A CBF irá estabelecer um padrão nacional inédito para o registro e licenciamento de clubes este ano. A medida propõe novos parâmetros para a qualificação técnica de instituições amadoras e profissionais, e a adequação às exigências será condição para a disputa de competições da entidade, como as Séries A, B e C e a Copa do Brasil. O prazo de adaptação será de até 24 meses, a começar pelos 40 times da primeira e da segunda divisões.

Atualmente, existem registrados na CBF 870 clubes profissionais e 450 amadores, mas a estimativa da entidade é que haja no Brasil mais de sete mil fora dos registros. Cerca de 100 participam de competições oficiais. E a partir da data de publicação do novo Regulamento de Registro de Clubes, antes do Campeonato Brasileiro, a após a aprovação pelo comitê de reformas da CBF, a elite fará valer esse nome, porque será mais difícil para um clube conquistar ou manter em registro sua condição de profissional. Já o licenciamento é procedimento criado pela Fifa.

— Se o número de clubes vai diminuir ou não, depende deles. Não queremos eliminar nenhum. Mas para um clube ser profissional, ou continuar sendo, terá que se adequar às exigências, simples assim. Mas vamos dar um tempo de até dois anos para a adaptação — disse Reynaldo Buzzoni, diretor de registro e transferências da CBF.

O padrão para um clube poder disputar as séries A (Botafogo, Flamengo e Fluminense), B (Vasco) e C (Macaé) do Brasileiro, segundo Buzzoni, é alto diante da crise econômica. Ao se candidatar para obter o licenciamento, um clube, acima de tudo, terá que provar a sua liquidez financeira. As demais exigências serão estruturais.

— Na questão financeira, é preciso que o clube comprove, através de balanços auditados por empresas independentes, que poderá bancar o craque contratado a peso de ouro, arcar com técnico de ponta e pagar os salários em dia com o orçamento previsto para o futebol — relatou Buzzoni, que elencou as exigências estruturais necessárias para um clube virar ou se manter profissional em registro. — Participar de competições das categorias de base desde a sub-15, contar, indiscutivelmente, com centro de treinamento equipado com departamentos jurídico, médico, de fisiologia, além de estrutura para alimentação e repouso dos jogadores, bom campo de treino, vestiários adequados e estádio em condições de receber torcida com segurança e conforto.

Devido às exigências, sobretudo no aspecto financeiro e de treinos e jogos, o prazo dado para a adaptação será de dois anos. Dos quatro times do Rio, há conhecidos problemas para estruturar ou construir centros de treinamento.

Do rural ao moderno

O Macaé, que caiu em 2015 da Série B para a C, enfrentaria obstáculos. O time treina em uma área rural chamada de Fazendinha. O trabalho acontece em um campo sem a estrutura a ser exigida pela CBF. Aos poucos, o clube tenta se adequar, mas o vice-presidente jurídico, Walter Bittencourt, admite que terá dificuldades, o que não impede que ele manifeste apoio à medida da entidade.

— Estamos quase nos adequando. Este ano, fizemos algumas reformas, como a inclusão de um vestiário para a comissão técnica, melhorias no campo e a construção de um novo banco de reservas. A CBF não está errada, porque temos que evoluir. Com os clubes mais estruturados, os campeonatos só têm a ganhar — declarou Bittencourt.

A questão do estádio, ou da falta dele, também preocupa, mas a CBF não exigirá que os clubes construam um, apenas que indiquem e façam contratos nos moldes dos já existentes com Maracanã e Engenhão. Apenas o Vasco tem estádio próprio no Rio. Fla, Flu e Botafogo têm contrato vigente com Maracanã e Engenhão, ambos fechados para partidas oficiais até depois das Olimpíadas. Teriam que indicar estádios alternativos à CBF.

— Não é obrigado a ter um, mas o clube tem que mandar seus jogos em estádio dentro dos padrões, com contratos em vigência. Ou indicar um estádio antes de o campeonato começar — disse Buzzoni.

Ao estabelecer nitidamente a divisão entre profissional e amador (classificação dada aos que não tiverem condições de cumprir as maiores exigências), um clube tradicional como o São Cristóvão, por exemplo, sem disputar competições da CBF, teria que se adequar para jogar, caso viesse a se classificar para Série D. Ou tem a opção de virar clube amador.

— Tem que se adaptar. Vão dizer que o São Cristóvão funciona assim há décadas. Tudo bem, mas então é melhor ser um clube amador, com padrão menor de exigências. Se quiser ser profissional e jogar competições da CBF, tem que cumprir o que for estabelecido — explicou Buzzoni.

Sem ponte na transferência

Estabelecido como amador e registrado assim na CBF, um clube pode disputar ligas e revelar jogadores. A entidade pretende dificultar as “transferências-ponte”, na qual um jogador é vendido e, muitas vezes, um clube ganha uma parte do valor sem que o atleta tenha sequer vestido a sua camisa.

— Se um clube chega à CBF e diz que pretende ser apenas amador, formador, tudo bem. Será registrado se cumprir o mínimo. Se, lá na frente, um jogador que saiu de lá for vendido, teremos o registro, conseguiremos provar. Queremos é que a vida do jogador esteja toda aqui em nosso banco de dados. Nem que ele jogue em uma liga amadora. É o que a gente vai fazer. Quando alguém for vendido, queremos impedir que apareça um clube sem registro reivindicando ser formador, como acontece com recorrência — declarou Buzzoni.

Fonte: O Globo Online