No início de janeiro, Jefferson tomou uma atitude que pode ter colocado seu futuro na seleção brasileira em risco. Ele renovou com o Botafogo, que disputará a Série B, por mais três temporadas sem sequer ter consultado o técnico Dunga. O futuro provou que o goleiro estava certo, já que ele segue na lista dos selecionáveis. E para obter êxito o botafoguense se motiva com memórias do ex-goleiro Barbosa e até mesmo com o apoio de torcedores rivais.

Titular na Copa de 1950, Barbosa foi crucificado por ter falhado no decisivo gol do Uruguai, que calou o Maracanã e levou a taça da Copa do Mundo. Desde então o Brasil contou com apenas dois goleiros negros: Dida e agora Jefferson. E essa situação motiva o ídolo do Botafogo a fazer história também com a camisa amarela, mesmo que ele não veja o racismo com a mesma intensidade que ocorria antigamente.

“Tiveram que arranjar um culpado e escolheram o Barbosa. Foi uma covardia. Tanto que a família dele paga isso até hoje. Foi uma situação muito difícil. “Único brasileiro que vive numa prisão perpetua”. Essa frase é muito forte e me marcou”, disse o goleiro em entrevista ao UOL Esporte.

Mas Jefferson se consolida a cada dia como titular da seleção brasileira. Se ele chegou até lá graças às suas atuações pelo Botafogo, hoje a história já é diferente. O goleiro conta até mesmo com o apoio de torcedores rivais. Isso foi visto após a vitória sobre o Flamengo, o que não impediu de alguns rubro-negros tietarem o jogador alvinegro.

“Eu particularmente agradeço muito a Deus o carinho de todos por mim. Não só de botafoguenses, mas de outros clubes. “você merece essa vaga na seleção. Estamos na sua torcida”. Poxa. Escutar isso de um rival do Botafogo?”, indagou o camisa 1 do Botafogo e seleção brasileira.

Confira a entrevista na íntegra:

UOL Esporte: Você se considera o melhor goleiro da história do Botafogo?

Jefferson: Graças a Deus estamos no caminho certo. Sabemos que passaram ótimos goleiros e estamos tentando fazer história no clube.

UOL Esporte: Você disse que não levou a seleção em consideração ao decidir renovar com o Botafogo, que vai jogar a Série B. Você foi convocado na última quinta. Houve alguma dúvida sobre seu nome na lista?

Jefferson: Toda decisão tem consequência. Sabia que poderia para algumas pessoas, não para mim, mas atrapalhar na seleção. Nenhum momento fiquei em dúvida até pelo o que já mostrei lá. Dunga já me conhece. Mas hoje foi uma confirmação de que estamos consolidando a permanência na seleção.

UOL Esporte: O fato é que você está de volta à seleção…

Jefferson: Estava com saudade da convocação, da programação, jogos, companheiros. Eh um momento único na vida e vou aproveitar da melhor maneira. São ambientes diferentes. Nos doamos o máximo possível porque aqui em cobrança. Mas a seleção é diferente. Quando veste a amarelinha você representa seu país. É uma responsabilidade boa

UOL Esporte: Após a renovação, sua meta de se aposentar no Botafogo está cada vez mais próxima

Jefferson: Sempre demonstrei meu interesse e vontade de dar continuidade no Botafogo. Quero encerrar minha carreira aqui. Tenho muito identificação com clube e torcedores. Serve de exemplo para os outros jogadores

UOL Esporte: Atualmente você tem 378 jogos pelo Botafogo e se mantiver a média poderá na parte de cima da lista dos jogadores que mais defenderam o clube.

Jefferson: “Tenho essa meta de subir nessa lista. O principal não é jogar, mas vencer e ganhar títulos. Quero bater 500 jogos, mas são 500 bem feitos, com títulos e conquistas. Isso é primordial [Caso Jefferson alcance os 500 jogos ele se tornará o terceiro que mais jogou, atrás apenas de Nilton Santos (721) e Garrincha (612)”.

UOL Esporte: Se considera no mesmo quilate de Garrincha e Nilton Santos?

