Presidente do Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade é um dos dirigentes brasileiros com melhor trânsito na CBF. Considerado o principal elo entre os clubes e a entidade, foi o representante da confederação nas conversas com o Bom Senso FC, e chefe da delegação brasileira na Copa do Mundo. Participou de todo o processo de criação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRFE), desenvolvida para refinanciar as dívidas dos clubes.

Ao UOL Esporte, Vilson disse que o adiamento da votação do projeto na Câmara dos Deputados – estava prevista para esta terça-feira, mas ficou para outubro, após as eleições, devido a descacordo na base governista sobre detalhes do texto – não surpreendeu em nada os clubes. Também falou que a LFRE, embora tenha um papel importante, sozinha, não irá resolver os problemas do futebol brasileiro, e que a Copa do Mundo teve impacto negativo sobre os clubes do país.

UOL Esporte: O adiamento da votação surpreendeu os clubes? A atuação do Bom Senso FC, que foi ao plenário pedir emendas ao projeto, foi decisiva para que ele não tenha entrado em pauta?
Vilson: Não, os clubes já tinham certeza que não seria votado. A votação dependia de uma definição junto ao Ministério da Fazenda sobre o modelo do alongamento da dívida. Essa definição não ocorreu, não houve nenhum reflexo. Não foi o Bom Senso que barrou, eles tem as reinvidicações deles, justas, sentaram e colocaram. Mas sem o modelo de alongamento, não há como votar.

UOL Esporte: Mas os clubes brasileiros enfrentam graves problemas financeiros. Por que?
Vilson: Isso é fruto do modelo que está aí, que está equivocado. Quando saiu a Timemania, vários clubes confessaram suas dívidas, até algumas que discutiam na justiça e tinham condição de ganhar. Ela prometia R$ 740 milhões por ano, e não rendeu nada perto disso.

UOL Esporte: Existem clubes que podem não conseguir sobreviver até a votação, após as eleições?
Vilson: Não sei, eu não conheço os detalhes de cada um, mas sei que tem alguns com extreme dificuldades no fluxo de caixa diário, enfrentando muitas dificuldades. Na realidade, a Copa do Mundo foi excelente enquanto evento, para o país. Para os clubes, porém, foi um desastre: foram 40 dias sem nada, sem arrecadação. Os investimentos no futebol também migraram para a Copa; na Copa das Confederações, isso já tinha ocorrido, mas na Copa, foi maior. Por isso, você vê muitos clubes com dificuldades para conseguir patrocínio. E nesses casos, quanto maior o clube, maior o custo, maior o problema.

UOL Esporte: Existe solução de curto prazo?
Vilson: A Lei de Responsabilidade Fiscal é um passo importante, mas, sozinha, não vai resolver o futebol brasileiro. Precisamos investir na base, na formação de jogadores. Também precisamos mudar algumas na Lei Pelé – que não faz jus à grandeza de quem lhe dá o nome. Hoje, existe muita gente ganhando dinheiro com futebol, e os clubes são os que menos ganham. Não é só a Lei.

Divergências

A principal discordância entre os deputados e a base governista diz respeito à taxa de juros que será utilizada nas dívidas dos clubes. O texto atual da LRFE, relatada pelo deputado Otávio Leite (PSDB), utiliza a Taxa de Juros de Longo Prazo – TJLP – que é de cerca de 5% ao ano. O Ministério da Fazenda, porém, quer a utilização da taxa Selic, que pode chegar a 12%.

Além disso, o prazo previsto para pagamento, atualmente, é de 25 anos. Não há consenso, e há várias vozes na base governista que preferem um prazo menor. Além disso, o Bom Senso FC defende que dirigentes sejam probidos de antecipar receitas e responsabilizados por endividamento dos clubes. Além disso, pede mecanismos mais rígidos de fiscalização das finanças das equipes.

Fonte: UOL