Vice revela desafios, projeta novas ações e detona a Rio 2016 e o Flamengo

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O início da temporada de 2017 marcou um novo caminho para o Botafogo graças ao novo plano de sócio-torcedor e à customização do estádio Nilton Santos. Um dos responsáveis pelo sucesso dos projetos é Marcio Padilha, vice-presidente Social e de Comunicação do clube.

Na última semana, o dirigente participou do podcast Resenha 37 e comentou sobre o trabalho no clube e esclareceu dúvidas dos torcedores em relação às novidades. Abaixo, separamos alguns trechos do bate-papo e você pode ouvir a entrevista completa no Resenha 37.

A gestão do Botafogo melhorou muito depois que o atual presidente Carlos Eduardo Pereira assumiu. Em 2017, o grande diferencial tem sido o novo plano de sócio-torcedor. Como aconteceu essa mudança no programa? Quem planejou o novo modelo?

Marcio Padilha: Na verdade, nós já havíamos desenhado esse plano em 2015. O que faz a diferença para atrair o sócio-torcedor é a bola entrar. Quando tudo dá certo dentro de campo a torcida vem junto. O nosso plano tem um diferencial porque nós entendemos que o sócio-torcedor não é só aquele que acessa o estádio. O plano atual consiste em um valor básico, que é a porta de entrada para o programa “Sou Botafogo”, onde todos pagam uma parcela pequena de R$ 13,90 por mês e já ganham uma série de benefícios e descontos em supermercados, lojas… Um sócio-torcedor que mora em Manaus tem direito aos descontos e pode indicar estabelecimentos para fazer parte da rede. E os benefícios são para produtos do dia a dia, como cerveja, sabonete, desodorante… O problema é que ninguém se preocupa em ver quais são os descontos. E além desse plano inicial de R$ 13,90, que o torcedor não tem nem desculpa para não pagar esse valor por mês, há também os pacotes de ingresso. Nós colocamos pacotes anuais de no mínimo R$ 200,00, com direito a Libertadores, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Carioca… E nas demais localizações do estádio os preços variam entre R$ 450 e R$ 1.200,00, para todos os gostos.

E sobre a personalização das cadeiras no Nilton Santos? Como surgiu essa ideia e a quantas anda o projeto?

Quando assumimos em 2015, o estádio estava interditado e nós voltamos aos trancos e barrancos graças ao trabalho fantástico do Anderson Simões (vice-presidente de Estádios), que mexeu com a parte política e comercial. Mas naquela época estava horroroso, em condições de miséria, com macacos hidráulicos deixados de lado… E eu lembro que um torcedor comentou comigo: “por que vocês não deixam esse estádio preto e branco?” Só que a gente não podia mexer antes das Olimpíadas, porque qualquer melhoria ou mudança feita seria retirada. Mas eu prometi a ele que depois poderíamos customizar. Daí ele me perguntou quanto custava uma cadeira. Eu falei que em torno de R$ 150,00 e ele logo disse que comprava cinco para ajudar. O tempo passou e eu fiquei com isso na cabeça. Há pouco tempo, no início de dezembro, quando recebemos o estádio de volta após as Olimpíadas e decidimos customizá-lo, eu sugeri que a torcida ajudasse a pagar pelas cadeiras. Todo mundo gostou da ideia e nós criamos o produto “cadeira” no nosso site. Então o Paulo Kleinberger, nosso vice-presidente administrativo, falou “eu sou judeu e lá na nossa sinagoga cada um que colabora de alguma forma ganha um adesivo com o nome na cadeira”. Todo mundo adorou a ideia também. A diferença é que na sinagoga a cadeira se torna da pessoa, e no Nilton Santos vamos colocar um adesivo como homenagem só até o final do ano por R$ 50,00. Nós agora terminamos de mapear todos os assentos do estádio e estamos montando uma planilha e organizando todos os nomes por CPF para que os familiares ou amigos fiquem juntos.

​Como vocês vão fazer para manter esses nomes intactos?

Nós vamos ter um controle. Todo pós-jogo nós já fazemos uma revisão do estádio, para ver se há cadeiras quebradas, por exemplo. O adesivo vai ser mais um ponto a ser observado. Já fizemos estudo sobre tonalidade, qual é o melhor papel para usar e o adesivo é relativamente barato e fácil de ser trocado, então vai ser tranquilo fazer essa manutenção.

​Existe um rumor sobre uma possível parceria com a empresa francesa Lagardère para administração do Nilton Santos. Essa negociação existe?

