Flamengo e Botafogo se enfrentam à sombra das declarações de Carlos Eduardo Pereira, presidente alvinegro, que demonstra dentro e fora de campo querer uma maior rivalidade com a Gávea. Percepção que demorou, mas enfim chegou: um clube tem que cultivar adversários preferenciais, com quem disputa os campeonatos que não cabem nas tabelas. É importante nunca ser o clube “fofo”.

Ainda mais numa cidade com quatro equipes de amplo espectro, em que sempre há um clássico que parece menos clássico: ou por má fase das duas equipes, ou porque simplesmente os rivais já não são tão rivais assim. O jogo que exemplifica melhor essa situação é, sem dúvida, Fluminense x Botafogo. Mesmo tratando-se do duelo mais antigo da cidade, não se sente que tricolores e botafoguenses tenham obsessão por vencerem um ao outro. Às vezes, são só três pontos.

Há décadas Eurico Miranda percebeu que era importante antagonizar, principalmente na rivalidade com o Flamengo: afinal, é no Clássico dos Milhões que um jogo do Vasco interessa a mais da metade da população da cidade, do estado e de um grande naco nacional. Certas coisas são indiscutíveis: clássicos contra o Flamengo atraem mais atenções e audiência, devido às óbvias dimensões da torcida rubro-negra, e são amplas janelas de visibilidade para clubes rivais — tudo aquilo que os patrocinadores costumam recompensar bem.

A partir de meados dos anos 1980 — com o gol de Cocada no Estadual de 1988, a transferência de Bebeto da Gávea para São Januário e as bravatas de Eurico — acirra-se todo um folclore do Vasco x Flamengo, que rouba do Fla-Flu muito da atenção. Como resultado, uma geração inteira de adolescentes rubro-negros dos anos 90 não encara o Fluminense como seu principal rival, por mais que se recitem crônicas de Nelson Rodrigues.

O alvinegro Pereira se baseia num histórico de grata memória para o clube P&B: o Botafogo se deliciava nos duelos com o Flamengo nos anos 60 e 70, quando os rubro-negros penavam diante do abuso de talento em preto-e-branco. Eram dias em que as leis de Gerson, Garrincha e Jairzinho dominavam o gramado do Maracanã, causando nos rubro-negros agonias que só foram plenamente alforriadas na Vingança dos 6 a 0, quando a goleada sofrida em 1972 foi devolvida em 1981. Bussunda (1962-2006) publicou numa “Placar” dos anos 1990. O humorista descrevia com detalhes o que era torcer por nove anos sob o signo dessa humilhação e o que foi a comoção ao devolvê-la.

O fundamental agora é conseguir que a Gávea responda a essa rivalidade acusando o golpe, e tratar o jogo de hoje como final é um belíssimo caminho. O Botafogo tem diante de si um Flamengo que enfrenta o desafio de ser mais perfeito que o Palmeiras. O time de Zé Ricardo melhorou, mas ainda sofre no momento de substituir. A pressão.

Fonte: Coluna do Márvio dos Anjos - O Globo Online