Para enfrentar o isolamento imposto pela Fifa, o atacante Jóbson, suspenso por quatro anos, trouxe de Conceição do Araguaia, sul do Pará, Marcelo e Lourão, dois amigos de infância. Se quiser, poderá agregar outros aliados na luta para volta aos campos de futebol e vencer definitivamente os infortúnios que prejudicaram sua carreira. O ex-jogador Paulo Cezar Caju, que também enfrentou problemas com drogas, ofereceu-se para fazer companhia ao jogador.

Outro convencido de que a punição não é a forma adequada de tratar da doença de Jóbson é o psiquiatra Jiosef Fainberg. Ele quer fazer um diagnóstico do craque para mostrar à Fifa que a única decisão possível para o caso é um tratamento adequado, não afastamento.

Há três anos, quando Jóbson se preparava para mais uma reestreia no Botafogo, Caju foi chamado pelo então técnico do time, Oswaldo Oliveira, para dar uma força ao jogador – na época, o clube também havia recrutado o psicanalista Roberto Hallal com o mesmo objetivo.

– Também passei por isso, mas o meu caso foi diferente. Eu tinha estrutura familiar e um pequeno patrimônio. Conversei com Jóbson umas quatro vezes. Disse que a cocaína era uma droga maldita, que a pessoa custa a sair dessa. Porém, por mais conselho que o dependente receba, o esforço de largar tem de ser dele – disse Caju.

As primeiras declarações do atual técnico do Botafogo, René Simões, após o anúncio da punição, irritaram o ex-jogador. Para Caju, dizer que a suspensão é o mesmo do que uma pena de morte é lavar as mãos para o caso:

– Ah, pô, vai cagar. Isso é oportunismo. Jóbson tem apenas 27 anos. É um jovem. É muito fácil jogar teses mirabolantes no ar. Quero ver quem se dispõe a dar as mãos ao Jóbson num momento tão difícil. Eu topo.

Um dos dirigentes que mais investiram na recuperação de Jóbson demonstra agora estar vencido pela descrença. O ex-presidente do Botafogo Mauricio Assumpção, que estava a frente do clube na estreia do jogador em 2009, não vê muita esperança para o craque agora. Pare ele, mais do que cocaína, substância detectada em dois testes de antidoping feitos no atacante naquele ano, o problema é a dependência de álcool. Na época, um dirigente do clube, após visitar o craque em casa, reportou ao presidente ter visto garrafas vazias de cerveja e vodca.

Mauricio se recorda de uma conversa franca que teve com Jóbson, quando ainda acreditava em sua recuperação. Em General Severiano, em Botafogo, o dirigente foi direto:

– Quando eu disse que o problema dele era o álcool, senti que as veias do pescoço de Jóbson começaram a inchar. Então, perguntei se ele ia me bater. Mas ele acabou recuando. Porém, saiu da conversa sem admitir a dependência. Desde então, nunca mais tocamos no assunto. Nada mais fiz.

Especialista em psiquiatria pela Associação Médica Brasileira, Jiosef Fainberg acompanha o caso. Ele adverte que Jóbson deve ser tratado como doente, não como “um malandro, vagabundo”, como, para ele, sugere a punição:

– É fácil definir assim um menino pobre, negro, que anda com um cordão de ouro. Mas o vício não é causa. É consequência. Quem mais sofre é o próprio dependente. Portanto, o que Jóbson precisa é de tratamento. Ele pode ser curado, voltar a jogar. Seria altamente condenável se uma empresa resolvesse descartar um funcionário seu que adoece. Mas é exatamente o que a Fifa está fazendo.

Desde que foi afastado dos gramados, Jóbson se mantém recluso, em casa, na companhia da mãe, Lourdes, de um primo e de dois amigos de sua cidade natal. Seus advogados ingressaram com recurso na Fifa para suspender a punição.

Fonte: O Globo Online