– Um campeão… da vida – disse Wagner, ex-goleiro do Botafogo, sobre Max, seu sucessor no gol alvinegro.

Na cruel narrativa das glórias esportivas, que só valoriza os que venceram, pode se dizer que Max não fez história no futebol. Max foi um tímido representante da maioria absoluta no futebol: aqueles que vivem momentos fugazes de glória, mas não marcam época no coração do torcedor. Quando morrem, viram um minuto de silêncio logo esquecido no primeiro lance de perigo do jogo.

Um típico operário da bola. Criado na Portuguesa da Ilha do Governador, passou maus bocados por Bangu, Friburguense no começo de carreira. Foi para o América em 2002, e entrou no Maracanã como titular contra o Botafogo pela rodada final do Rio-São Paulo. O Alvinegro precisava vencer para se classificar. O América era o último colocado, disparado, vindo de onze derrotas consecutivas. Deu América, 1 a 0, gol no último minuto. Max fechou o gol. Quase que por vergonha do vexame, o Botafogo o contratou para o Brasileirão daquele ano. No banco, viu o time cair para a Série B pela primeira vez na história. Típico da posição, afeito ao time que defendeu, a felicidade nunca pareceu eterna para Max.

No ano seguinte, Max ganhou a titularidade na campanha da Série B, onde jogou bem e ajudou o Botafogo a subir. O reserva era Jefferson, que viraria ídolo anos depois. Como se de propósito, mostrando que a vida não é para ser exercitada na glória, viveu os momentos mais grandiosos justo no ano em que o Botafogo vivia pela primeira vez uma estranha pequenez. Três anos depois, foi campeão estadual, o único título em oito anos de Botafogo. Sujeito que parecia ter azar até na sorte, foi campeão em uma final sem lá muita emoção, contra o fraco Madureira, talvez no título mais fácil da história do Botafogo.

Fora isso, é lembrado mais pelas bolas que entraram do que pelas que defendeu: momentos irregulares, algumas falhas, como a espalmada bisonha nos pés de Souza na primeira final do Carioca de 2007, que empatou a partida. No mesmo ano, foi um dos cinco goleiros que se revezaram no gol do Botafogo, todos fracassaram de forma retumbante, o que impediu aquele time treinado por Cuca de ganhar alguma coisa. Perdeu a titularidade quando tomou um frango de pênalti contra o Náutico pelo Brasileiro. Defendeu a cobrança, mas a bola lhe escapou das mãos e entrou rolando, estranhamente, pelo lado das pernas.

No ano seguinte, o Botafogo se apresentou para a pré-temporada sem nenhum goleiro novo contratado, o que obrigou a diretoria a renovar seu contrato.

– Não sei o que Max está fazendo aqui. Não conto com ele. – disse Cuca, o treinador, dando triste fim à passagem do jogador pelo Bota, emprestado ao Vila Nova-GO, meses depois. A má sorte de Max na carreira está resumida no fato de que, desde 1995, há 22 anos, o Botafogo teve goleiros ídolos no elenco em 16 temporadas (Wagner, de 1995 a 2002, e Jefferson de 2009 até os dias atuais). O tempo sem um herói no gol é justo o tempo de Max no clube, de 2002 a 2008. O que realmente importa hoje: deixou amigos por lá em todos os setores do clube, não há um só que fale mal do caráter, do profissionalismo e da simplicidade de Max. Um baita sujeito.

Seu último clube foi o Barra da Tijuca, em 2014. No fim de sua derradeira temporada, viveu uma glória. Na Série B do Carioca, chegou ao triangular final, valendo duas vagas na elite. O Barra, seu time, fez um gol e empatou o jogo contra o Tigres aos 47 minutos do segundo tempo. Só que aos 49 o juiz marcou um pênalti para o adversário. Max defendeu e saiu de campo como herói. Em um campeonato esquecido, ninguém ficou sabendo, e nas partidas seguintes seu time perdeu a vaga.

Se este obituário exaltasse somente as glórias, como geralmente se faz, escreveria que faleceu o goleiro que defendeu a meta alvinegra no momento mais duro da história do clube, a Série B, e que estava debaixo das traves no primeiro título que qualquer alvinegro com menos de 20 anos viu, o Carioca de 2006. Tudo é verdade. Mas como é um obituário sincero, fala o que se comenta nas rodas de botafoguenses, que lamentam a morte, mas lembram de Max muito mais pelos frangos, do que pelas glórias. E não que isso seja, literalmente, um defeito. É, na verdade, uma lição. De que a vida importa mais.

Na crônica “A metafísica do frango”, do livro “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea”, Luiz Antônio Simas escreve que “a tragédia do goleiro é a mais bela demonstração estética da fraqueza humana”. E classifica o frango como “prova que debaixo das traves não está a máquina, mas o homem humano, que não sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solitário na noite grande”, o que poderia ser uma frase na lápide do grande Max.

O enorme Max morreu hoje, aos 42 anos, vítima de um edema cerebral, deixando a esposa, Marilda Faislon Luzia. Sim, grande, enorme Max. E até eterno. Não só pelo tamanho físico, mas principalmente pelas palavras de sua esposa ao saber de sua morte, nos lembrando da velha máxima que o futebol não passa da coisa mais importante dentre as coisas menos importantes:

– Meu amor foi embora. Mas ele não morre para mim.

E isso é tudo que importa.

Fonte: UOL (Texto de Thales Machado)