Quando recebeu O GLOBO na sala da presidência do Botafogo, em General Severiano, o atual vice-presidente e candidato ao cargo principal, Nelson Mufarrej, tomou cuidado ao demonstrar que sabe o cargo que ocupa atualmente.

— Não vamos sentar na cadeira, que é do presidente — afirmou, antes da chegada de Carlos Eduardo Pereira, atual presidente e candidato a vice.

Foi uma forma de mostrar deferência e evitar o “já ganhou”: por fazer parte de uma administração elogiada dentro e fora do clube, a chapa Mufarrej/Pereira é favorita para a eleição de 25 de novembro.

— Fernando Henrique Cardoso já fez isso e deu muito errado — brincou Nelson, referindo-se à eleição de 1985 para a prefeitura de São Paulo, em que FH, futuro presidente da República, posou para fotos na cadeira do prefeito e perdeu para Jânio Quadros.

As propostas da situação podem ser resumidas em “continuar o que está sendo feito”.

— Fizemos um grande trabalho nesta última administração, de recuperar o clube, e esperamos dar continuidade. Vamos abrir duas novas diretorias de Comunicação para aliviar um pouco o Márcio Padilha (atual vice social e de comunicação), mas fora isso, toda a diretoria vai permanecer, assim como a comissão técnica e a maior parte do elenco. A prioridade é seguir no caminho.

Os projetos da diretoria, em especial o Centro de Treinamento, também continuam em andamento. No entanto, dizem os atuais presidente e vice, a fase de análise dos documentos para o CT não terminou. Só depois é que vai começar a ser negociado o preço do local com os proprietários.

— Isso está sendo feito pelos irmãos Moreira Salles. Mas eu estou muito tranquilo porque nós temos o prazo até março de 2018 para concluir esse processo. E temos outros terrenos em mente também, caso esse não dê certo — disse Pereira.

Ano desafiador pela frente

Mufarrej toma cuidado para dizer que, apesar dos avanços, o clube ainda não está totalmente recuperado, embora tenha saído da situação extremamente precária.

— Não será fácil. É preciso tomar cuidado com quem faz muitas promessas. Temos que manter os pés no chão.

Talvez a maior dificuldade desta diretoria tenha sido conseguir novas fontes de renda nos últimos três anos. A exceção foi o patrocínio da Caixa, que vai até o final desta temporada e deve ser renovado. No entanto, será necessário mais, porque o ano de 2018 será financeiramente desafiador: as parcelas do Ato Trabalhista vão aumentar e os descontos do ProFut diminuem.

— Temos o contrato com a Caixa, que esperamos renovar, e outras negociações que não podemos revelar. Complicou o fato de nós termos passado um tempo sem CND (Certidão Negativa de Débitos).

Ex-dirigentes do clube estimaram o aumento do déficit em R$ 60 milhões no próximo ano, número que Mufarrej contesta. As estimativas do candidato também devem ser levadas em conta: ele foi perito judicial durante anos nas áreas trabalhistas.

— Quando estávamos negociando para entrar no Ato, as contas eram feitas na calculadora do Nelson — diz Pereira.

O histórico de Mufarrej mostra experiências, além da área jurídica, no serviço público e no comércio internacional.

Em 2006, ele recebeu a Medalha Tiradentes, mais alta condecoração da Assembleia Legislativa do Estado. Alguns anos antes, em 1984, Mufarrej foi um dos criadores da Associação dos Servidores do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (Astcerj), que serve para dar benefícios sociais e médicos aos servidores ativos e inativos do Tribunal.

Ele é o atual presidente da Câmara de Comércio Exterior do Líbano. A origem do Oriente Médio já se vê no nome, assim como a história de Mufarrej no Botafogo. Seu avô era fanático pelo time e seu pai foi vice-presidente de finanças.

Ele já havia sido conselheiro, mas entrou com mais força no clube em 2008, como presidente do Conselho Fiscal durante a gestão de Maurício Assumpção, até sair por divergências com o então presidente. Mufarrej ocupou a função como integrante do grupo “Botafogo acima de tudo”. Foi por ser desse grupo que ele entrou na chapa de Carlos Eduardo Pereira em 2014. O presidente deixou claro que, se vencer, será Mufarrej quem vai mandar. Perguntado se herdaria a sala da presidência, o atual vice respondeu que sim.

— E a cadeira também — completou Pereira.

Fonte: O Globo Online