Logo depois de reduzir a folha salarial dos profissionais do Corinthians com a saída de Fábio Carille e vários outros nomes experientes, o movimento do presidente Andrés Sanchez foi promover Osmar Loss e seu auxiliar, Dyego Coelho. Na outra ponta desse quebra-cabeça, a avaliação foi de que o investimento em um profissional de respeito para a categoria sub-20 era uma necessidade. Foi assim que, em maio, Eduardo Barroca chegou ao clube.

Inicialmente, ele foi reticente à ideia de deixar o Botafogo após mais de dois anos de um trabalho reconhecido por títulos, como o Brasileiro Sub-20, e revelações como Igor Rabello, Emerson Santos e Matheus Fernandes. Candidato a repetir a trajetória de destaque de Jair Ventura, e de nem tanto destaque de Felipe “Tigrão”, Barroca tinha a projeção de assumir os profissionais do clube em momento oportuno. Até se sentar com a direção do Corinthians e ouvir uma proposta tentadora.

Nesta entrevista exclusiva ao UOL Esporte, concedida no Parque São Jorge, Barroca conta os fatores que o fizeram ser seduzido a voltar ao clube onde teve uma passagem breve em 2010. Um deles, claro, é a possibilidade de repetir a trajetória de Fábio Carille, Osmar Loss e Coelho, que ascenderam na comissão profissional. Outro, é a chance de implementar um estilo de jogo mais protagonista, com todos os atletas envolvidos na construção ofensiva e que mostrou resultados com um orçamento muito menor no Botafogo.

Confira a entrevista com Eduardo Barroca na íntegra:

Saída do Botafogo
Realmente não foi fácil. Naquele momento, eu não tinha motivo para deixar o Botafogo. Eu me sentia muito bem, com um trabalho sedimentado, respeito da direção, sinergia com comissão montada por mim e principalmente com os jogadores após dois anos e pouco. Fui pego de surpresa com um convite da direção do Corinthians, que me chamou para uma conversa e o que me foi apresentado de ideia, como o clube pensava futebol, entendi que profissionalmente seria oportunidade de agregar outros valores à minha vida profissional e resolvi aceitar o desafio.

Dúvida foi grande em aceitar
Foi difícil tomar a decisão, principalmente porque criei um vínculo com o Botafogo e que não vai se apagar, porque gerou uma conquista nacional. Em dois anos e três meses, ganhamos a Taça Guanabara, a Taça Rio, o Carioca, a OPG [torneio estadual], fomos à final da Copa RS [nacional], o Brasileiro que é a conquista mais importante da base. Tem todo o lado familiar, sou do Rio, minha família é do Rio. Meu filho havia nascido há 10 dias quando recebi o convite do Corinthians, então foi difícil, mas eu fiz uma leitura que seria importante viver essa experiência.

Ideia do Corinthians chamou atenção
Primeiro que, coincidentemente, enfrentei o Corinthians diversas vezes pelo Botafogo. Então eu já tinha um acompanhamento de jogar contra, de uma ideia do Osmar, que passou pelo Coelho. Quando sentei para conversar…a concretização do centro de treinamento, as condições de trabalho que se dão hoje, a autonomia para desenvolver tecnicamente o trabalho, então tudo isso me fez entender que seria importante profissionalmente.

A base em SP é mais forte
Pesou muito a favor também que São Paulo tem equipes mais fortes no interior, um Desportivo Brasil, Red Bull, Ponte e Guarani, Portuguesa, equipes além das quatro principais que são competitivas e entendi que seria importante para meu desenvolvimento enfrentar equipes com boas condições. Meu processo no sub-20 do Botafogo já havia alcançado o que eu poderia dar de retorno ao clube. Estar em São Paulo me tirava do conforto para conhecer mais jogadores, outras formas de jogar, outras estruturas. Sair do conforto me atraiu.

Teria assumido a vaga de Alberto Valentim?
O Botafogo tinha um projeto esportivo para mim. Quando fui comunicar minha saída ao Anderson Barros e ao Manoel Renha, as pessoas às quais me reportava, eles deixaram claro o projeto de sequência do Botafogo para mim. Eu precisava virar a chave, ir para outro desafio. Importante deixar claro que o Botafogo foi importante ao meu desenvolvimento, é um carinho que passou do profissional. O clube foi extremamente correto em todos sentidos desde o compromisso à autonomia de trabalho, foi agradável trabalhar lá.

Plano para o começo de trabalho no novo clube
Me dei dois meses para gerar um diagnóstico. Para ter uma rotina de trabalho, a identificação da forma de jogar, o conhecimento dos jogadores, formatar uma dinâmica de trabalho pela quantidade de jogadores, como queria cada um nas posições. É fundamental deixar claro que um dos pontos dos dois meses era dar sequência ao que vinha sendo feito, até porque o Corinthians tinha acabado de chegar a uma final nacional tirando o Botafogo, treinado por mim. Então, minha lógica foi entender como tudo funcionava.

