Padrão-Copa? Futebol brasileiro vê preço de ingressos disparar 361% em 10 anos

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Mesmo que os clubes brasileiros não venham apresentando um grande futebol nos últimos anos, acompanhá-los está cada vez mais caro. Segundo pesquisa da Pluri Consultoria, o valor médio dos bilhetes mais baratos para partidas de times da Série A no Brasil subiu 15% em 2014. A inflação, para efeitos de comparação, subiu 3,75% segundo o IPCA.

O aumento neste século é expressivo. O valor subiu 478,1% de dezembro de 2002, quando a medição foi iniciada, a junho de 2014. A alta, no entanto, não condiz com a inflação acumulada do período, que ficou em 98,13%. Para ir aos jogos dos clubes que disputam a primeira divisão, o torcedor brasileiro precisa pagar hoje, em média, R$ 51,74.

No estudo, consta também a variação de preço do “pacote futebol”. Nele, estão incluídos os gastos de um torcedor comum com ingresso, transporte e alimentação. O valor, estimado em R$ 91,41, subiu 6,1% este ano e 386,8% desde dezembro de 2002. No espaço de dez anos, a alta foi de 361%. Os torcedores se queixam que os atrativos — facilidade de locomoção e acesso ao estádio, comodidade e, principalmente, qualidade do espetáculo — estão longe de valer aquilo que lhes é cobrado.

— Chama a atenção o fato de os ingressos terem subido 361% em 10 anos, contra uma inflação de 85%. Ou seja, um processo de aumento real dos preços incompatível com a evolução da renda da população, tendo como resultado estádios cada vez mais vazios — avalia Fernando Ferreira, economista e diretor da Pluri Consultoria. — Futebol é uma operação de escala, onde você pratica um preço atraente, enche os estádios e a partir daí melhora a margem de operação elevando os preços. No Brasil fizeram o contrário, apostou-se que o público viria antes do teste efetivo do mercado. Consumidores estão falando claramente que não concordam com os preços praticados (para o produto que lhe oferecem), e o fazem da maneira mais clara: não compram ingressos e os estádios ficam vazios, com baixíssima taxa de ocupação.

O jogo entre Cruzeiro e Vitória na última quinta-feira, válido pela rodada de reinício do Campeonato Brasileiro, é um exemplo. Os 25.810 cruzeirenses que foram torcer no Mineirão pelo atual campeão nacional (e líder da competição em 2014) contra os baianos precisaram desembolsar valores de R$ 50 a R$ 170. Os ingressos mais acessíveis para a partida, vencida pelos mineiros por 3 a 1, custavam apenas R$ 10 a menos do que as entradas mais em conta para jogos da primeira fase da Copa do Mundo no estádio, quando craques como James Rodríguez e Messi exibiram seu talento na cidade. Uma disparidade e tanto.

— A discussão não pode ficar só no preço. Os clubes têm que ter estratégia. Mas, no Brasil, tudo é feito na base da tentativa e erro. É possível ter entradas populares a R$ 10. Desde que elas sejam subsidiadas pelos ingressos VIPs, por exemplo. Além disso, o “produto” futebol é muito ruim. Os jogos são de péssima qualidade, há violência entre organizadas, os horários das partidas são tarde demais, não há transporte público — enumera Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva.

Já em Florianópolis, o torcedor do Figueirense foi pego de surpresa ao saber do preço cobrado pelo clube na entrada para a partida contra o Grêmio, no último sábado: de R$ 100 a R$ 200. No penúltimo jogo em casa — no dia 1º de junho, contra o Atlético-PR, pelo Brasileiro —, os ingressos variavam de R$ 60 a R$ 120, de acordo com o borderô. Aumento de 66% no valor da entrada mais barata em pouco menos de dois meses.

