É legítimo e compreensível que os botafoguenses descarreguem suas frustrações sobre Jair Ventura, jogadores e diretoria do Botafogo pela décima colocação no Brasileiro que deixa de fora da Libertadores em 2018. Depois de trafegar em boa parte do campeonato na zona de classificação. Mesmo com as vagas cedidas por Grêmio e Cruzeiro e ainda a que o Flamengo pode deixar para o nono colocado com o título da Copa Sul-Americana. Ficou no quase.

O ”quase”, aliás, foi a tônica do Botafogo na temporada. No Carioca, mesmo priorizando a Libertadores, chegou à semifinal e só foi superado pelo campeão invicto Flamengo. Algoz na Copa do Brasil já nas semifinais, com o gol de Diego na jogada improvável de Orlando Berrío. Na Libertadores só caiu para o campeão Grêmio em dois duelos parelhos. Duros reveses, mas todos diante de equipes superiores.

Porque o time de Jair Ventura jogou sempre no limite. Perdendo peças e, por conta das muitas limitações no orçamento, recorrendo às divisões de base e a reforços que quase nunca mantiveram o nível dos que saíam. Por isso sempre precisando estabelecer prioridades.

Abandonando o estadual em alguns momentos porque jogava a vida no torneio continental. Como sobreviveu até as quartas de final e ainda havia a Copa do Brasil o Brasileiro sempre ficou um pouco de lado. Quando Jair forçou a barra e colocou todos os titulares para encarar a maratona o time penou e sofreu reveses inacreditáveis, como as viradas de São Paulo e Vitória nos últimos minutos no Estádio Nilton Santos.

O Botafogo teve que queimar etapas de preparação no início. Precisava estar definido e competitivo para as fases anteriores à de grupos na Libertadores. A vitória contra o Colo Colo no Nilton Santos foi no primeiro dia de fevereiro. O Atlético Paranaense também viveu esta realidade, mas não foi tão longe nas demais competições de mata-mata.

O Botafogo pagou pela própria competência. Que não foi suficiente para buscar os títulos contra equipes mais fortes, mas levou até onde foi possível. Com dignidade e honrando as cores durante a maior parte do tempo.

Só que o gás acabou antes. Como um carro de F-1 mais modesto que tenta duelar com os das construtoras mais poderosas e cobra demais do motor e da estrutura. Ou quebra ou acaba o combustível. O Botafogo morreu nas últimas cinco rodadas do Brasileiro. O rendimento individual e coletivo despencou e os resultados foram mera consequência: três derrotas – uma em casa para o lanterna e rebaixado Atlético-GO – e dois empates. O derradeiro na despedida em Engenho de Dentro contra o Cruzeiro em clima de férias. Se vencesse cumpriria sua meta no campeonato.

Não deu. Que o Botafogo mantenha a ideia de continuidade refletida pela vitória do candidato da situação, Nelson Mufarrej, com o atual presidente Carlos Eduardo Pereira como vice. Não há razão para demitir Jair Ventura e sua comissão. Os erros aconteceram, sim. Talvez um melhor planejamento na questão física ou um pouco mais de coragem contra o Flamengo na Copa do Brasil. Quem sabe uma proposta mais consistente na necessidade de atacar e propor o jogo.

Mas a impressão mais forte é de que 2017 foi mesmo cruel por ter começado e terminado antes da hora. É humano que a torcida procure um responsável ou bode expiatório. Mas desta vez, mais do que em qualquer outra, o alvinegro quase sempre supersticioso e pessimista tem razão para culpar a sorte. Ou a falta dela.

Fonte: Blog do André Rocha - UOL