Não há quem questione a campanha do Botafogo até agora no atual Campeonato Brasileiro. Independentemente da derrota para o Grêmio (0 a 1), dentro de casa, nesta quarta-feira, Eduardo Barroca deu novos ares ao alvinegro carioca não só em resultados, mas  elevando desempenho e criando, mesmo que longe de sua totalidade, uma identidade para a equipe que vivia tempos de muita incerteza. Do nada veio uma forma de jogar, uma ideia, um norte…

Com um trabalho que ainda sequer completou três meses, o jovem e promissor treinador tenta, a todo custo, jogar a partir do controle da posse. Pede para que a equipe circule a bola, sempre cobrando que os atletas busquem triangulações e o máximo de linhas de passe por todo campo. Neste sentido é perceptível que equipe demonstrou grandes avanços, com gols bem construídos e um aumento significativo na posse de bola.

Mas ainda há muito a se desenvolver.

E talvez a grande questão para o Botafogo atingir novos patamares competitivos envolve a chegada da equipe no terço ofensivo do campo. Com um time titular mais pesado do meio de campo para frente, principalmente pelas presenças de Cícero, João Paulo e Diego Souza, a equipe sofre um tanto nas transições ofensivas. Nem mesmo a velocidade de Erik e as boas conduções/infiltrações de Alex Santana garantem a verticalidade que o jogo pede em alguns momentos. No duelo contra o Tricolor isso ficou bastante evidente.

Por vezes o Botafogo conseguiu recuperar a bola em momentos de pressão mais baixa e com o bloco defensivo um pouco mais recolhido. Teve êxotp, num primeiro momento, nas tentativas de aceleração.  Mas faltou, além de peças de velocidade, uma chegada mais rápida de opções para quem conduzia a bola. Em um lance bem explorado com Alex Santana, ainda no primeiro tempo, essa tônica ficou bastante clara: time baixa a marcação e a bola é recuperada. O passe mais vertical entra perfeitamente, mas o meio-campista acaba precisando retardar a jogada, diminuir suas passada. Justamente para esperar companheiros chegarem na linha da bola. Um lance promissor, mas que não deu em nada.

A grande referência de  velocidade deste Botafogo é  Erik (que faz mais um excelente ano em General Severiano, aliás). Mas esse escape tende a ficar cada vez mais “cantado”. Com os adversários tirando essa saída botafoguense, o time acaba necessitando de mais opções desse perfil – talvez esteja aí um dos grandes desafios para a janela de transferências que vai se abrir.

Luiz Fernando, o outro ponta aberto do 4-3-3 de Barroca, apesar de não ser um jogador lento, tem mais características de meia. Até por isso, tende sempre a sair do lado para se associar por dentro, centralizando um pouco suas jogadas. Diego Souza, apesar de usar bem o corpo para reter a bola em alguns momentos, sofre também com a falta de apoios em saídas mais rápidas.  E, por mais que a proposta seja jogar com o controle da posse, o jogo vai pedir situações mais agudas. Isso é inevitável.

Outro ponto que também tem a ver com essa falta de velocidade e que o Botafogo pode evoluir é na passagem da transição para a fase ofensiva.

É uma equipe que se propõem a ter controle da posse, mas que em vários momentos demora a “viajar com bola”. Conceito muito usado no futebol espanhol, o tal viajar com a bola ou viajar juntos, nada mais é que o time conseguir sair de trás acompanhando a linha da bola. Progredir em campo com o bloco compacto, com jogadores próximos e em sincronia.

Vale ressaltar que não se trata de um mecanismo tão simples assim. Até por isso, seria até leviano cobrar tal fluidez do Botafogo com tão pouco tempo de trabalho até aqui. Mas, de fato, é algo que claramente pode ser ajustado e ganhar evolução com base nos treinamentos. Principalmente por se tratar de um conceito muito explorado por equipes que buscam este tipo de modelo.

Sem a posse, principalmente no duelo contra o Grêmio, chamou muito a atenção à falta de pressão na bola em vários momentos. Tal deficiência fez com que os gaúchos tivessem controle da mesma por bons períodos, circulando e rodeando a área alvinegra. Dando até a impressão de que a estratégia para a partida podia ser de esperar um pouco mais o adversário, fugindo do que vem sendo tentado até aqui pelo treinador.

Obviamente que essa falta de agressividade sem a bola também pode ter muito a ver com o momento da temporada que vivemos. Por conta das longas maratonas de jogos em sequência, dá para se perceber uma queda de intensidade de várias equipes nesta reta final antes de Copa América. O jogo no Nilton Santos, aliás, teve de um caráter mais pausado.  Mesmo assim, talvez este tenha sido um dos grandes problemas para os cariocas não alcançarem um melhor resultado contra um Grêmio totalmente desfalcado.

Por fim, ainda em transição/fase defensiva, o Botafogo pode crescer no quesito compactação. Este aspecto, aliás, já foi pontuado pelo próprio treinador da equipe em entrevistas recentes e certamente será um ponto a ser trabalhado nesta pausa. Por vezes é possível ver um espaço considerável entre os setores, principalmente quando a primeira (Diego Souza) e a segunda linha (Erik, João Paulo, Alex Santana e Luiz Fernando) avançam um pouco mais no campo para tentar uma pressão mais alta. Com isso, os adversários tentam sempre buscar a bola exatamente nas costas dessa linha de quatro, deixando Cícero – o 1º volante à frente da linha defensiva  – em uma situação desconfortável.

Vale ressaltar que esse tripé ainda tem João Paulo (também mais posicional e passador, porém menos agressivo) e Alex Santana. Ou seja, falta no setor, em alguns momentos, mais imposição e intensidade. Se levarmos em conta que a linha defensiva também não é das mais rápidas, chega até a ser um pouco arriscado mantê-la um pouco mais alta. Por isso a importância dessa agressividade no meio. Justamente para não deixar Carli & Cia. em situações de mano a mano em velocidade.

É muito importante ressaltar que o desafio assumido por Eduardo Barroca assumiu não era, não é e nem será fácil. Apesar de todas as dificuldades (elenco, problemas financeiros, de estrutura…), trata-se de um trabalho muito promissor e que entrega até mais do que se imaginava num primeiro momento. Mais que isso, é um jogo jogado com ideias. Traz consigo aspectos que acrescentam na diversidade de ideias que por vezes falta ao nosso futebol. Independente de gosto ou certo/errado, o comandante alvinegro tem um norte bem claro e que pode atingir maiores patamares.

E isso, de verdade, já é algo bem louvável. Certamente que Eduardo Barroca e sua comissão técnica já chegaram a estes diagnósticos e esperam ansiosamente por este período mais longo de treinamentos. Com tempo, trabalho e tranquilidade para introduzir ainda mais consistência ao seu modelo de jogo, tem tudo para fazer uma boa segunda parte de Campeonato Brasileiro. Afinal, treino é jogo e jogo é treino.

Fonte: Blog do Renato Rodrigues - ESPN