Eduardo Barroca (pronuncia-se Barróca) levou a campo o Botafogo para a estreia no Campeonato Brasileiro após apenas 10 dias de treinamento. Em pleno Morumbi, diante do São Paulo, um dos mais caros elencos da Série A e estreando três reforços internacionais (Pato, Tchê Tchê e Vítor Bueno), os alvinegros tiveram mais posse de bola (67%) e surpreenderam. O comportamento foi totalmente diferente do apresentado com Zé Ricardo.

Ex-auxiliar no próprio clube carioca, o jovem treinador de 37 anos estava no Sub-20 do Corinthians quando aceitou o convite para voltar à estrela solitária, desta vez para assumir o time principal. E parece mesmo disposto a fazer algo fora do padrão que impera no futebol praticado no país. Barroca conversou com o blog antes da segunda partida da equipe no Brasileirão, a primeira diante da torcida botafoguense, frente ao Bahia.

Como sair do lugar comum no trabalho de técnico de futebol no Brasil?
Tenho como filosofia de vida que, para poder ser crítico a alguma coisa, preciso fazer a minha parte, agregando algo além do resultado ao meu trabalho, seja dando chance aos jovens ou com uma maneira de jogar que valorize o atleta e ele sinta-se feliz, valorizado. Existem várias formas de se fazer isso, é o que estou tentando no Botafogo. Minha responsabilidade é tentar trabalhar na excelência e no encorajamento.

Há que acredite que as deficiências técnicas do elenco inviabilizam isso…
O jogador que chegou a uma possibilidade de jogar na Série pelo Botafogo já passou por vários processos seletivos, desde a categoria de base. E estou tendo a chance de trabalhar com o topo da pirâmide, pensando em atletas de futebol. Isso não faz muito sentido sem esgotar todas as possibilidades de tirar mais desse jogador, tentando extrair dele o que tem de melhor.

Seu time trocou, em média, 398 passes por jogo no Estadual. Na vitória por 3 a 0 sobre o Defensa y Justicia pela Copa Sul-americana foram 87! Sua equipe alcançou 628 no Morumbi contra o São Paulo. O que você fez nesses 11 dias?
Nesses 10 dias de treino, na verdade, pois o 11º foi o do jogo contra o São Paulo. Trabalhei em três pontos, pressão na bola, controle do jogo e não abrir as costas porque sabia que o adversário tinha capacidade de definição com jogadores muito bons. Então nos 10 dias trabalhei em cima de pressão para ter a bola o mais rapidamente possível. Parti do princípio de que, se o São Paulo tem jogadores com capacidade de definição e só os deixo 33% com a bola, significa que não terão tanto tempo com ela me pressionando.

E qual foi o antídoto tentado?
Trabalhamos para ficar mais próximos uns dos outros e reduzir a possibilidade de errar passes, tentando chegar na área. Sabia que o São Paulo, quando estivesse com a bola, nos causaria problemas, como causaram. Procuramos não abrir espaços para as infiltrações de Tchê Tchê e Igor, além das chegadas de Antony, Everton e Pato. Nesse segundo momento eu vou enfatizar todos esses pontos, porque entendo que o controle de posse de bola não se retratou em chances de gol e tenho um pouco de responsabilidade nisso, pois não consegui fazer isso nesse pouco tempo.

Como resolver?
Entendo que são quatro as possibilidades de se fazer gol: bola parada, chute de fora da área, cruzamento e infiltração, jogadas trabalhadas. A tendência é criar padrão e movimentos que vão facilitar e aumentar nosso volume nessas quatro situações, chutes de fora da área numa condição melhor. É preciso preencher a área para os cruzamentos, movimentar para abrir espaços que permitam os chutes de fora.

Qual sua análise dos gols sofridos no Morumbi?
No primeiro gol erramos desde o início da jogada porque ajustamos um tipo de pressão e fomos sendo desequilibrados desde lá de trás. Além disso, no primeiro gol era a dobra de marcação no Antony, com Pimpão e Jonathan ou João Paulo. Enfrentei esse jogador na base muitas vezes e pensamos nisso. Mas diante do erro inicial, estávamos desequilibrados quando a bola chegou ao jogador do São Paulo. Foi um erro coletivo desde lá na frente.
Sofremos o gol mesmo tendo superioridade numérica na área. O segundo gol também reputo a uma situação coletiva, Tchê Tchê fez um passe para o Hernanes e o Hudson chegou. Faltou fechar o corredor central, erros pelos quais se paga um preço alto contra uma equipe como a do São Paulo, mas no meio disso tudo fizemos muitas coisas boas.

Ainda há quem defenda um time com mais volantes para compensar os meias e atacantes que “não marcam”. Como será no Botafogo?
Na minha cabeça o Gatito, nosso goleiro, tem que ser o primeiro atacante, e o Erick, o mais avançado, o primeiro defensor. Os 11 precisam participar de todos os momentos. E a equipe do Botafogo tem potencial para se desenvolver.

