Seedorf revela decepção com torcida: ‘Quase não houve vantagem jogar em casa’

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Aos 37 anos, a carreira de Seedorf se aproxima do fim, mas ele resiste ao tempo. Durante uma hora de entrevista exclusiva, o holandês não poupou críticas ao torcedor alvinegro que não foi aos jogos, mas reclama da campanha do time, disse que pretende se tornar o melhor técnico do mundo, admitiu que sua forma de pensar surpreendeu a muitos assim que chegou, elogiou o Bom Senso FC e apontou o fim da concentração no Botafogo como um legado para o futebol brasileiro.

Em quais pontos o Botafogo pecou para não estar em situação melhor no Brasileiro?

O Botafogo precisa ser aplaudido, não procurar onde foi mal. A gente queria mais? Com certeza. Mas estamos lutando pelo segundo lugar com o Grêmio, que tem elenco bem diferente, Estamos mais de 10 pontos na frente de Inter e Fluminense, que eram favoritos. Se não tivéssemos perdido Fellype Gabriel, Andrezinho, Vitinho, Márcio Azevedo, Jadson, com certeza estaríamos brigando por outra coisa. Mas o Botafogo não tem condição de manter porque está crescendo de novo. Só sei que sem esses jogadores, mas com estádio lotados, ou pelo menos cheio, alguns pontos mais a gente tinha feito em casa.

Faltou apoio do torcedor?

Quem veio ao estádio, agradeço o suporte. Mas, quem ficou em casa, está longe da minha mentalidade. Nunca vi um time que brigou para entrar na Champions, por exemplo, e a torcida não lotou o estádio durante o ano. Um time que está em cima desde a quinta rodada e tem a variação do torcedor que teve, é uma grande decepção. Não vou esconder meu sentimento. Ah, o torcedor é assim? Se são, é porque querem ser. A situação hoje é muito melhor de que em épocas passadas e não consegue ocupar a metade do estádio? O grupo mostrou o ano todo que merecia apoio.

Vocês ficaram surpresos, por exemplo, no jogo contra o Flamengo, pela Copa do Brasil?

Não surpreendeu porque o comportamento da nossa torcida que ficava em casa foi sempre assim. A gente fez ações para mostrar que era importante abraçar o time no estádio. Não é uma crítica, é uma constatação. O time não vai fazer menos porque o torcedor não vai. Mas, se vai, com certeza faz mais. No jogo do Flamengo contra o Atlético-PR, só se falava nisso, no fato de jogar em casa, com torcedor. Agora o Flamengo em casa tem vantagem. A gente não teve quase nunca essa vantagem o ano todo. Não vou ficar aqui dez anos. Mas espero que entendam que para construir o clube tem que vir para o estádio, apoiar. Só aqui no Rio são 2 milhões de botafoguenses. Não é possível não trazer 40 mil para o estádio. Aí depois agem com violência. Esses não são torcedores. Não se pode admitir nunca. O torcedor que não gosta de ouvir isso é só olhar para os outros times, O Atlético-MG. tinha que recuperar três vezes a desvantagem na Libertadores. Com estádio pela metade não conseguiria.

Você viveu um choque de realidade ao chegar?

A mentalidade é diferente, a maneira de se expressar. Na Europa são um pouco mais diretos. Aqui há a cultura de evitar o conflito. Mas na vida não pode evitar sempre. Em alguns momentos é preciso confrontar. Aqui se vive muito na área cinza. Tem branco, cinza e preto, Aqui tem muito o cinza. Às vezes está ótimo, mas não pode ser sempre.

Isso gerou conflitos com companheiros?

Eu mexo com as pessoas, sempre mexi em todos os clubes. As pessoas gostam de ficar em uma zona de conforto. E eu não. Não é só porque cobro, é porque quero sempre o melhor. E aprendo muito também.

O jogador de futebol é uma classe unida?

Esse movimento Bom Senso está mostrando que nunca é tarde para ter uma união. Cada geração deixa algum legado. Quem está de frente são jogadores quase no final da carreira. Vai ficar algo para o futuro. Escuto dizerem que os mais velhos não aguentam, mas ninguém aguenta, nem os de 20 anos.

