Dois times raramente citados como favoritos, eficientes contra adversários modestos, que crescem em jogos importantes e, assim, brigam por títulos. Dois treinadores com personalidades distintas, aproximados pela escolha de um sistema de jogo com duas linhas de quatro, intensidade na marcação e saída rápida para o ataque.

Separados por certames tão diferentes — o Carioca para o Botafogo, na final com o Vasco, domingo; o Espanhol e a Liga dos Campeões para o Atlético de Madrid — guardam tantas semelhanças acidentais que é possível dizer que são primos distantes.

Quando Lisboa recebeu a final da Liga dos Campeões entre Atlético e Real Madrid, em maio de 2014, Ricardo Gomes estava lá. Afastado do futebol fazia três anos por conta de um AVC, decidiu assistir à decisão in loco. E ficou impressionado com o nó tático dado pelo primo pobre de Madri, que deixou escapar uma vitória por 1 a 0 nos acréscimos — o Real empatou e acabou goleando na prorrogação por 4 a 1 , erguendo sua 10ª taça.

Agora à frente do Botafogo, Gomes diz não copiar um time europeu específico. A formação atual, segundo o ex-zagueiro, nasceu de observar os jogadores disponíveis e como seriam mais bem aproveitados. Mas o treinador alvinegro indica que o Atlético do ex-volante Simeone reforçou uma lição: como se joga é tão ou mais importante do que quem joga.

— Devemos partir de um padrão. O que é isso? O jogador criar um automatismo: saber onde deve ficar, como se posicionar. Quando você troca de treinador a cada três meses, não há tempo para desenvolver. Isso nasce de uma relação entre jogador e treinador — reflete Gomes.

MÉDIAS DE IDADE SE APROXIMAM

Diego Simeone costuma dizer que não apenas o técnico deve entender o jogador, mas o jogador também deve entender o técnico. No Botafogo, Ricardo Gomes já soma nove meses de troca de experiências, quase uma era para os padrões brasileiros. Nada comparável, é claro, aos cinco anos do argentino no Atlético de Madrid. Mas suficiente para alguns testes bem sucedidos.

O meio-campo é o principal exemplo. Aírton, volante que carregava o rótulo de brucutu, passou a contribuir decisivamente com lances de ataque. Gegê, Rodrigo Lindoso e Bruno Silva, originalmente meias de chegada na área adversária, ganharam tarefas de marcação — fecham espaços, como Gomes prefere dizer. No Atlético, Koke passa por algo semelhante: de meia ofensivo, virou um volante de saída para o jogo neste ano.

Até a média de idade guarda semelhanças. Para quem prefere o contra-ataque em jogos decisivos, a defesa experiente sem ser idosa ajuda: tem média de 28 anos no Atlético e de 27,3 no Botafogo. No meio-campo, que precisa de vigor e velocidade, um pouco mais de juventude: 24,8 nos espanhóis e 24 nos cariocas.

— O esquema do Botafogo é básico, mas há coisas atuais que alguns times da Europa fazem, como intensidade e compactação. A melhor comparação seria com Atlético de Madrid e um pouco com o Borussia Dortmund. Além de extremamente organizada, é uma equipe versátil. Rodrigo Lindoso, que era um meia ofensivo, hoje está de primeiro volante. Faz uma saída de bola muito boa e vem marcando bem — aponta Leonardo Miranda, do blog “Painel Tático” do Globoesporte.com.

A IMPORTÂNCIA DO MATERIAL HUMANO

No Atlético de Madrid de Simeone, o padrão de jogo é nítido e resiste até mesmo às saídas de jogadores importantes, como o meia Arda Turan e os atacantes David Villa e Diego Costa, que estavam naquela final de 2014. Não à toa, o time está perto de nova decisão da Liga dos Campeões e briga ponto a ponto com Barcelona e Real Madrid pelo Espanhol.

— Depois que você estabelece um padrão, é possível criar variações — explica Ricardo Gomes. — Sem o padrão, as variações não te levam a lugar nenhum. Você roda e não sai do lugar. O padrão de jogo é nada mais do que um norte.

O Botafogo, aos poucos, consolida uma formação parecida com a “colchonera” de Madri: linhas de quatro próximas, marcação intensa e muita movimentação do meio em diante. Joga assim nos clássicos e contra adversários modestos. Com orçamento que mal acompanha os desafios do retorno à Série A, o padrão tático virou trunfo alvinegro. Ricardo Gomes, entretanto, é o primeiro a dizer que seu trabalho não é “nada demais”.

— Esquema não ganha nada de ninguém. O que ganha um jogo é a mobilidade dos jogadores nesse esquema, a interpretação de cada um para a função que lhe é dada. Se isso não estiver coeso, esquece essa história de 4-2-3-1, 4-3-3 ou 3-5-2. Tudo isso é mentira — garante.

Leonardo Miranda concorda: o grande mérito de Ricardo Gomes vem sendo extrair o máximo de cada jogador.

— Com o elenco atual e a forma de jogar, o Botafogo tem a perspectiva de se manter nas primeiras posições do Brasileiro. O problema é que, se um jogador se lesionar, o time vai sentir muito. Precisa ter substituto para o Ribamar, para o Lindoso… Precisa de material humano que se enquadre neste sistema de jogo — avalia.

Fonte: O Globo Online