Por que tantos times do país recusam a bola?
Tem muito de como a pessoa foi formada no futebol. Eu trabalhava no Bahia com o Falcão e fui observa um futuro adversário com um colega gaúcho. Fizemos isso separadamente. Após o jogo perguntei a ele qual o principal jogador que viu em campo e apontou um que teve grande entrega física e participação. Na minha visão havia sido outro, mais técnico, com uma relação maior com a bola. Então respeito todas as visões porque isso está ligado à forma com a pessoa foi educada no futebol.

Qual a responsabilidade de um treinador?
Eu sou um grande apreciador de samba, se eu tiver o ingresso para o show de um grande cantor, mas ele só cantar o refrão, não vou ficar satisfeito. Entendo que uma das minhas responsabilidades é entregar algo que cause emoção às pessoas que veem minha equipe jogar. Às vezes não se consegue pelas próprias deficiências ou pela imposição do adversário. Mas atacar em espaço curto e defender em espaço longo é muito mais difícil. No cenário atual, na busca por resultado talvez algumas pessoas busquem outro caminho, mas tento sempre agregar algum outro valor além do resultado.

Diego Souza pode mudar o patamar desse Botafogo?
Há muito pouco tempo ele jogou como centroavante da seleção principal, na minha cabeça é um jogador muito importante e que veio com o protagonismo. Mas passou os últimos dias em recuperação. No curto prazo ainda não posso falar porque vamos começar agora a trabalhar juntos, vai depender dos estímulos que serão dados e das cobranças.

Times como Fluminense e agora Botafogo têm muita posse de bola e esbarram na fragilidade técnica de alguns jogadores quando precisam criar chances, como superar isso?
Com ordenação e volume. Se eu pratico um jogo em que fico com a bola no campo do adversário, preciso de mais repetição, com organização a tendência é fazer mais gols de bola parada e aumentar as situações de gol com jogadas ensaiadas. Se eu cruzar 25 a 30 bolas num jogo a tendência é criar mais pela repetição e combinação entre os jogadores, compensando coletivamente. Não adianta lamentar ou entender que individualmente não possa competir com equipes de maior investimento. Uma de minhas responsabilidade e conseguir equilibrar qualquer tipo de situação com coletividade.

Os laterais do Liverpool, Alexander-Arnold e Robertson, já deram mais de 20 assistências na temporada, com passes e cruzamentos precisos. Para você, chegando ao lado, à linha de fundo, cruzamentos aleatórios ou passes?
Gostei dessa referência ao Liverpool. Não tenho dúvida de que o alto índice de assistências está relacionado ao volume. Se eu fico com a bola 30% a 40%, significa que na maior parte do tempo não estou com ela e esse lateral não atingirá os números esperados. Partindo do princípio que a equipe tenha volume, mais a técnica do jogador, acredito no cruzamento em cima do hábito e do entendimento naquela parte do campo. O gol que o Botafogo fez contra o Juventude, com Cícero, em Caxias do Sul, por exemplo. O cruzamento tem que ser feito num setor de acordo com o adversário e a situação.

Qual o técnico no futebol mundial que o inspira?
Muito difícil citar um, gosto de ver o Liverpool, o (Manchester) City, o Barcelona, o Celta, as equipes do Sarri me interessam muito. E aqui no Brasil trabalhei com treinadores com características diversas. Não posso deixar de falar no intervalo de jogo do Joel Santana e sua capacidade de transferir para o grupo suas observações. E tem outros, como o Fernando Diniz.

Que time no mundo gosta de ver jogar?
Me agradam Manchester City e Barcelona, seria ótimo vê-los se enfrentando.

Treinadores como Alberto Valentim e Zé Ricardo surgiram com times que priorizavam a posse e o passe, respectivamente em Palmeiras e Flamengo, mas seus últimos trabalhos foram mais reativos. Essa transformação pode acontecer contigo?
São escolhas, temos a responsabilidade de interpretar escolher o que se deseja, não me sinto capaz de avaliar profundamente as referências. Anteriores porque não estava dentro do processo, mas achei que a principal responsabilidade do treinador é escolher e assumir a responsabilidade.

Qual o objetivo realista do Botafogo em 2019?
Estou trabalhando com o seguinte cenário: tentar pontuar o máximo até a nona rodada, que será a última antes da Copa América, para criar uma base de jogo e para jogar bem depois dessas partidas, aproveitando uma pausa de quase 30 dias para treinamentos. Acredito que tendo uma boa base e conseguindo bons resultados, colocando alguma vantagem, teremos essa condição de planejar algo adiante, num segundo momento, quando clarear mais e então vamos ver quais serão nossas ambições lá na frente.

Fonte: Blog do Mauro Cezar Pereira - UOL