Na verdade eles nos visitaram e perguntaram se podiam fazer uma proposta. E ouvir proposta é o mínimo que se pode fazer em qualquer situação, não podemos pensar que não precisamos de ninguém. Eles foram ao Nilton Santos, fizeram uma pré-análise e já entenderam que muitas das coisas que um estádio tem que ter o Botafogo já está fazendo. A própria customização, o sistema de controle de acesso que estamos desenvolvendo, a reengenharia da parte elétrica… A interdição maltratou muito o estádio. Para se ter uma ideia, os dois painéis que ficam nas laterais não funcionam porque durante as obras caiu solda por cima e eles foram completamente destruídos internamente. Além disso, a Rio 2016 exigiu receber o estádio da forma como ele foi feito em 2007: ou seja, todas as benfeitorias que fizemos precisaram ser desfeitas. E o comitê preferiu alugar a maioria dos equipamentos. Por exemplo, eles alugaram 350 geradores e não usaram os do estádio. Então a parte elétrica que estava deteriorada continuou assim. Os cabos de fibra ótica que tínhamos colocado foram cortados como se fosse um fio qualquer. E fazer uma fusão de fibra ótica novamente custa uma fortuna, estamos gastando uma grana. Quando as Olimpíadas acabaram, eles retiraram tudo que foi alugado e nos devolveram o estádio “no osso”.

Em relação aos benefícios e descontos do sócio-torcedor, concorda que eles são muito mal divulgados e mal utilizados?

Isso faz parte da nossa cultura. O brasileiro não tem a cultura da cuponagem, da milhagem, do desconto… Uma vez eu conversei com o CEO da Multiplus (rede de fidelidade e descontos) e ele me disse que 75% dos pontos acumulados expiram sem ser utilizados.

Por mais que seja muito simples se cadastrar como sócio-torcedor do Botafogo, muita gente reclama da dificuldade no atendimento, principalmente pelo telefone. Você concorda que esse sistema é falho? Como ele funciona?

Isso depende muito da demanda. Eu credito o problema ao sucesso do programa. Nós somos patrocinados pela Cercred, que é uma empresa especializada em call center, e temos 22 pontos de atendimento. Eu posso apostar com vocês que o Flamengo, que é o maior clube do Brasil, não tem esse sistema, até porque eles já entraram em contato com a Cercred para perguntar como nós fizemos isso. Então o atendimento telefônico se torna complicado a partir do momento que a demanda aumenta. E atualmente nossa demanda é absurda: o site congestiona, o telefone congestiona… Nós criamos um WhatsApp do “Sou Botafogo” para atender os sócios e recebemos cerca de 500 mensagens por dia. E nosso plano vende check-in, estacionamento, transporte para o estádio… Isso gera muitas dúvidas diferentes. Apesar de alguns problemas pontuais, eu acho que nosso teleatendimento é muito bom sim.

​Se o desempenho em campo é o que faz a diferença, como fazer para fidelizar o sócio-torcedor e manter a adimplência? Vocês já têm algum planejamento a longo prazo para a permanência dos associados?

Nós estamos sempre estudando as alternativas. Um plano que eu gosto muito e me baseio é o Avanti, do Palmeiras. Acho que eles têm uma política similar à nossa, não em relação aos preços, mas o modelo de negócios é parecido. Por exemplo, eles têm uma revista, que muita gente acha bobagem nos dias de hoje, mas não pensa na força que há em manusear uma revista, ver as fotos, ver a publicidade. Se essa revista fica em cima de uma mesa, outra pessoa que não é ligada ao clube pode ler também. E nós temos um projeto de revista. Os exemplares do Palmeiras fazem tanto sucesso que as edições antigas são vendidas no Mercado Livre por preços absurdos. O Botafogo tem uma das histórias mais fantásticas do nosso futebol e pode recordar isso através das revistas.

A torcida do Botafogo parece não acreditar muito no time em diversos momentos, até mesmo quando o clube vai bem. É lucrativo manter o Nilton Santos mesmo que o estádio não fique lotado na maioria dos jogos?

Manter aquele estádio é caro, mas nós estamos fazendo um planejamento para otimizar todas as despesas. Quando pegamos o Nilton Santos de volta em dezembro, uma empresa fez uma varredura e detectou diversos problemas. Hoje nós temos um controle das despesas, fazemos reaproveitamento de água… O estádio é viável. E sobre essa questão da torcida não chegar junto, eu vou responder pela nossa administração: em 2014 nós recebemos o time rebaixado, em 2015 ganhamos a Taça Guanabara, fizemos a final contra o Vasco e a torcida compareceu. Jogamos toda a Série B com o estádio semi-interditado e tivemos jogos muito legais, como por exemplo contra o Paysandu. Eu sempre falo do efeito Tostines: será que a torcida não vai porque o time não está bem ou é o time que não está bem porque a torcida não vai?

Você acha que seria melhor manter a Arena Botafogo, na Ilha do Governador, para jogos menores? Ou pelo menos ter um estádio de menor porte?

De jeito nenhum. Até porque o Nilton Santos foi planejado de forma setorizada. Em jogos de menor apelo, nós abrimos apenas os setores inferiores e o estádio funciona tranquilamente.

