O jogo contra o Atlético-MG – neste sábado, às 19h (de Brasília), no Independência, em Belo Horizonte, pela última rodada do Brasileirão -, talvez não desperte a devida atenção de um número significativo de botafoguenses, afinal, o time está garantido na próxima Copa Sul-Americana, não corre risco de rebaixamento, não alcançará a Libertadores e o horário não ajuda. No entanto, para um torcedor alvinegro a partida tem a mesma importância de uma final de campeonato. O jornalista Pedro Henrique Fonseca, de 35 anos, encerra a temporada de viagens, marcando presença em todos os jogos do Glorioso neste ano, seja no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar. Ao todo, foram 14 cidades (algumas repetidas, como Porto Alegre, São Paulo, Salvador e a própria capital mineira) e dois países estrangeiros (Chile e Paraguai). Não precisa dizer que o retrospecto do ano, carregado na bagagem, é o mesmo do clube de coração: 61 confrontos, 24 vitórias, 17 empates e 20 derrotas.

O projeto teve o pontapé inicial em julho de 2017, com a classificação do Botafogo para as quartas de final da Libertadores. Pedro foi a Montevidéu e filmou como foram os dias dos alvinegros no Uruguai, desde a chegada ao apito final da vitória sobre o Nacional por 1 a 0, passando, claro, pela vibração com o gol do meia João Paulo, no primeiro tempo da partida de ida daquela fase. Nascia ali o Setor Visitante, canal no YouTube que registra as loucuras feitas pelo clube da Estrela Solitária. De lá para cá, o costume permaneceu inalterado, independentemente do local onde o Botafogo entrará em campo.

– Sempre fui a todos os jogos no Rio de Janeiro. É muito raro perder um jogo aqui. Quando o Setor Visitante explodiu com 15 mil visualizações naquele jogo contra o Nacional, percebi que o botafoguense queria saber como é a experiência de ir a uma partida fora de casa. Pensei no projeto e me programei. Sorte que não jogamos em países de difícil acesso e a tabela ajudou. Imagina enfrentar um time do Equador na quarta-feira e um rival de Porto Alegre no fim de semana. Para ir a todos os jogos é preciso também um pouco de sorte – lembra o andarilho alvinegro, em entrevista exclusiva para o LANCE!.

Folga em 2019? Pedro já mira nova façanha

Pedro não tem a mesma certeza se conseguirá realizar, rigorosamente, a mesma façanha de 2018 no próximo ano. O torcedor alvinegro reconhece que corpo e mente pedem um descanso diante da rotina de aeroportos, embarques, desembarques, rodoviárias, estradas, hotéis e estádios.

– Entendo aquele jogador que chega em casa e não aguenta mais ver futebol. Todo mundo precisa de uma folga. Os massagistas, os seguranças, os roupeiros, os assessores de imprensa, todos revezam nas viagens. Nem o presidente vai a todos os jogos fora de casa. Para 2019, o Setor Visitante continua. O que vier é lucro. Não vou esquentar se não ver um jogo ou outro. Por exemplo. Se o América-MG ficar na Série A, terei que ir a Belo Horizonte novamente. Como já fui três vezes neste ano, caso tenha algo programado, não vou deixar de fazer. Não garanto ir a todos os jogos. De repente, 90% está bom, não?

Em contrapartida, Pedro não deixa de se empolgar com a proximidade de mais uma conquista.

– Meu objetivo, agora, é completar 100 jogos consecutivos. Faltam 14 – estipula o torcedor, que banca as viagens do próprio bolso com a verba de trabalhos realizados em diários portugueses e assessorias de imprensa.

Viagens com pegada gastronômica

Fígado acebolado com jiló, Kaol (arroz, couve, linguiça, ovo, farofa, feijão e torresmo) ou frango ao molho pardo? Certamente, hoje, um dos três pratos será servido em algum local da capital mineira, no pré-jogo dos botafoguenses. Em todos os confrontos fora de casa, é comum ver Pedro Fonseca experimentando comidas regionais e analisando cardápios. A gastronomia, inclusive, está sempre em destaque no Setor Visitante.

Consegui juntar três coisas que eu gosto muito. Viagem, Botafogo e gastronomia. Dou mais ênfase à baixa gastronomia. Quanto mais velho o restaurante, melhor. Acredito que o turismo futebolístico é muito mal explorado no Brasil. O jogo é a cereja do bolo. A vitória não é a tendência fora de casa, então, a viagem não é só o aspecto esportivo. Conhecer lugares onde comer também faz parte do pacote. E BH, nesse sentido, é imbatível.

BATE-BOLA
PEDRO FONSECA EM ENTREVISTA AO LANCE!

‘A torcida do Botafogo é grande e cheia de malucos iguais a mim’

O que moveu essa loucura?

Considero o que fiz um feito. Mas não sou mais botafoguense do que ninguém. Faço isso porque gosto de estar com o Botafogo e não quero deixá-lo sozinho. Há dois jogos da Copa São Paulo de Futebol Júnior que não conto na lista. Em um deles, em Capivari (SP), contra o Capivariano, fui pensando que não teria ninguém, igual a cinema em uma segunda-feira. Chegando lá tinha uns 10, 15 botafoguenses. Nossa torcida é grande e cheia de malucos iguais a mim. Só não fazem essa loucura porque não têm condições. Gosto de ir a jogos de pouco apelo. Esses eu não perco de jeito nenhum.

Qual a cidade mais marcante?

