É difícil olhar para René Simões e não vê-lo bem humorado. Mas basta chamá-lo de teórico para o semblante mudar. O novo treinador do Botafogo, conhecido pelo estilo professoral com que transmite seus conceitos, não gosta de ser rotulado como filósofo. “Eu gostaria de saber onde é que cultura atrapalha?”, questionou o técnico, que garante ser um boleiro entre os jogadores.

— Eu não fico lá em cima. Eu puxo o jogador, mas eu desço muito para que eles possam me entender. Eu falo a linguagem do boleiro.

Ao menos dentro de campo, René tem sido econômico nas frases professorais. Na última terça, para incentivar os jogadores no treino ele não hesitou em usar um “se existe problema, existe solução”. Mas parou por aí. No mais, tem brincado e cobrado o menor número de erros.

— Tem que tocar para lá, para cá, para frente. Na hora que errarem a gente entra. Tem que ter calma. Parece que estão querendo fazer estupro, pô! — gritou no treino para pedir calma ao atacar.

 

René Simões observa o treino do Botafogo no CT de Várzea das Moças, em Niterói
René Simões observa o treino do Botafogo no CT de Várzea das Moças, em Niterói Foto: Vitor Silva / SSPress

Aos 62 anos, René mostra empolgação de iniciante. Ele se movimenta pelo campo, grita e conversa com os jogadores. Ao instituir que os erros seriam pagos com flexões, foi ao chão e fez os exercícios quando ele mesmo errou uma contagem.

— É óbvio que ele gosta de usar o conhecimento teórico como um predicado. Mas ele gosta muito mais de ir ao campo, fazer com que repitam os lances. Isso favorece a visualização da jogada — disse o auxiliar Alfredo Montesso, que trabalha com René desde 1996, na Jamaica.

Ao deixar a direção de futebol do Vasco, em 2013, René decidiu não assumir mais cargos fora dos campos. Desde então, foram dois anos afastado do esporte. Nesse período, fez cursos para se preparar. Agora, garante estar diante de seu maior desafio.

— Se eu não classificasse o Mesquita (quando o treinou, em 1985), que problema teria? Nenhum. Se não classificasse a Jamaica para a Copa (de 1998), que problema teria? Nenhum. Se não colocasse a seleção feminina no pódio (em 2004), seria problema só para mim. Agora, o Botafogo por trás dele tem Garrincha, Didi, títulos… Não dá para falhar — explica o técnico, que diz não aceitar outra meta na Série B que não o título:

— Eu estou colocando essa pressão. Tem que ser campeão. Não tem só que subir.

 

René Simões conversa com o presidente Carlos Eduardo Pereira, o vice de futebol Antonio Carlos Mantuano e o gerente de futebol Antonio Lopes
René Simões conversa com o presidente Carlos Eduardo Pereira, o vice de futebol Antonio Carlos Mantuano e o gerente de futebol Antonio Lopes Foto: Vitor Silva / SSPress

Confira outros trechos da entrevista:

Influência na renovação de Jefferson

“Ele renovou pelo Botafogo. Isso tem que ficar claro porque eu não teria capacidade de convencê-lo a ficar num lugar que ele não amasse. Eu só direcionei algumas coisas. Ajudei ele a pensar. Disse ‘Olha, o Marcos foi campeão do mundo. Quando ele voltou, na segunda divisão, entrou numa galeria de heróis do Palmeiras que está preparada para você. E a galeria do Botafogo é muito grande. Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo, Paulo César Caju, Manga… É uma galeria enorme, e você vai entrar nessa galeria. Além disso, você vai ser um ícone do time. Todo mundo vai olhar para o Jefferson. E você vai poder me ajudar. Porque se você, goleiro titular da seleção brasileira, aceita ficar no Botafogo por esse amor, vai passar isso para os jogadores que estão vindo’. Eu digo que a permanência dele foi um presente para mim não só pelo goleiro da seleção brasileira, mas pelo profissional que o Oswaldo de Oliveira me falou que ele era”.

Conversa com Oswaldo de Oliveira

“Conversamos sobre tudo. Informação sobre jogadores, do clube, de tudo eu conversei com o Oswaldo. Hoje ele é um dos grandes treinadores do futebol brasileiro. Talvez esteja no top 5. Mas ele trabalhou comigo por muito tempo. E eu fico feliz de ver onde ele está com todo o merecimento e competência”.

 

No comando da seleção jamaicana, René Simões conseguiu a classificação para a Copa do Mundo de 1998
No comando da seleção jamaicana, René Simões conseguiu a classificação para a Copa do Mundo de 1998 Foto: John McConnico

Uso de metáforas e psicologia motivacional

“Todo mundo me tira por isso. Mas o meu ponto forte é dentro do campo. Eu tenho muito cuidado com isso porque quando eu cheguei na Bahia (em 2011) um camarada (jornalista) disse ‘Ah! Chegou o treinador teórico!’. Falou uma vez, duas, quatro… Quinze dias depois, numa conferência de imprensa, eu cheguei pra ele e disse o seguinte: ‘Deixa eu te fazer uma pergunta: o engenheiro saiu da faculdade, construiu a primeira ponte e vem a 30 anos construindo pontes. Esse engenheiro é teórico?’ ‘Não! É prático. Com 30 anos construindo pontes? Já deve ter umas 500 construídas’, disse ele. ‘Pois é. Eu tenho 30 anos de profissão, tenho muito mais de 1000 jogos e continuo sendo um teórico?’. Aí ele falou: ‘Não. É que você lê muito…’ ‘Então, por favor, diga que eu sou um treinador didático. Eu sou um treinador que gosta de colocar as coisas de forma que tenham início, meio e fim. De teórico eu não posso ser tachado. Eu sou um prático’.

Cobranças

“Isso é uma coisa que eu mudei muito nesses dois anos. A meritocracia diz o seguinte: você não pode premiar o erro. Se errou, você tem que ouvir que errou e corrigir-se. Você tem que cobrar o tempo todo. Hoje (sexta-feira) nós perdemos um contra-ataque treinado, porque erramos o domínio sem estar marcado. Não pode. Não posso aceitar que o jogador, num campo desse que não tem buraco, esteja sem marcação, numa atividade que já está programada, erre. Não posso admitir isso”.

Neymar

“Seria muita presunção minha achar que eu modifiquei o Neymar, né? Agora, eu acho que tive a coragem de dizer algumas coisas que precisavam ser ditas (em 2010, ele falou ‘Estamos criando um monstro’ após partida em que o jogador se recusou a cumprir ordens do então técnico do Santos, Dorival Júnior). E isso não sou só eu quem diz. O pai dele também acha que aquele momento foi uma sacudidela que ninguém estava tendo coragem de fazer. E eu levei muita pancada. Mas fico feliz de ter levado umas pancadas pela razão de ter um jogador como a gente tem hoje. Jogador equilibrado, capitão da seleção brasileira, nunca foi expulso. Fico muito feliz. Só que eu sabia o que estava acontecendo. Porque eu tinha amigos no Santos que me contaram’.

Dois anos longe do futebol

“Bom, há três anos eu achei que tinha chegado no meu limite de campo. Saí do campo, fiz curso da Fifa de gestão e fui trabalhar no São Paulo. Depois eu fui pro Vasco, mas não aguentei e descobri que não era a minha praia ficar fora das quatro linhas. E aí resolvi primeiro que iria me aperfeiçoar em toda a minha metodologia de trabalho. Fiz cursos com professores de universidades da Inglaterra, do Porto, em juiz de Fora, em Viçosa, fiz curso com a Suzy Fleury sobre coaching e excelência, e fui me preparando para voltar agora em 2015. Mas não imaginei que fosse voltar num clube com a grandeza do Botafogo. Porque estava afastado há muito tempo. Aproveitei também esse tempo para organizar a questão dos meus negócios (ele administra o restaurante da filha, ‘O camarão arte Bia’). Quando veio o convite do Botafogo, eu disse que era um presente de aniversário que eu não esperava. Porque a apresentação foi no dia do meu aniversário”.

 

Quando treinou o Al Kadsya, em 1983, René Simões ainda usava barba
Quando treinou o Al Kadsya, em 1983, René Simões ainda usava barba Foto: Arquivo pessoal

Família

“Eu brinco com todo mundo que vou pro oitavo casamento. Aí o pessoal se assusta. Mas é que eu renovo a cada cinco anos. Então ano que vem nós fazemos 40 anos de casados. E ela (Fátima) é absolutamente muito tranquila. Aonde eu estiver ela vai ficar bem. Mas é óbvio que ela gostaria que eu ficasse no Rio porque nós ganhamos nossa primeira netinha (Isabela) no ano passado. Então ela ficou muito feliz de ter ficado no Rio. E eu também, né? Porque não ia ser fácil ficar longe da minha neta não. Ela está com oito meses agora”.

O bigode e os apelidos

“Ah! Me chamam de Mário Bros. A minha filha menor, que nasceu em 1985, nunca me viu sem bigode ou barba. Quando comecei a namorar eu não tinha bigode. Aí eu fui para o mundo árabe uma vez e tirei. Porque isso dá um trabalho danado. Às vezes você erra e fica mais baixo de um lado do que do outro. É muito chato! E eu tirei. Aí a minha mulher e as minhas filhas me olharam e disseram ‘Sem chance!'”

Fonte: Extra Online