Foi assim, digamos, coisa de cinema. Boné na cabeça, apito na boca, tablet na mão, juvenis do Boavista. Técnico: Clarence Seedorf. Recém-aposentado da carreira de jogador e iniciante como técnico, o holandês deu alguns de seus primeiros passos no Estádio Eustáquio Marques, em Curicica, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

O local foi cenário de gravação das cenas de futebol da novela Avenida Brasil, que fez sucesso em 2012 na televisão brasileira e tinha o Divino F.C. como destaque. Pois foi ali, no campo em que Tufão, personagem interpretado por Murilo Benício, brilhou onde Seedorf deu demonstrações de como será o seu estilo como treinador no Milan.

Nova Iguaçu/Divulgação

Seedorf comanda um treino com os jogadores do Nova Iguaçu
Seedorf comanda um treino com os jogadores do Nova Iguaçu

Nada de moleza para os garotos. Ao comandar um coletivo, o então camisa 10 do Botafogo orientava, parava jogadores, ensinava e cobrava posicionamento. Em seguida, pedia repetição. Depois, com a jogada feita, escancarava o sorriso ao qual o torcedor alvinegro se acostumou nos últimos 18 meses. E mostrou seu lado psicólogo e fez questão de demonstrar que se importava, de fato, com o que fazia ali. Se todos sabiam o nome do técnico, a recíproca era verdadeira.

“É o lado do Seedorf psicólogo, amigo, que sabia o nome de todos os jogadores do nome do Boavista. Ele cobrava durante os trabalhos, parava, corrigia. Mas dava um abraço, um afago durante o treino. Dizia onde melhorou, gritava ‘Agora sim!’. Foi muito gratificante tê-lo por aqui neste período”, disse o diretor de futebol do Boavista, Thiago Alves, que acompanhou alguns treinos do holandês.

Não havia data marcada com enorme antecedência. Entre um treino e jogo do Botafogo, o agora ex-meia ligava para o Boavista e manifestava a intenção de continuar seu aprendizado como técnico. À distância, ele mantinha um curso ministrado pela academia da Federação Holandesa de futebol, que avalizou o local para que Seedorf desse os primeiros passos na futura profissão.

Embora não fosse o local destinado às categorias de base e, sim, aos profissionais do Boavista, o Estádio Eustáquio Marques agradou pela privacidade proporcionada ao holandês. Aos poucos, Seedorf mostrou preocupação com a vida pessoal dos garotos, em geral com menos de 17 anos.

“O jeito com que ele tratava os jogadores chamava atenção. Perguntava como estava em casa, se estava tudo bem. Não chegava ali, só dava o treinamento, virava as coisas e ia embora, não”, afirmou Thiago Alves.

A intenção de comandar treinamentos na base foi realizada, também, no Nova Iguaçu e em

Satiro Sodré/SS Press

Seedorf conversa com jogadores do Botafogo em sua despedida
Seedorf conversa com jogadores do Botafogo no adeus

um momento após palestra com jogadores das categorias inferiores do próprio Botafogo. O envolvimento com a profissão foi tamanho que fez com que o jogador invadisse até mesmo um território, digamos, inimigo. Em agosto de 2013, ele esteve na Gávea e acompanhou a derrota dos garotos do Boavista por 4 a 1 para o Flamengo, pelo Campeonato Carioca da categoria juvenil. Esteve no vestiário, deu instruções e concedeu elogios apesar da derrota.

Nesta terça-feira, ao chegar em Saquarema para se despedir do elenco do Botafogo, Seedorf encontrou também alguns membros do Boavista, que realiza pré-temporada no mesmo local. Entre eles, Luan, jovem meia que dirigiu nos juvenis do clube. Feliz, Seedorf sorriu antes da partir para o Milan. Escolado no Brasil, o meia segue para domar jogadores do nível de Kaká, Robinho e Balotelli com o aprendizado dos meninos do Boavista.

Fonte: ESPN.com.br