Qual torcedor não gosta de ir pro estádio e sair rouco de tanto gritar gol? Gritar olé, aplaudir o time solto em campo e cantar provocações ao rival, por muitos anos, fez parte da rotina do torcedor carioca. Com ingressos mais baratos, times melhores e estádios mais cheios, o Carioca era valorizadíssimo e tido como “o estadual mais charmoso do Brasil”.

No entanto, os tempos são outros. Se para o futebol do Rio de Janeiro o momento é de desvalorização, para o Botafogo, por sua vez, é de reinvenção. Depois dos momentos de êxtase na Libertadores e a aposta furada em um técnico ainda despreparado, a hora é de dar espaço ao novo professor.

Valentim chegou respirando trabalho. Com sangue nos olhos, mostrou muita vontade de obter sucesso numa via de mão dupla; ele, ao se afirmar como técnico, e o Alvinegro, há tanto tempo querendo voltar a ser o Glorioso. Percorreu os caminhos de General Severiano como quem buscava ainda mais inspiração, numa demonstração de imenso respeito à instituição e sua maravilhosa historia.

Em campo, as goleadas ainda não vieram. Pudera! O cara é nosso treinador há somente duas semanas. Ainda assim, é possível ver influência sua nas duas vitórias magras nesse início de Taça Rio. Se os resultados não empolgam, o desempenho – esse, sim, importante nesse momento – grita. Gradativamente, o Botafogo mostra sua nova cara e deixa para trás o futebol reativo instaurado por Jair Ventura.

Alberto organizou a defesa, que vinha sofrendo bastante, principalmente no jogo aéreo, e partiu para alinhar meio-campo e ataque. Com um time veloz e explorando as pontas, além de um centro-avante bem mais móvel, o Bota começa a criar um volume de jogo bem maior. Aos poucos, ganha confiança para arriscar mais e afia a pontaria para caprichar mais no último passe e na finalização.

Antes de apontar os fracos adversários como razão óbvia, lembre-se que não mostramos bom futebol em nenhum momento da Taça Guanabara e rodamos para a bizarra Aparecidense na Copa do Brasil. O trabalho é demorado, difícil e exige paciência – principalmente do torcedor. Sei que é complicado repetir essa palavra há mais de 20 anos, mas somos parte importante do processo.

O fato é que já conseguimos vislumbrar, novamente, dias melhores. O Brasileiro é uma obrigação longa e difícil, mas a Sul Americana é o caminho que nos permite sonhar em ver o velho Botafogo de volta. Eu acredito. Alberto Valentim, também. E você, vai ficar de fora dessa?

Notas

Gatito Fernández: 6
Mero espectador, já que sequer viu sua meta ser ameaçada.

Marcinho: 8
Ótima atuação, um dos melhores em campo. Surpreende pelo ritmo e intensidade depois de tanto tempo parado. Vem mostrando o futebol que conhecemos na base e isso é excelente. Que possa crescer cada vez mais. Tem muito a aprender com Valentim, especialista da posição.

Marcelo: 7,5
Atuação segura, anulando as poucas ameaças da Cabofriense. Boas participações ofensivas, com passes e lançamentos.

Igor Rabello: 7,5
Assim como seu companheiro de zaga, fez bem a contenção e chegou bem à frente, inclusive organizando jogadas e quase marcando gols.

Moisés: 7
Mais uma boa atuação. Muita força física e velocidade, faz o básico com bastante eficiência. Ainda tem espaço para crescer – mas só de barrar o Gilson, já passa ótima impressão.

Rodrigo Lindoso: 6,5
Ocupou bem os espaços na intermediária, mas vacilou nos passes na saída de bola. Se conseguir recuperar o ótimo futebol do ano passado, será muito importante no meio-campo.

João Paulo: 7
Segue sendo o coração do time. Distribui o jogo com ótimos passes e lançamentos, marca e chega à frente com naturalidade. Mantém a regularidade e luta até o fim. Dono do time!

Rodrigo Pimpão: 7
Voltou a ter boa atuação. Opção constante pela esquerda, lado onde se sai melhor. Bela assistência para o gol do jogo. Falta ousar mais, algo que virá com a confiança depois de uma boa sequência de atuações como a de hoje.

Leo Valência: 5,5
Muita movimentação, voltando para buscar jogo e passando por todas as partes do campo. No entanto, segue tomando várias decisões erradas – o que acaba irritando o resto do time e os torcedores. Com as pernas curtas, precisa fazer um esforço surreal para alcançar a velocidade que jogadores maiores conseguem sem esforço. Para completar, perdeu chance claríssima no fim do jogo.

Kieza: 8
Vem calando a boca dos críticos – inclusive a minha. Além dos gols, mostra boa movimentação, adaptando-se bem ao esquema tático. Com mais ritmo e entrosamento, tem espaço para melhorar ainda mais. É apenas um começo, mas não deixa de ser animador.

Ezequiel: 6
Correu bastante, tentou as jogadas, mas não estava inspirado. Tem potencial para muito mais.

Luiz Fernando: 6,5
Entrou e foi levemente melhor que o titular, mas ainda não foi o jogador que vimos no Atlético-GO. A hora de crescer é agora.

Brenner: 5,5
Com bem menos mobilidade que o titular, praticamente não encostou na bola. Deve perder ainda mais espaço por suas características serem conflitantes com as exigidas pelo novo esquema.

Luis Ricardo: 5,5
Não consigo aceitar o fato de ainda vestir nossa camisa depois dos acontecimentos do ano passado. Em campo, mostrou estar completamente fora de forma e ritmo de jogo devido ao longo tempo parado. É possível que, a essa altura, não volte mais a jogar como lateral. Vale lembrar que começou a carreira como atacante e também atuou como meia, o que justifica a sua entrada na vaga do Pimpão.

Alberto Valentim: 8
Dá gosto ver sua vontade de trabalhar e colocar em prática as suas filosofias de jogo. O time já começa a mostrar sua cara – o que é importante, pois demonstra que o grupo e o técnico estão falando a mesma língua.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC