Se você dissesse a um botafoguense, lá na virada de ano, que o clube terminaria a primeira fase de qualquer campeonato com a melhor campanha entre todos os participantes, ele provavelmente riria da sua cara. A diretoria dispensou quase todo o elenco de 2015 e demorou demais pra repôr – e quando o fez, a qualidade continuou pra lá de duvidosa.

No entanto, para a surpresa de todos, as coisas começaram a se acertar. O técnico melhorou, o time encaixou e até impressionou pela consistência de padrão tático em alguns jogos. Da mesma forma que precisamos ter a dignidade de admitir isso após muitas críticas, necessitamos olhar pra frente e enxergar que os desafios futuros são muito maiores; apesar da boa campanha, ainda temos muito a melhorar para oferecer alguma competitividade na Série A do Campeonato Brasileiro.

Chegamos ao fim da primeira fase da RubensLiga e os números são ótimos: melhor campanha geral com 22 pontos em 8 jogos – 7 vitórias e um empate; melhor defesa da competição, com apenas 3 gols sofridos e o melhor aproveitamento do Brasil, conquistando 91,7% dos pontos disputados. Mas, além de toda essa matemática, é preciso enxergar as lições que podemos tirar depois de superarmos o primeiro desafio:

– Ricardo Gomes parece ter estudado bastante nas férias. Mostrando uma pegada bastante diferente do ano passado, nosso técnico entrou em 2016 com foco em distribuições táticas consistentes e um padrão firme de jogo, explorando o máximo possível do nosso limitado elenco.

– Em times mais fracos como o nosso, é preciso ter uma equipe leve e com quase todos os jogadores participando de diferentes fases do jogo, com e sem a bola. Jogando com uma linha de 4 no meio-campo, temos usado extremos que atacam e têm poder de recomposição pra ajudar na marcação; isso explica a inutilização de Gervasio Nuñez e Damian Lizio – além de toda a falta de técnica e preparo pro futebol profissional.

– O Campeonato Carioca é um torneio com cada vez menos importância e credibilidade. Já passou da hora de exterminar as federações estaduais. A RubensLiga é um grande exemplo disso: não ouve os clubes, leva grande parte da renda de todas as partidas – causando prejuízo financeiro em todos os jogos dos grandes e ainda cria um regulamento diferente a cada ano. O de 2016 é sem pé nem cabeça: além de toda a complexidade do chaveamento, o Botafogo teve a melhor campanha da 1ª fase e entrará na 2ª sem qualquer tipo de vantagem sobre times como o Fluminense, que teve quase a metade do nosso aproveitamento. Pra completar, na 1ª rodada, já com “clássico”, marcam o confronto pra Volta Redonda às 18h30. Parece que fazem de sacanagem pra ninguém ir mesmo. Inacreditável.

– Nosso setor defensivo está equilibrado e com opções aceitáveis, que nos deixam na média do futebol brasileiro, precisando apenas reforçar as laterais. Nosso meio-campo está dinâmico e competente na marcação, mas precisa se reforçar tanto em criatividade quanto em velocidade. Ou seja, Salgueiro não é suficiente para entrarmos em competições mais difíceis. Precisamos de, pelo menos, mais dois meias com qualidade de titulares.

– Nosso ataque ainda me preocupa. Luis Henrique parece sentir a pressão e não consegue desenvolver o seu grande potencial. Ribamar, um pouco mais solto, ainda oscila – algo normal em sua idade. Apesar de confiar bastante no potencial de ambos, fica claro que precisamos de um camisa 9 tarimbado pra comandar essa garotada e assumir maiores responsabilidades ao longo da temporada.

– O aproveitamento das divisões de base, aliás, tem sido um dos pontos fortes do Botafogo nos últimos anos. Nossos garotos têm dado conta do recado e sendo bastante eficientes, resgatando nossa tradição de revelar nossos próprios jogadores – algo que não acontecia há muitos anos. No entanto, o exagero na responsabilidade jogada pra garotada ainda me preocupa. Contratar alguns nomes experientes pra mesclar o grupo é o caminho ideal pro segundo semestre.

– Com o esquema de jogo basicamente definido por Ricardo Gomes e uma quantidade aceitável de jogos pra analisar nossas peças, fica mais fácil de mirar os reforços. A diretoria precisa ser eficiente e contratar com sabedoria e qualidade – algo que me deixa ressabiado devido ao trabalho recente do nosso “setor de inteligência”. Antônio Lopes e cia. precisam fazer muito mais do que têm feito, ou a coisa vai complicar no Brasileirão. Chega de “Yacas” da vida..

– A posição mais carente, em minha visão, é numa função que começamos a utilizar muito mais neste ano: os extremos. São os jogadores que ocupam as pontas da nossa linha de quatro central e têm trabalho importantíssimo em nosso esquema, dando dinâmica à equipe, atacando com profundidade e recompondo pra dobrar a marcação com os laterais. Atualmente, só Neílton é jogador de ofício dessa posição, caindo pela esquerda. Luis Ricardo e Fernandes têm capacidade de fazer o mesmo pela direita. No entanto, está longe do ideal. Precisamos trazer mais opções pro trabalho de Ricardo.

– Fernandes, aliás, é o meu único questionamento ao trabalho de Gomes em 2016: por quê o garoto joga tão pouco? Está certo que ele sofreu com lesões na pré-temporada, mas quase sempre ficou no banco sem participar. Quando, enfim, ganhou sua chance de titular, foi o dono do jogo contra o Boavista.

– Aírton continua sendo nosso melhor jogador de linha. Nossos volantes, aliás, são o ponto forte do grupo: Bruno Silva, Rodrigo Lindoso e Fernandes dão dinâmica à equipe e quebram o velho paradigma de que times com 3 volantes em campo perdem em ofensividade. Atualmente, todos são meias centrais e precisam saber atacar e marcar com a mesma qualidade. Resta saber se nossos nomes manterão o bom desempenho em competições mais difíceis.

– Em suma, é preciso valorizar o bom trabalho que vem sendo feito pela comissão técnica, mas sem exagerar. Não podemos, de forma alguma, repetir os erros de anos passados, quando nos demos por satisfeitos com as campanhas estaduais e passamos sufoco a nível nacional. Precisamos reforçar bem esse grupo atual.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN.com.br