo patamar. Mas não pudemos fazer nada. Foi um desejo que cairia bem a calhar.

Entregaria a presidência mesmo se tivesse se classificado à Libertadores?
– Já estava tomada porque eu sou contra reeleição. Acho que isso não é uma coisa positiva. As pessoas se acomodam e perdendo suas ligações com os compromissos iniciais e acho que você deixa de criar novas lideranças. Tive problemas familiares. Minha esposa fez duas cirurgias nos primeiros dois anos de gestão, então achei que estava de bom tamanho o esforço realizado na presidência.

Reclamações no Facebook
– Tem um pequeno grupo lá que o Ricardo Wagner chamou de “oposição amadora”. É o Carlos Eduardo Godinho, conselheiro fiscal, e o Thiago Pinheiro. Eu respondo. Isso é uma mentira que foi repetida.

Fonte: Terra