— A minha impressão é que o preço só está afastando a torcida — avalia Rafael Silveira, torcedor do Figueirense. — Cobrar R$ 100 é um roubo. O clube vinha cobrando R$ 60 desde o início do ano. Já achava caro, ainda mais no Catarinense, para ver jogos com Metropolitano, Marcilio Dias, e agora resolveram aumentar. Quem vai pagar R$ 100 para ir numa arquibancada descoberta, em um dia frio ou chuvoso, ver uma partida horrível como foi Figueirense x Grêmio? Ninguém — desabafa o torcedor.

NECESSIDADE DE ‘ENTENDER’ O TORCEDOR É A CHAVE

A polêmica sobre os altos valores acabou, literalmente, em Fla x Flu no Rio de Janeiro. Os dois clubes, que têm contrato com a Maracanã S.A., praticam políticas radicalmente distintas. O tricolor carioca decidiu cobrar preços baixos pelas entradas: em média, R$ 17. A ação surtiu efeito e atraiu torcedores ao estádio: como mandante, o time das Laranjeiras tem a segunda melhor média de público do campeonato: 24.538 pessoas. A arrecadação total chegou a R$ 2.160.430,00.

O rival da Gávea, dono da maior torcida do país, fez o contrário: continuou a praticar preços mais altos. A política teve início nas fases decisivas da Copa do Brasil de 2013 e chegou ao seu auge no final da competição, quando alguns bilhetes para o jogo do título, contra o Atlético Paranaense, chegavam a custar mais caro do que entradas para a final da Liga dos Campeões da Uefa. O resultado financeiro se mostrou vantajoso: no ano passado, segundo o balanço do rubro-negro, foram arrecadados R$ 48,2 milhões apenas com bilheterias. Apesar das críticas, a diretoria descartou a possibilidade de vender ingressos a preços populares.

— O Flamengo vai viver dos pobres, jogar um futebol pobre e ser um time pobre, porque o negócio futebol mudou — ironizou o vice-presidente de Marketing, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, em entrevista ao “Globo” em agosto de 2013.

Nos dias que antecederam às finais da Copa do Brasil, a discussão sobre o preço das entradas, que ia de R$ 250 a R$ 800 para não associados, foi acalorada. Todos entraram na discussão — até o capitão do time. Léo Moura, que avaliou o valor como “puxado”.

— O Flamengo é povão e paixão. A torcida é apaixonada pelo clube e sei o quanto o torcedor faz sacrifício para ir aos jogos, mas não quero que se coloque em situação prejudicial. Quem recebe salário mínimo tem que ver o lado da família primeiro — disse o lateral, na semana da decisão.

O mau desempenho dentro do campo no Brasileiro fez a audiência despencar. O time da Gávea, como mandante, tem média de 12.571 pessoas — praticamente a metade do rival. Contudo, sua renda bruta ficou em R$ 3.463.310, já que o valor médio do ingresso é R$ 45.

— Cada clube tem que estudar o melhor caminho. O sonho é lotar estádios com preços caros, como faz o Corinthians atualmente. Mas, se isso não é possível, é preciso encontrar o equilíbrio econômico e mercadológico. Os clubes alemães, que praticam o ingresso médio mais barato da Europa, encontram outras maneiras para garantir renda. Seja através de contratos de patrocínio ou da venda de produtos diretamente ao consumidor durante os jogos — avalia Somoggi.

Se, após a tragédia do 7 a 1, especialistas em futebol apontaram que o Brasil tem muito a aprender com a Alemanha dentro dos gramados, talvez também deva olhar para as arquibancadas do atual campeão do mundo, onde acontece o campeonato com maior média de público da Europa. Lá, há uma obrigação legal de reservar um pedaço dos estádios para ingressos populares.

— Você dificilmente encontrará alguém que irá discordar da ideia de que a Bundesliga é o campeonato de futebol mais atraente e mais centrada no torcedor em todo o mundo. Isso acontece muito em função do entendimento de cada clube entender seus torcedores. Como resultado, todo mundo quer ir aos jogos — explicou Christian Seifert, CEO da Bundesliga, em entrevista ao site SportBusiness.



Fonte: O Globo Online
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