Até escoteiros faturam com Maracanã: 1% de cada renda

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Eles não fazem do futebol uma atividade, não disputam competições e nem têm qualquer relação com o Maracanã. E, com exceção do presidente – e voluntário – Carlos Frederico dos Santos, torcedor fanático do Flamengo, muitos sequer assistiram a uma partida nas arquibancadas do estádio. Ainda assim, os escoteiros cariocas têm motivos de sobra para vibrar com o retorno do principal gramado do Brasil nos últimos meses.

Graças ao decreto-lei estadual número 33 de 13 de junho de 1969, a regional carioca da União dos Escoteiros do Brasil (UEB), uma instituição que emprega apenas dez funcionários diretamente, recebe 1% da renda líquida (calculada pela diferença entre a receita bruta e as despesas) de todas as partidas no Maracanã desde os tempos em que clássicos cariocas reuniam mais de 150 mil pessoas no estádio.

Nos cinco primeiros jogos disputados por clubes no estádio em 2013, a UEB faturou R$ 32,3 mil (valor que ainda não inclui o Fla-Flu realizado no último domingo). A taxa que passa praticamente despercebida em borderôs e finanças de clubes é essencial para o sustento da entidade. E mesmo faturando relativamente bem com os jogos, os escoteiros cariocas querem mais.

De olho nas rendas milionárias e no faturamento com ingressos cada vez mais caros, eles cobram uma fatia do que foi arrecadado nos jogos das Copa das Confederações e em amistosos realizados no estádio antes do retorno dos clubes da cidade.

“O decreto é claro. Ele fala que temos direito a 1% de todos os jogos no Maracanã, independente da competição. Queremos esta parcela da renda de Brasil x Inglaterra e o mesmo percentual do que foi arrecadado nos três jogos da Copa das Confederações”, disse Carlos Frederico, que vislumbra uma briga complicada para dar resposta aos questionamentos da UEB carioca.

“É claro que não deve ser uma luta fácil para receber isso, mas temos que pleitear. Represento uma instituição e os meus filiados querem saber desta receita. Tenho que dar uma satisfação. Vamos ver o tamanho do problema. Se der para lutar por este dinheiro, assim vamos fazer. Não quero guerra, briga, dor de cabeça, nada. Só os meus direitos”, completou o presidente da regional da UEB.

  • Pedro Ivo Almeida/UOLArtigo 2º, parágrafo 3º do decreto-lei 33 de 13 de junho de 1969 diz que, descontando as despesas com impressão de ingressos, luz e água, “1% da renda de jogos no Maracanã deve ser destinada à região do Estado da Guanabara (antigo nome do Rio de Janeiro) da União dos Escoteiros do Brasil”

Preferência por acordo do Flu
Apesar da clareza do decreto, o texto que destina parte das rendas para os escoteiros cariocas pode ser parcialmente “driblado”. A taxa de 1% incide sobre a renda líquida, logo, quanto maiores as despesas, menor o valor. Este detalhe faz com que os contratos assinados por Botafogo e Fluminense com o consórcio Maracanã S/A sejam mais vantajosos para a UEB.

Tudo porque os vínculos preveem uma divisão de receitas entre os administradores do estádio e os clubes apenas no final do processo, após o cálculo da fatia dos escoteiros. No caso do Flamengo, por outro lado, o borderô registra os 50% da arrecadação a que a concessionária tem direito como mais uma despesa (“Aluguel do estádio”) e, portanto, antes da consolidação da renda líquida.

“É claro que não vamos ficar reclamando, mas o modelo de acordo do Flamengo não é bom para nós. No jogo do Fluminense [vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro], por exemplo, ficamos com quase R$ 3 mil de pouco menos de R$ 400 mil de renda. No do Flamengo [empate por 1 a 1 com o Botafogo], com R$ 3 milhões de arrecadação, ficamos só com R$ 11 mil”, lamentou Carlos Frederico.

Apesar dos “dribles”, a UEB está satisfeita com o recolhimento da taxa nos primeiros jogos desta nova fase do Maracanã. A regional do Rio de Janeiro já recebeu os valores arrecadados na vitória por 3 a 1 do Fluminense sobre o Vasco e no empate por 1 a 1 entre Flamengo e Botafogo. O repasse é feito pela Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) e já foi motivo de dor de cabeça para os escoteiros.

“Está tudo certinho, por enquanto. Recebemos já dos dois primeiros clássicos e devemos receber o resto na próxima semana. Entre 2007 e 2010 foi a melhor época, depositavam para nós no dia seguinte do jogo. Antes disso, chegamos a receber em espécie. Tínhamos que ir para o estádio e contar moedinha. Era uma zona”, recordou o presidente da regional carioca da UEB.

‘Não merecemos essa renda’
Muitas vezes discriminados pela relação inusitada com o Maracanã, os escoteiros não fazem questão de ter o estádio como fonte de renda direta. Para Carlos Frederico, o importante é que exista um incentivo à divisão carioca da instituição, que tem sua sede internacional em Genebra, na Suíça. A taxa de 1% gera cerca de R$ 200 mil por ano à entidade, dependendo do momento dos times do Rio em campo. “Torço para o Flamengo ir bem e esse valor ser ainda maior”, brincou o dirigente.

“Eu nem me incomodo de tirarem essa minha participação na renda do estádio, mas é preciso que o governo me dê uma compensação. Somos a maior instituição educacional não formal do mundo. Na Costa Rica, os escoteiros recebem uma parte dos valores pagos em multas de trânsito. Basta me garantir esta verba por ano, e eu aceito sair do Maracanã”, disse o representante da UEB, que admite que a entidade não tem relação histórica alguma com o estádio.

“Sinceramente, nem acho que merecemos essa renda, mas existe uma lei. E eu não posso perder isso. Tenho um orçamento de R$ 600 mil e conto com isso. E todo governador que entra tenta derrubar este decreto. O próprio Sérgio Cabral tentou em 2007, antes da privatização do estádio. É preciso muita politicagem lá dentro [Carlos Frederico é técnico da Assembleia Legislativa há 28 anos] para evitar isso”, encerrou.

Outros consignatários
E a UEB não é a única beneficiada da renda do Maracanã por conta de antigas leis. Além dos escoteiros, cronistas esportivos e atletas aposentados recebem parte da arrecadação dos jogos nos estádios. A Associação dos Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro (Acerj) fica com 0,5%, enquanto a Fundação Garantia do Atleta Profissional (Fugap) recebe 2% de cada partida.

Fonte: UOL

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