Ultimamente o clube tem chamado atenção por fazer provocações e “jogar para a torcida” nas redes sociais. Como funciona a gestão dos perfis do Botafogo? Qual a sua opinião a respeito desse posicionamento?

Desde que eu assumi a comunicação do Botafogo eu incentivei uma maior interação entre os clubes nas redes sociais. Quando a provocação é sadia, ela alegra o torcedor, cria polêmica, mas nunca incitando a violência ou outros problemas. Infelizmente não foi isso que vimos no último domingo (12/02), quando o clube adversário (o Flamengo) foi infeliz no tweet e o próprio presidente deles admitiu isso. Já fizemos provocações ao Vasco, ao Fluminense e ao próprio Flamengo e a polêmica sempre pendeu para o bom-humor, alimentando a rivalidade, mas sempre respeitando o adversário.

​Você acha que no último clássico os dois clubes pesaram a mão nas redes sociais?

Ali nós estávamos de cabeça quente, logo após um jogo tenso. Eu, por exemplo, nem assisti à partida, fiquei do lado de fora o tempo todo para tentar ajudar a torcida a entrar com segurança. Enquanto o jogo rolava, a gente ficou discutindo com os comandantes do GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios) e do Jecrim (Juizado Especial Criminal) como seria o esquema na saída. E por conta disso nós conseguimos que o Batalhão de Choque da PM fosse ao Nilton Santos. Nós ficamos pensando: qual torcida vai sair primeiro e qual vai sair depois? Como vai ser no estacionamento, que tem torcedores dos dois times? Nós recebemos o Flamengo com todo conforto em nosso estádio, a torcida deles não foi mal tratada em nenhum momento do lado de dentro. Acabou que nem vi o jogo. E aí depois dessa tensão toda, nós vimos aquela postagem deles falando de “correu, fugiu” [Nota do Virando o Jogo: a publicação do Flamengo dizia “Não adianta fugir, não adianta correr. Deu Mengão no Engenhão”], nos sentimos provocados e a resposta acabou sendo no mesmo tom.

​Você não acha que essa picuinha criada entre Flamengo e Botafogo, que remonta aos tempos de Eurico Miranda e Márcio Braga (presidentes de Vasco e Flamengo no início dos anos 2000), não acaba levando a esse tipo de confusão?

Não vejo por aí não. Infelizmente, e não é só com o Botafogo, há sempre uma dificuldade muito grande de relacionamento com o Flamengo. Eles têm uma postura muito soberba, tentam sempre ser os maiores beneficiados em todas as negociações, vide agora o caso da renovação com a Globo em relação aos direitos de transmissão do Campeonato Carioca. Eles não assinaram, prejudicaram os times de menor investimento e fecharam um acordo em separado. Eles não reconhecem os outros clubes, acham que estão acima do bem e do mal. Dizer que isso tudo é uma “picuinha” vai muito da interpretação, porque para toda ação existe uma reação.

A gestão do Eduardo Bandeira de Mello vem sendo muito elogiada em termos de administração, assim como a do Botafogo. Nem com essas diretorias o relacionamento entre os clubes melhorou?

Eu sempre digo que essa gestão do Flamengo está no caminho certo. Inclusive eu trabalho com campanha política, o dia que a Patrícia (Amorim) ou o Edmundo (dos Santos Silva) quiserem voltar à presidência do Flamengo, eu faço a campanha deles de graça. O problema é a empáfia, a soberba. Eu me dou super bem com o diretor de marketing deles, a gente tem um relacionamento muito bom. No último clássico mesmo eles queriam fazer uma ação, eu pedi para segurar a onda porque o clima entre as diretorias não é bom e eles entenderam. O Flamengo está em um modelo de administração interessante, mas eles têm que entender que o Flamengo sozinho, sem os outros clubes, não é nada.

​Você acha que esse afastamento entre as quatro diretorias dos times do Rio de Janeiro pode acabar algum dia? Acredita em uma união dos clubes, talvez até para criar um campeonato sem a FERJ?

O relacionamento entre os clubes tem que ser sadio, mas com o Flamengo não é. Nós nunca conseguimos chegar a um final de conversa em bons termos. Quando se fala da FERJ, por exemplo, o Botafogo não está alinhado, nem está contrário. É preciso ter um bom relacionamento, assim como temos com o Vasco e com o Fluminense, que melhorou após uma picuinha com o ex-presidente Peter Siemsen. Antigamente os outros faziam o Botafogo de gato e sapato e ficava por isso mesmo, agora não. Agora tem um presidente que não deixa o clube ser menosprezado nem desrespeitado. Quem não quiser aceitar o Botafogo como um dos maiores clubes do país não vai ser bem tratado, vai sempre receber o troco.

Fonte: Virando o Jogo