Estilo de jogo diferente ao dos últimos anos na base corintiana
Não cheguei com ideia de mudar nada radicalmente. Encontrei uma equipe com disciplina de trabalho, de jovens com bons hábitos. Na parte defensiva, talvez nunca tenha trabalhado numa equipe tão bem organizada com idade tão baixa. Jogadores com consciência, com níveis de compactação, entendimento posicional e zonal defensivamente, o que chamou atenção. Nesse segundo momento, após esses dois meses, vou colocar em prática o equilbrío disso. Um treinador nunca pode ser chancelado por uma coisa só.

O Corinthians vai passar por mudanças nos juniores
Eu gosto que minha equipe – e o Corinthians pelos jogadores e história que tem, pode fazer – jogue como protagonista sempre. Bate com a ideia que o clube tem. Formar jogador para clube grande é formar jogador para ser protagonista. Formar atacantes para, ao invés de marcar na maior parte do tempo, eles estarem próximos ao gol adversário, que minha equipe crie muita situação de gol, tenha jogadores bons na bola parada, que batam bem na bola, zagueiros que construam mais o jogo. É uma teoria de futebol que tenho, gosto e acho que é factível realizar aqui.

Formar com essa premissa prepara melhor o jogador
É muito mais fácil o jogador no profissional se adaptar a um jogo reativo tendo sido formado protagonista. Sempre digo que marcar é mais difícil que criar. É formar o jogador para jogar. Gosto de usar o termo: formo jogador para atacar espaço pequeno e defender espaço grande. É mais complexo o que pretendo fazer aqui e já peguei bem desenvolvido. Vamos colher frutos, vamos ter os artilheiros da competição, vamos ter os atacantes dando assistências, por mais que isso possa até gerar mais gols sofridos no primeiro momento até acharmos o equilíbrio.

A base corintiana tem contratado “sem parar”
Meu objetivo a médio e longo prazo é que a gente tivesse uma equipe sub-20 com 90% formada pelo sub-17, e um sub-17 95% pelo sub-15. Foi uma das coisas que a direção me apresentou, a ampliação de captadores nas idades menores. Aumentamos a agressividade dessa captação nas categorias menores. Entendemos que, quanto menos sazonal esse processo, melhor para enraizar característica de trabalho. O Botafogo não investia tanto em captação, então meu trabalho era 100% vindo do sub-17. Não é o cenário ideal [contratar muito], o clube também entende.

As contratações ajudam quem está na base
Precisamos jogar competições nacionais, ser competitivos, dar formação de qualidade a quem está dentro. Passamos de fase no Brasileiro sub-20. Qual o grande mérito? Jogar mais seis jogos de alto nível. Jogar seis vezes com o Inter, o Vitória e o Palmeiras. Isso é o que tem de melhor na formação, no processo final, que é dar esse nível de jogo inclusive aos que chegaram ao clube mais jovens.

Os criados em casa têm feito mais sucesso no profissional
Com certeza um clube como o Corinthians deveria ser o ideal ter o jogador formado aqui dentro. A identificação com o clube, o jogador sente menos as transições de categoria até chegar à sub-20, com forma de trabalhar unificada. No processo final, vai fazer sentido ele subir ao profissional dessa forma. Nessa primeira conversa com a direção, conversei sobre isso. Não sou de muitas trocas, gosto de definir com quem vou trabalhar e pontualmente fazer captação

NR.: Pedrinho, Léo Santos, Malcom, Maycon e Guilherme Arana, maiores revelações dos últimos anos, estão desde a pré-adolescência no clube.

O Corinthians descartou a contratação de Juninho por pressão popular
O caso Juninho eu acompanhei de longe, porque entrávamos em jogos decisivos do Brasileiro. O clube se posicionou, falou o que entendia. Como formador, educador e professor que sou, torço para que ele restabeleça a vida da melhor forma, que consiga ajustar o que não andou bem para trás e seguir a vida da melhor forma.

NR.: O clube acertou verbalmente com Juninho, do Sport, mas desistiu pela repercussão sobre supostas agressões dele a uma ex-namorada.

Fessin, meia ex-ABC, tem se destacado no sub-20
Fessin é um dos jogadores que mais me chamaram atenção nesses dois meses. Ele veio em uma condição de profissional, mas a postura dele é excelente. A performance é maravilhosa, tem cinco ou seis gols, um jogador de altíssimo índice de assistência. É difícil carimbar o jogador, mas me leva crer que ele é decisivo no terço final do campo, com zero de problema na parte física, que aguenta bom o jogo, bom cognitivo, enfrentamento…estou bastante satisfeito com o que ele tem feito e vem fazendo a diferença. No futuro próximo e momento adequado, ele vai ter espaço no profissional.

Matheus Matias não pode atuar na base?
Temos conversado diariamente, Loss e eu, sobre jogadores daqui [base] que podem servir lá [profissional]. Ele ainda está se desenvolvendo lá. Se acharmos que a descida dele fará bem ao profissional…no sub-20, já tivemos o Filipe [goleiro] que desceu para jogar contra o Palmeiras. Um dos meus objetivos é dar o melhor apoio possível ao profissional. Se entendermos em conjunto que será positivo descer, não tem problema nenhum.

