Vitinho explica saída do Bota: ‘Faltou acreditarem mais. Pedi aumento e não deram’

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Vitinho é o menino criado no Complexo do Alemão à espera da neve na Rússia e o homem que banca pai, mãe, filha, mulher e irmão. É o garoto que sonha com a seleção brasileira olímpica, mas que admite precisar de paciência para se adaptar ao CSKA de Moscou. Ainda nem tem carteira de habilitação, mas, aos 20 anos, dirige seus passos e mede suas palavras. No mundo milionário do futebol, trocou o Botafogo pelos euros. Sem arrependimento. Eis Vitinho, um novo-velho homem.

Como está a vida na Rússia?

Domingo (hoje) fará dois meses que estou aqui. Já me acostumei com a cidade, conheço alguns lugares. Ainda não está muito frio, mas me avisaram que ele chega no fim do mês. O Michael (ex-Fluminense), do Lokomotiv, é um amigo que está me ajudando. Quanto à comida, está tudo bem. Aqui tem arroz, macarrão. E minha mulher trouxe feijão do Brasil. Não dá para ficar sem o feijãozinho.

Viu a derrota do Botafogo para o Flamengo?

Vejo jogos pela internet e pela TV (Globo Internacional). Vi o clássico, sim. Fiquei triste pelo placar, pelos meus companheiros, que são muito profissionais. Não foi o que todos os botafoguenses esperavam. Mas futebol é assim mesmo.

Se estivesse em campo, seria diferente?

Não dá para dizer isso. Futebol é dentro de campo.

 

Jogador despontou com a camisa do Botafogo
Jogador despontou com a camisa do Botafogo Foto: Ivo Gonzalez / O Globo

 

Você saiu do país com 19 anos. Vale a pena trocar o sucesso pelo dinheiro tão cedo?

Foi uma decisão complicada. Pesei muitas coisas. Tinha o exemplo do Neymar, que ficou, ficou, resistiu. Mas eu não sei o dia de amanhã. Nem para o bem, nem para o mal. Poderia ser maravilhoso, com tudo. Mas poderia ser trágico. Poderia ficar no Botafogo e me dar melhor. Mas poderia ficar e não ser. A oportunidade bateu à porta. Eu vi como uma chance de poder deixar meu pai, minha mãe, minha mulher e minha filha, meus parentes bem. No Botafogo, sofri com salários atrasados. E o meu nem era alto. Eram dois meses. Vivia contornando problemas. A Traffic (empresa) me socorreu. Pensei e decidi sair. Coloquei na minha cabeça que era aquilo. Tenho 20 anos. Posso render mais. Aqui é uma ponte para chegar ao centro da Europa. Já joguei a Champions League contra o Bayern de Munique e o Manchester City. Tudo tem prós e contras. De vir, de ficar.

Contou na decisão o fato de você ter sido criado com muita dificuldade, já que era muito dinheiro em jogo?

Meus pais não deixaram faltar nada. Mas a minha filha vai ter uma vida que eu não tive. Ela vai ter tudo de que precisa, não tudo o que quer. Meu irmão (Wagner, de 10 anos) vai poder estudar em colégio melhor, ter educação que eu não tive. Isso não tem preço. O sacrifício não existe quando você olha para esses fatores. Pensei no melhor para todos.

Alguns pingos ficaram fora dos “is” na saída do Botafogo. É verdade que você foi retirado da concentração à força?

A questão foi diferente. A negociação estava acontecendo. Tive a liberação do gerente de futebol (Sydnei Loureiro). Não fugi de nada. Ninguém me tirou de lá. Às vezes, as pessoas falam besteira. Por exemplo, colocaram um monte de coisa na cabeça do presidente (Maurício Assumpção). Que a Traffic fez isso, aquilo. Pessoas do Botafogo quiseram gerar conflito. Até porque precisavam dar justificativa para a torcida.

O que te levou a sair então?

Olha, faltou ao clube acreditar mais em mim. Acreditaram pouco. Não acreditavam que em tão pouco tempo eu iria bem. As coisas foram acontecendo. A gente tentou. Pedi aumento uns quatro meses atrás. Aí diziam: “calma, não tem, não dá”. Fellype Gabriel, Márcio Azevedo, Andrezinho haviam saído. Poxa, a folha salarial diminuiu. Poderiam me aumentar e ficaria bom para todo mundo. Mas o tempo foi passando. O que passou na minha cabeça quando chegou a proposta? Pedi coisas e nada fizeram, e não fariam naquela hora. Aí o que me ofereceram não era nem metade da metade. Faltou um pouco de confiança em mim. E isso pesou na decisão.

Qual a importância de Seedorf na sua carreira?

O Seedorf sempre me passou coisas boas. Mas não era só ele. Eu era querido pelo grupo. Todos tinham carinho comigo. Não tem uma pessoa. Se for falar de alguém, tenho que falar do Oswaldo de Oliveira. Nunca me deu esporro quando eu errava no jogo. Me dava coragem e me ensinava.

Oswaldo pediu para você ficar?

Ele tentou me convencer até a fazer o último jogo. Quase mudei de ideia por causa dele. Fiquei triste por não poder atender o pedido dele. A janela de transferência estava acabando. E, no fim, ele disse: “Então vai, filho. Trabalha bastante”.

Mas você está na reserva no CSKA…

É um processo de adaptação. O pessoal do clube está me dando todo o suporte para jogar bem. Com trabalho, vou crescer aqui. Estou melhorando a minha forma. No ano que vem será melhor. Vou fazer a pré-temporada. Você não acha que eu já voltava para marcar no Botafogo?

Sim!

Então. Aqui tenho que marcar mais. E está me faltando força na hora de atacar. Fico triste pela reserva, mas é opção do técnico, tenho que entender. E preciso ter paciência.

Qual o nome do treinador?

Ihhhh, nem sei pronunciar (risos)… (O treinador se chama Leonid Slutsky).

Já vi que não tem sido fácil se comunicar…

Não tem esse problema. No primeiro dia, um sujeito se aproximou, com cara de russo, claro, e perguntou: “E aí, como é que você está?”. Tomei um susto. É um tradutor do clube que já trabalhou com Vagner Love, Jô, Dudu Cearense…

 

Vitinho com a filha Manuela e a mulher Thayane
Vitinho com a filha Manuela e a mulher Thayane Foto: Reprodução / Instagram

 

 

Quais são seus planos profissionais?

Penso muito nisso. Sou jovem. Tenho qualidade e potencial para chegar à seleção brasileira. Seja indo antes para um grande clube europeu ou diretamente para a seleção mesmo. Terei idade para as Olimpíadas de 2016. Estou apostando que serei incluído na lista.

No último jogo, o marfinense Yaya Touré, do Manchester City, sofreu com o racismo. Já passou por algum episódio de preconceito?

Fiquei muito triste. Até porque sou negro como ele. Eu estava aquecendo. Fiquei muito chateado. Nós jogamos com uma propaganda na camisa que pede respeito. As pessoas precisam ser tratadas da mesma forma. Tirei foto com o Yaya Touré no fim do jogo. Um cara sensacional, humilde.

A idolatria com Vagner Love é muito grande aí?

É muito ídolo. Até queriam que eu usasse a camisa 9 dele. Não quis. O 31 me dá sorte. O Sydnei (gerente do Botafogo) pediu para eu usar o 31, que é 13 ao contrário. Esse é o número da minha vida. Criei afeto por ele.

Fonte: Extra Online

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