Jefferson: Não estou no nível de Nilton santos e garrincha. São jogadores que precisa se respeitar muito. Estão num pedestal. Fizeram história na sua época. Na seleção também. Na atualidade a história que pretendo fazer no botafogo é bonita, de gratidão, paixão. De abraçar o clube. Dentro de campo quem vai me julgar são os outros e não eu. Se um dia me colocarem nesse patamar, não será pelo o que falei.

UOL Esporte: E a temporada atual do Botafogo?

Jefferson: Muito bom. Surpreende um pouco. Estamos na liderança e mantendo uma regularidade grande. A meta é ficar entre os 4 e não podemos fugir disso. Nosso objetivo é brigar pelo título. O ano tem sido avassalador. Mas isso pode ser armadilha, pois não esperávamos isso. Manter os pés no chão para seguir forte rumo ao titulo

UOL Esporte: Qual o mérito do René Simões nisso tudo?

Jefferson: O René tem porcentagem grande nisso tudo. Ele não busca envolver somente dentro e campo, mas fora também. Alguns jogadores estão se enquadrando nesse perfil que ele quer. O Jobson é um exemplo. Jogadores que tiveram passado difícil se encaixaram no elenco. Ele cobra bastante e isso facilita o desempenho da equipe.

UOL Esporte: E o papel do René na sua renovação?

Jefferson: Foi fundamental. Claro que tiveram outras coisas, mas ele foi fundamental. Não me lembro de um treinador ter me ligado nas férias dizendo que queria contar comigo e faria de tudo para eu acertar. Intercedeu ao presidente, empresário. Fez muito esforço para eu ficar. Então sou grato a ele.

UOL Esporte: Desde 1950, com o Barbosa, você é apenas o segundo goleiro negro a se firmar na seleção (Antes teve o Dida). Por que isso?

Jefferson: Ainda existe o preconceito. Não apenas no futebol, mas em tudo. Mas vejo que são épocas diferentes. As pessoas estão mais maduras e cascudas nesse sentido. Eu particularmente agradeço muito a Deus o carinho de todos por mim. Não só de botafoguenses, mas de outros clubes. “você merece essa vaga na seleção. Estamos na sua torcida”. Poxa. Escutar isso de um rival do Botafogo? Infelizmente aconteceu com o Barbosa. Tiveram que arranjar um culpado e escolheram o Barbosa. Foi uma covardia. Tanto que a família dele paga isso até hoje. Foi uma situação muito difícil. “Único brasileiro que vive numa prisão perpetua”. Essa frase é muito forte e me marcou.

UOL Esporte: E o que você acha de ser perguntado em 2015 sobre racismo?

Jefferson: Não existe tanto como já rolou um dia. As vezes querem cutucar, estou superavontade na seleção. Não sofri preconceito. Pelo contrário. Onde tenho ido, as pessoas me recebem com carinho. Na Turquia, onde passei 4 anos, não tive episódio de racismo. Tem atos isolados, mas não podemos generalizar. Diminuiu bastante.

UOL Esporte: Depois de um período de afirmação, hoje você está virando unanimidade. Até mesmo os torcedores do Flamengo, após derrota para o Botafogo, pediram para tirar fotos com você…

Jefferson: Para mim é normal. Respeito todos times e torcidas. Não vão me ver fazendo gestos, xingando torcedores. Respeito a todos. Isso vira ao contraio. Em campo tem rivalidade, vamos brigar, correr. Mas acaba ali. Acabou o jogo vale o reconhecimento, a idolatria. E ser reconhecido por outros jogadores… Eles ficam até sem graça de tirar foto comigo com camisa de outro time, mas digo que não tem problema, pois valorizo ser admirado por todos. O carinho é muito legal

UOL Esporte: Você decidiu renovar e aumentou sua idolatria no Botafogo. Teve que lidar com muito assédio? Houve propostas e sondagens?

Jefferson: Sondagens tiveram muitas. Nunca recebi tanta ligação de empresário como foi em dezembro e janeiro. Muita gente mesmo. Diziam que tinham time, mas sempre respeitei. Dizia para falarem com o Botafogo e meu empresário. Nunca coloquei ninguém a frente. Tive proposta oficial, mas sempre tinha o interesse de ficar falava isso para todos, tanto que consegui. Entrou uma nova diretoria que queriam contar comigo e isso foi muito feliz para mim

Fonte: UOL