Os melhores jogos são no Nordeste, especialmente, contra o Bahia. Salvador e o Rio são cidades irmãs. Gosto do clima, do povo e da forma com a qual as pessoas encaram a vida. Além disso, dos estádios novos para a Copa, considero a Fonte Nova o mais bonito e o melhor localizado. Fortaleza, contra o Ceará, foi incrível. Em termos de noite, não fica devendo às festas cariocas. E Chapecó. Nunca vi uma população tão educada e nunca fui tão bem recebido. Você pergunta onde fica o banco, e a pessoa te leva ao banco. Dá vontade de abraçar todo mundo naquela cidade. É a maior concentração de pessoas fofas do país.

E como fica a vida social, compromissos, família, amigos, relacionamentos…

Sou o tipo da pessoa que marca três coisas em uma noite e consegue ir nas três. Mas tem pessoas que não aceitam. Minha mãe já está acostumada. Quando tem algum aniversário ou data especial coincidindo com algum jogo do Botafogo, antecipamos a comemoração ou celebramos na segunda-feira. Para namorada, é mais complicado. Ainda mais com uma pessoa que não tinha combinado. Não direi que foi a causa, mas o Setor Visitante influenciou bastante o último relacionamento. Comecei a viajar de 15 em 15 dias e no outro fim de semana estava no jogo do Botafogo, no Rio. Por outro lado, conheci pessoas com as quais mantenho uma amizade até hoje. É um perde e ganha.

Entre os perrengues, quais se destacam?

Na Sul-Americana, no jogo contra o Nacional (PAR), Fomos de carro para o Paraguai e, mesmo com placa paraguaia, fomos parado duas ou três vezes até chegar a Assunção. Gastamos uns 800 reais em propinas para os policiais rodoviários, mesmo com todos os documentos do automóvel em dia e com o farol aceso. Na Arena da Baixada, a torcida visitante é proibida. Os torcedores vão à paisana. Éramos 20, com torcedores do Atlético-PR o tempo nos xingando, no cangote. Percebiam que aquele grupo descaracterizado era de torcedores do Botafogo.

No começo do ano, o Setor Visitante fechou uma parceria com a Botafogo TV (emissora oficial do clube). Por que o casamento não durou nem um ano?

O Setor Visitante estava muito bem de maneira independente. Encerramos 2017 com 50 mil visualizações no último jogo, contra o Palmeiras, no Allianz Parque. O canal crescia, e o Botafogo nos chamou para uma parceria. Foram claros. Não ajudariam financeiramente. A parceria deu certo durante algum tempo, mas perdi a liberdade, tive que alterar a forma como abordava os outros times. Ficou uma coisa muito engessada, chapa branca. a parceria estava me aprisionando. Não postamos em alguns jogos, sobretudo após as derrotas. Naquela eliminação para a Aparecidense (GO), pela Copa do Brasil, me avisaram “nem perde o seu tempo para editar, porque não vai para o ar”. E o cara que foi filmado e quer aparecer na TV? É chato explicar que não posso publicar um vídeo porque o Botafogo levou um sacode. E o dinheiro que sai do nosso bolso para bancar essa aventura? Faz até mal para a minha imagem. Se fosse um funcionário do clube óbvio que não criticaria. Não tenho nada a reclamar da diretoria. Foram muito corretos. Mas não posso mentir para o meu público.

Qual a finalidade do setor visitante e como deixá-lo mais sustentável?

Não sou o protagonista. Tento dar voz ao torcedor anônimo do Botafogo que mora fora do Rio de Janeiro e não tem tanta chance de ver o time em campo. Sou um torcedor que não perdeu o lado jornalístico e um jornalista que conserva o lado torcedor. Meu trabalho tem que ser independente e andar com as próprias pernas. Já consegui um sócio e tenho uma equipe de criação, no entanto, ninguém tem a minha disponibilidade de viajar e estar em todos os jogos. Essas loucuras têm um custo. Uma hora o dinheiro vai acabar. Temos que buscar novas parcerias e vender produtos, como camisas, por exemplo. Nenhum de nós é milionário para ficar comprando passagens para o Brasil e América do Sul toda hora. Não dá para gastar e não ter retorno.

Como botafoguense, o que pensa sobre 2018?

Ser campeão é sempre bom. Disputamos contra os grandes do Rio, e quem levantou a taça foi o nosso capitão Carli, em um gol que nunca mais será esquecido. Nossa direção cometeu erros grotescos de planejamento. Felipe Tigrão. Dava para ver que não daria certo no primeiro jogo. Na Copa do Brasil, isso custou milhões porque fomos eliminados para um time da Série D. Tínhamos a obrigação de ir, no mínimo, às oitavas. Cheguei a fazer a conta de quanto deixamos de arrecadar. O segundo erro foi o Marcos Paquetá. Uma falha pior do que a do Tigrão e completamente sem explicação. Como trazer um treinador que não trabalhava no Brasil há mais de dez anos por uma economia porca? Depois, tiveram que gastar dinheiro para trazer o Zé Ricardo. Corremos um risco desnecessário. Graças a Deus e à torcida, conseguimos a permanência na Série A. Como botafoguense, quero voos mais altos. Sei que o Brasileiro é complicado de competir. Mas não era para jogar com o time reserva contra o Bahia, pela Sul-Americana, com o quarto goleiro marcando o gol que classificou o nosso adversário. Poderíamos ter chegado à semifinal.

Fonte: Terra