A partir de que momento você acha que caiu de rendimento?

Não concordo com queda de rendimento técnico nos momentos em que falaram. O meu desgaste foi maior em alguns momentos e menor em outros. Acho que como sou eu, a expectativa é sempre muito alta e não se vê a realidade. Joguei quase todas as partidas e, quando isso acontece, você tem mais chances de jogar mal ou não fazer a diferença sempre. Eu podia me poupar para só jogar bem, mas aí não dá, não é certo. E o resultado final está bom porque ainda lutamos pela libertadores e meu rendimento é ótimo.

Como foi o processo para abolir a concentração no clube?

Nunca acreditei em concentração. Eu não tomei a decisão ou fui líder. Foi ideia do grupo e eu apoiei. Quando o grupo chama a responsabilidade, vai render mais no campo porque tem que demonstrar que tem condição. Se você trata o jogador como criança, ele se comporta como criança. Se trata como homem, vai virar homem. Não tem jeito. Vai errar um vez, você vai ter que ser duro, mas vai aprender. Se faz assim, o cara cresce.

E o atraso nos salários?

Vi pessoas sofrendo. Por isso teve muito valor o que fizemos com relação à concentração, porque tomamos atitudes sem ter como foco o dinheiro. O salário é direito. A gente não queria usar o atraso como álibi para não fazer nossa parte no campo. O Botafogo foi exemplar nesse sentido.

Você já pensa em parar?

Estou tranquilo ainda porque enquanto você se diverte, gosta do que faz e consegue render bem, tem que aproveitar. Meu prazer vai até quando meu foco mudar. Estou muito satisfeito com o que fiz como jogador. Gosto de desafios que me fazem crescer, me estimulam a levantar todos os dias.. Não tem como medir quanto vai durar. O futebol para mim é uma passagem para ajudar o mundo a melhorar. O futebol me dá essa chance.

Mas você vem se preparando para ser técnico, dando palestras…

Uma coisa são meus treinamentos para o curso de técnico e outra as ações humanitárias que sempre fiz e faço para melhorar o mundo, para influenciar de maneira positiva os jovens. Eles estão abertos para me ouvir. É um ideal de vida.

Acha que vai ser um bom técnico?

Tenho talento para várias coisas, mas acima de tudo preciso trabalhar. Vou ser um grande treinador porque vou trabalhar pra isso. Meu padrão é procurar sempre ser o melhor. Tenho que pensar assim. Se for pensar que vou ser muito ruim, para que começar? Quero virar o melhor treinador do mundo. Vou começar do zero e construir outra carreira. Como jogador não preciso mostrar mais nada.

Quem é seu exemplo para isso?

O Phil Jackson, mesmo não tendo nada com o futebol, é o modelo. Ele conseguiu introduzir valores até de espiritualidade com os melhores do mundo e ter resultados. Tenho um encontro marcado com ele. Ele aceitou meu convite para conversarmos. O Jordan fez meditação. Se ele, o Jordan, aceitou isso… Era um grupo tão especial e que foi vencedor tendo adversários como Lakers, Boston, Utah…

Qual o melhor jogador com quem atuou?

Ronaldo Fenômeno

Qual o melhor jogador brasileiro hoje?

O Neymar está em outro mundo atualmente.

E o melhor do mundo?

Hoje o Cristiano Ronaldo está se superando. Messi não teve uma temporada constante. Ribéry teve um ano melhor, levando-se em conta os doze meses, pelo que fez em termos de grupo para o Bayern. Mas, nos últimos quatro meses, o Cristiano Ronaldo foi excepcional. Individualmente está impressionando. Uma máquina de gols. E é um jogador diferente hoje. No Manchester, procurava o drible, mas agora é um atacante puro. Impressiona a evolução mental dele. Tem que se tirar o chapéu para ele.

Como tem sido a vida no Rio?

Sou apaixonado pelo Rio, mas não tenho tempo para aproveitar muito. Só fui à praia uma vez. Praia cansa. Cinema é o que prefiro. Gosto de filmes como Thor, essas aventuras de criança para descontrair.

Fonte: Extra Online

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