Um território livre para cambistas é a venda de ingressos para a final do Carioca, no Maracanã, sob administração da Federação de Futebol do Rio (Ferj). Torcedores do Vasco que ficaram horas na fila para compra dos bilhetes saíram frustrados. As entradas para vascaínos se esgotaram em poucas horas. Mas para os cambistas, acesso garantido. Na internet, já são ofertadas entradas a R$ 120 para o setor Sul, o dobro do preço na bilheteria (inteira). De quem é a responsabilidade?

Uma das explicações para esse desrespeito com o torcedor passa pela escolha da empresa para operar a venda, Ingresso Fácil (fácil para quem?), braço da BWA, antiga parceira da federação, nos velhos tempos do Velho Maracanã. A empresa não vende pela internet. Ninguém entende os motivos. Um dos procedimentos que se elogia no estádio pós concessão foi a melhora da eficiência na venda de ingresso.

ESPN.COM.BR

Imagem - Cambista
Homem oferece ingressos para a final na internet 

A concessionária encabeçada pela Odebrecht, com todas as críticas que se faz ao modelo e ao processo licitatório, conseguiu resolver o problema das longas filas criando, entre outros pontos, um cartão pelo qual se podia comprar pela internet. O problema das roletas que travavam e tinham de ser liberadas ao longo do jogo, sem que qualquer limite de público fosse feito, também foi resolvido, o que não acontecia quando a mesma empresa operava os acessos.

Com a venda online, ainda que se tivesse de trocar posteriormente o voucher nas bilheterias, não se via nada perto do que aconteceu na manhã desta quarta-feira, no Maracanã. No primeiro jogo, questionados, os responsáveis disseram que cerca de 30% seriam de sócios torcedores e que estes poderiam entrar com o próprio cartão de fidelidade. Número que não foi comprovado. O borderô divulgado pós partida conta que dos 43,822 mil presentes, apenas 2.331 eram sócios-torcedores, o que dá pouco mais de 5%.

Clubes repassaram operação

Outra pergunta que se faz, neste caso, aos clubes (Botafogo e Vasco – veja respostas abaixo) é porque não optaram por operar a venda com a empresa com a qual têm utilizado durante todo o campeonato. Botafoguenses e vascaínos sabem que a Futebol Card vende ingressos, pela internet _como fazem tantas outras do mercado_ para os jogos em que ambos são mandantes, em São Januário. Foi assim durante todo este ano.

Em São Paulo, as empresas que operam no Allianz Parque e na Arena Corinthians, Futebol Card e Omni, respectivamente, se gabam de em muitos jogos sequer abrirem as bilheterias. A média tem sido de 75% por vendas pela internet. Em terras paulistas, o que se critica é a venda de meia-entrada, que muitas vezes não ocorre.

ESPN.COM.BR

Imagem - Ingresso
Torcedora fala sobre dificuldades para compra de ingresso e ação de cambistas

Na tarde de quarta-feira, cambistas eram vistos em São Januário, circulando livremente. Muitos deles passaram a noite nas filas do Maracanã, alguns até apareceram em imagens jogando bola de madrugada em matérias que pintavam o cenário como “a grande festa da final”. Enquanto os cambistas se divertiam, vascaínos revoltados apedrejavam a sede do clube, no Centro, após passarem 8 horas em filas e não encontrarem ingressos.

Um campeonato que coleciona fracassos técnicos e administrativos, não poderia se encerrar de outra forma.

O Blog procurou todos os envolvidos no processo: Ministério Público e BWA ainda não responderam. A Ferj respondeu após a publicação.

Resposta do Botafogo (perguntamos por que o clube não operou o jogo como mandante como fez ao longo do campeonato):

“O Botafogo atualmente não possui contrato vigente com a Futebol Card, em virtude da cessão do Estádio Nílton Santos para os Jogos Olímpicos, e por até semana passada o Botafogo não ter a confirmação de um estádio fixo para mandar seus jogos no Rio de Janeiro em 2016.
Com isso o clube, que não administra mais o programa de sócio-torcedor de forma terceirizada como nosso rival, buscou se adaptar ao contexto apresentado junto à empresa operadora de venda de ingressos dos jogos das finais do Estadual da melhor forma possível em ambos os jogos, abrindo um canal próprio de reserva de ingressos para sócios que possuíam tal direito, e dois guichês exclusivos para as demais categorias de sócios-torcedores na bilheteria do clube, e uma bilheteria exclusiva dentro da sede para os sócios-proprietários, mesmo eles podendo adquirir ingressos com desconto nos demais pontos de venda oferecidos pela empresa fornecedora dos ingressos para as finais”.

Resposta do Vasco (há uma nota de esclarecimento no site do clube. Colocamos trecho dela abaixo):

“O Estádio do Maracanã foi cedido pela Prefeitura e coube à FERJ a contratação de todas as prestadoras de serviço, inclusive a empresa de bilheteria. A nossa parceira para jogos em São Januário é a FutebolCard, que realiza a venda tanto para sócios-torcedores quanto para não-sócios. Já para estas partidas no Maracanã, a responsável pela venda de ingressos é a empresa Ingresso Fácil/BWA. Toda a operação referente à venda de ingressos para os jogos da final no Maracanã foi determinada por um acordo entre os dois clubes que disputam o título e a Federação, responsável pela organização e realização da partida.”

Resposta da Ferj:

“A ingresso fácil foi a única empresa a se habilitar para a realização da venda dos ingressos para as finais do Carioca. E foi aceita pelos clubes. O sistema anterior, pertencente ao Consórcio,  não foi disponibilizado para utilização nos jogos entre Vasco x Botafogo. A implementação de um novo demandaria tempo (o que nāo havia) e alto investimento.  O Maracanã, cabe ressaltar, estava fechado há quase seis meses.
Em relação aos cambistas, o controle não cabe à Federação de Futebol do Rio de Janeiro.”

Fonte: Blog da Gabriela Moreira - ESPN.com.br