Botafogo tem a pior relação entre dívidas e receitas no país: 4,5 vezes maior

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Na manhã da próxima quinta-feira, 7 de agosto, o Botafogo vai disputar aquela que talvez seja a mais importante decisão do ano. Nesta data, o desembargador José Antônio Teixeira vai julgar no Órgão Especial do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) a proposta do clube para um novo plano de execução de suas dívidas trabalhistas. Na prática, é a tábua de salvação, ao menos imediata, para uma instituição que, em grave crise financeira, não consegue pagar o salário dos jogadores porque tem 100% de suas receitas bloqueadas pela Justiça.

Enquanto as finanças assustam, o presidente Maurício Assumpção se vê diante de um escândalo que também envolve receitas. O site Globoesporte.com revelou que a Romar Representações LTDA, que tem como sócios o pai (que morreu no ano passado) e a madrastra do presidente, recebeu 5% dos contratos do clube com o principal patrocinador do futebol do clube, a Viton 44. Assumpção defende que a operação foi analisada pelos diretores executivos do clube e que não há impedimento sob a ótica do estatuto do clube.

De volta à batalha no TRT, o Botafogo poderá receber o dinheiro em até 24 horas se obtiver êxito na Justiça. Como o elenco profissional não recebe há três meses na carteira de trabalho, além dos cinco meses de direitos de imagem e a falta de recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), só a liberação das receitas e o pagamento imediato do vencimentos impedirão que os jogadores entrem na Justiça para acertar com outros clubes.

A situação é tão grave que, devido às dívidas, o Botafogo não consegue negociar jogadores. Lodeiro, que foi para o Corinthians, e Octávio, para a Fiorentina, precisaram de liminares para sair.

— O Botafogo tem em torno de R$ 100 milhões de dívidas trabalhistas em execução. A nossa proposta é pagar esse dinheiro em 10 anos, ou seja em 120 meses — explicou o advogado Marcus Donnici, contratado pelo clube. — Seriam quase R$ 900 mil por mês. Esse dinheiro seria carimbado, ou seja, nem passaria pelo clube. Parte da cota de direitos de televisão da Rede Globo iria direto para os credores. O que o Botafogo quer é pagar o que deve.

O acordo não é tão fácil quanto parece. No final do ano passado, o plano de execução iniciado em 2003, com prazo de 10 anos, foi encerrado. Em julho de 2013, o desembargador Francisco Montenegro Neto chegou a interromper o ato ao entender que o Botafogo tentou ocultar receitas utilizando a Companhia Botafogo, empresa em que o clube tem participação de 99%. Ele considerou que foi um artifício para deixar de quitar R$ 95 milhões entre 2009 e 2013. Na época, o alvinegro tinha um acordo para destinar 20% de suas receitas para quitar dívidas. Agora, a prioridade será um acordo com valor fixo.

Pior relação dívidas/receitas no país

Na prática, o plano de execução do TRT centraliza todas as dívidas e as coloca em uma lista, com 550 credores, para que sejam quitadas em ordem. Se não for aceito o acordo com o tribunal, a ideia do clube é que ele mesmo organize sua lista.

— Já temos um Plano B. Se não conseguirmos o acordo, vamos fazer um ato privado nos mesmos moldes. Vamos fazer uma associação de credores, e já tenho o aval de muitos deles — afirmou Donnici. — É uma solução melhor para os credores, que tentam penhorar todas as receitas. Um pega a bilheteria, o outro patrocínio, mas alguns não pegam nada. Vira uma bola de neve.

Segundo levantamento da consultoria BDO, o endividamento líquido do alvinegro é de R$ 698 milhões, o segundo maior entre clubes brasileiros, só perdendo para o Flamengo. O endividamento tributário é de R$ 350,9 milhões, enquanto os empréstimos somam R$ 95,2 milhões. No último ano, o clube teve o segundo pior resultado operacional no país: prejuízo de 80,2 milhões. Para Pedro Daniel, responsável pelo levantamento, a situação financeira é crítica.

— O endividamento do Botafogo é 4,5 vezes maior do que sua receita, a pior entre os clubes do país. Ele teria muita dificuldade em parcelar ou executar essa dívida. Se fosse uma empresa privada, certamente estaria em recuperação judicial, para não dizer que estaria tecnicamente falida — afirmou Pedro Daniel.

Outro dado que preocupa é o aumento dos gastos. Em 2013, as despesas no futebol cresceram 109%.

— Você não vê um corte de custos, que é o que uma empresa estaria fazendo. Esse é um dado preocupante. O clube não virou a chave — observou o consultor.



Fonte: O Globo Online
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