Fabrício Oya, meia destaque dos juniores, se cobra demais
Fabrício é o tipo de jogador precoce. Ele é nascido em 99 e era titular da geração 96. Queimou muitas etapas. Logo que cheguei, a primeira coisa que conversei é que ele não tinha a obrigação de ser precoce. Ele não podia botar um tijolo a mais na mochila se obrigando, porque se cobra muito, tem um nível de exigência alto com ele mesmo. Estava na posição adequada para a idade dele. Com o nível de cobrança com ele mesmo, queimava etapas.

Oya combina com a ideia de Barroca
A forma que penso futebol vai ao encontro das características dele. Ele se relaciona muito bem com a bola. Lembra aquele meia tradicional, de bola parada, que “pifa” os atacantes [deixa na cara do gol]. Precisa desenvolver características dele para dar resposta no profissional, mas tem esse ano e o próximo todo para se desenvolver. O que penso para ele é que continue se desenvolvendo aqui, crescendo o jogo dele, não precisa queimar etapas como estava se cobrando. A dinâmica de jogo ele precisa desenvolver, principalmente em transições, em duelos individuais, e ele trabalha para se desenvolver.

O estágio de evolução de Vitinho
É um jogador que a gente conhece, acompanha. Quando eu cheguei, ele vinha de uma sequência de problemas musculares que criaram dificuldades para o desenvolvimento dele na categoria sub-20. Um garoto que sobe da 17 para 20, com o calendário nacional de hoje com jogos muito pesados, sente. Nas competições nacionais tem jogadores de 20 anos com experiência grande na categoria. Eu tinha jogadores com 200 jogos da categoria sub-20 no Botafogo. Um jogador de sub-17 enfrentar isso em nível nacional, ele sente.

Ainda há bastante tempo para ele
O Vitinho é um jogador de potencial bastante especial, de técnica individual e com capacidade de evolução. Não peguei o passado dele, não posso dizer. Mas ele tem um potencial bastante especial, uma técnica individual, velocidade, capacidade de definição. Ainda está em recuperação, agora vai ter uma sequência mais madura. É um jogador nascido em 2000, então tem esse ano, o ano que vem todo e outro para se desenvolver. Tenho preocupação com o processo precoce de transição, e sou entusiasta de aumentar a transição. Muitos jogadores com 17 e 18 não estão prontos. Perdemos valores e erramos mesmo se não tivermos cuidado e critérios.

Volante ex-Botafogo foi Indicado por Barroca para o sub-20
O Jordan é nascido em 1998. Quando cheguei ao Botafogo, ele já era titular da geração 96. É desses atletas com mais de 200 jogos no sub-20. Sempre jogou comigo. Quando vim, o contrato dele se encerrava no Botafogo e, por uma situação especial, o Botafogo não quis exercer a sequência. Como o Corinthians perdeu o Renan Areias, que foi [emprestado] ao Red Bull e era uma liderança técnica, de experiência e identificado, concluímos que precisávamos o mesmo perfil. Jordan se encaixou. Ele conhece minha forma de jogar e está sendo importante para os demais de ramificar o que penso, fazer os demais entenderem o que eu peço.

O camisa 5 técnico aparece pouco nos times adultos
Tem várias questões, mas a principal é a quantidade de trocas de treinadores no profissional. Quando o treinador vai pegar no meio, a tendência é que el evá pelo caminho mais conservador. Destruir primeiro e construir em segundo momento. Eu trabalhei muitos anos com base, depois muitos anos com profissional, e 2016 voltei para a base. O melhor jogador que vi na base é o Gustavo Bochecha, um volante [do Botafogo] que joga de 5, mas poderia botar a camisa 10 que caberia. Um cara canhoto, que a maior característica é construção, jogar pressionado, com entendimento de jogo curto. Sou encantado com ele, e tem essa característica e tem tido dificuldade em jogar no profissional. Os treinadores no meio do processo buscam resultados mais rápidos.

Integração com Osmar Loss
Somos amigos há muitos anos. Em 2003, jogamos uma Copa Macaé e fizemos uma amizade. Nos enfrentamos várias vezes, no Bahia e no Inter no profissional. Pessoalmente, minha relação é a melhor possível e profissionalmente também. Ele foi um dos entusiastas na minha vinda, quando trouxe o Coelho para trabalhar com ele. Temos conversado bastante esse processo dos jogadores sub-20, da transição. Tenho ido constantemente para fazer a quatro mãos sempre que preciso e entendo que a ideia dele possa fazer sentido, e ele vice-versa. Coelho e Fabinho foram meus jogadores, fui treinador dos dois no Bahia, e a gente tem cada vez mais estreitado relação. Só não está no nível que a gente gostaria porque o volume de jogos é muito alto.

A base vai ter seu CT em breve
Acho que primeiro [fator positivo] é ter uma casa, um lugar onde você saiba que é ali que você vai formar teu jogador, desenvolver. A proximidade com o profissional quando cair o muro e virar uma coisa só vai proporcionar uma integração maior e mexer com o sonho do jogador em estar mais próximo. É importante pra caramba. Mesmo sem o CT concluído, o Corinthians já oferta muito boas condições de trabalho. As pessoas no comando estão muito preocupadas com isso.

Fonte: UOL