Se o futebol é uma caixinha de surpresas, o Botafogo é um baú de sentimentos imprevisíveis. Após jogar bem na derrota para o Cruzeiro e muito mal na classificação pela Sul Americana, o Glorioso voltou a mostrar um futebol insuficiente contra os minúsculos das Laranjeiras; ainda assim, saiu de campo com os 3 pontos e um salto de seis posições na tabela.

A preocupação começou logo na escalação. Alberto Valentim resolveu inventar e escalou Kieza como extremo – esperando que ele atacasse, fechasse a linha central e recompusesse no momento defensivo. É claro que não funcionou e, num lado já exposto pela fragilidade defensiva de Gilson, o Flu criou suas principais oportunidades de gol.

Além disso, a postura do time irritava. Completamente envolvido pela troca de passes do tricolor, sobretudo no primeiro tempo, o Bota deixava espaços na intermediária e permitia infiltrações, facões e ultrapassagens com extrema facilidade. As oportunidades do rival acumulavam-se de tal forma que o gol era só questão de tempo. Ou não.

Na única vez em que pôs a bola no chão, trocou meia dúzia de passes e organizou uma jogada ofensiva, o Glorioso chegou ao seu gol. Quando esperávamos que nossos jogadores enxergariam a camisa do Fluminense e não a do Barcelona, a coisa desandou. Com extrema facilidade, tocando passes dentro da área e finalizando com o peito, os caras empataram.

Intervalo para colocar a cabeça no lugar e o Bochecha na vaga do inoperante Renatinho. Ainda que sem ritmo de jogo, o garoto organizou a casa e fez o Alvinegro ocupar mais o campo de ataque. Embora os sustos continuassem, assim como os milagres de Jéfferson, o Botafogo tentava minimamente jogar futebol.

Vítor Silva/SSPress/Botafogo

Vítor Silva/SSPress/Botafogo
Jéfferson foi monstruoso, com pelo menos cinco grandes defesas

Os grenazinhos cansaram e nosso time percebeu que a defesa deles era composta por Gum e Renato Chaves. A partir daí, criamos algumas oportunidades até Kieza testar com força o segundo cruzamento perfeito de Marcinho no jogo. Botafogo na frente, na camisa, na raça, no improvável.

O sufoco prosseguiu até o fim do jogo, mostrando que, apesar dos três pontos – obrigatórios contra esses times pequenos jogando em nosso estádio – ainda temos muito o que organizar. Valentim deve espelhar-se no ótimo trabalho de Abel Braga, que, com bem mais tempo de casa, já tem um toque de bola e um padrão de jogo bem mais consistente.

A vitória veio, o salto na tabela aconteceu e pulamos para o sexto lugar – mesmo enfrentando várias equipes fortes, como Cruzeiro, Grêmio e Palmeiras, ao contrário de certos times por aí. No entanto, rezo para que Valentim tenha assistido o mesmo jogo que eu. Infelizmente, não enfrentaremos o Fluminense sempre.

Notas

Jéfferson: 9
Um grande “cala boca” para os críticos oportunos. Atuação de gala, com pelo menos cinco grandes defesas. A vitória passou diretamente pelas suas luvas.

Marcinho: 8
Fechou bem o seu lado e conseguiu dois cruzamentos perfeitos. Ótima partida.

Joel Carli: 5
Perdido em meio à velocidade tricolor, cometeu algumas faltas bobas e exagerou nas reclamações. Vacilou no gol de Pedro.

Igor Rabello: 6
Assim como Carli, vacilou no gol do Flu. No entanto, foi bem na jogada aérea, cortando vários cruzamentos. Faltou capricho com a bola no pé.

Gilson: 5
Deixou muitos espaços atrás e não conseguiu conter os avanços de Gilberto e Marcos Júnior. Algumas boas subidas ao ataque, mas precisa melhorar os cruzamentos.

Rodrigo Lindoso: 6,5
Alguns bons passes para iniciar a jogada e um belo gol de cabeça. No entanto, deu muito espaço na marcação, deixando buracos na intermediária em vários momentos.

Matheus Fernandes: 6
Boas roubadas de bola e interceptações, porém deixou a desejar na ocupação de espaços assim como Lindoso.

Luiz Fernando: 5
Ausente do jogo em boa parte dos 90 minutos. Recompôs bem na maior parte do tempo, auxiliando Marcinho pelo lado direito, mas faltou personalidade no campo ofensivo. Precisa usar sua velocidade e sua habilidade.

Renatinho: 3
Errou absolutamente tudo o que tentou. Vive péssimo momento. Ainda acredito em seu potencial, mas precisa começar a jogar futebol.

Kieza: 6
Em sua única participação na posição de ofício, fez o gol da vitória. No entanto, na função em que foi escalado, deixou muito a desejar. Pouca intensidade como extremo, tentando poucas jogadas no ataque e abandonando a marcação na hora de recompôr. A experiência foi péssima e ele é o menos culpado, já que nunca jogou por ali de maneira decente.

Brenner: 6
Com a baixa efetividade do trio da criação, pouco participou. Ainda assim, fez linda virada de jogo para Marcinho no lance do primeiro gol.

Bochecha: 8
Entrou com personalidade, excelente ocupação de espaços e boa distribuição de passes. Organizou a casa a partir da nossa intermediária. Deu algumas bobeadas na marcação, mas no geral foi muito bem. Mudou o time na 2ª etapa.

Aguirre: 6
Em seu primeiro lance, deixou ótima impressão – velocidade, explosão e visão de jogo. No entanto, acabou invertendo com Kieza para fechar o lado esquerdo com mais fôlego.

Jean: sem nota
Entrou para fechar a casinha e jogou pouquíssimo tempo.

Alberto Valentim: 4
Talvez a sua pior partida como técnico do Botafogo. Escalou mal ao entrar com Kieza de extremo e não o substituiu durante todo o jogo. Foi na onda da galera e também substituiu mal, promovendo a estreia de Aguirre quando deveria colocar João Pedro ou Pimpão para fechar o lado esquerdo e melhorar a recomposição. É normal que faça testes, até para conhecer o elenco, mas precisa enxergar quando não dá certo. Segue com crédito, mas precisa fazer o time jogar com mais consistência; já são duas péssimas partidas consecutivas.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC