Uma comparação entre os times de Botafogo e Flamengo, feita aqui mesmo antes da rodada de quarta-feira, pela Copa do Brasil, quis mostrar o antagonismo das filosofias de jogo de um e de outro. Outra comparação entre os dois times, feita hoje, logo depois da rodada, mostra que o Botafogo venceu de goleada. Venceu seu adversário, o Atlético Mineiro, por 3 a 0, e venceu o Flamengo, na comparação, por um placar maior ainda.

Nem tanto por causa da derrota e do placar de 4 a 2 que o Flamengo levou do Santos. Mas por causa da atuação caótica do time rubro-negro, em contraste com a regularidade,a firmeza e a segurança do time alvinegro.

O único fato em comum que aconteceu na mesma noite é que os dois estão classificadíssimos para as semifinais da Copa do Brasil — exatamente num duelo entre ambos. Por causa dessa agradável coincidência, poderemos fazer um novo juízo, no mês que vem, quando se enfrentarem em jogos de ida e volta. Uma comparação, frente a frente: Botafogo x Flamengo.

Quarta-feira, eles foram mais antagônicos do que nunca. Mesmo correndo um ou outro perigo — algo normal num jogo contra o Atlético Mineiro —, o Botafogo teve uma de suas melhores atuações nos últimos tempos, chegando ao extremo de variar os estilos. No primeiro tempo, fugindo um pouco ao normal, com um jogo mais incisivo, que liquidou o respeitável adversário, mesmo com mais posse de bola deste: 2 a 0, gols do zagueiro e artilheiro Carli, e de Roger, num presente do destacado João Paulo. Um placar que poderia ter sido até mais amplo, se Pimpão tivesse acertado ao menos uma jogada ou um passe. No segundo tempo, o Botafogo ficou mais próximo do seu estilo de defesa e contra-ataque (até por causa da vantagem), correu riscos, mas, assim mesmo, foi o mais efetivo na frente, com o gol final de Gílson. O time foi um primor de eficiência, com um elenco tecnicamente bem abaixo do elenco do Flamengo — ao menos no papel.

E o Flamengo, com o grupo de titulares e reservas bem superior teoricamente falando, foi um fiasco. Um fiasco resultante da sua notória e interminável irregularidade. O oposto do Botafogo. Pode ter até momentos de mais brilho, certamente por causa do nível técnico de seus jogadores; pode ter (e tem mesmo) lampejos de categoria; pode ter resultados mais atraentes… mas pode cair na desordem, na bagunça, como aconteceu contra o Santos, mesmo estando duas vezes em vantagem no marcador. Mesmo com 1 a 0 e depois com 2 a 1, o Flamengo virou um joguete nas mãos (e nos pés) do Santos.

Falta um padrão ao time, uma forma regular de se apresentar, de se mover e se organizar no campo. Ora é um Flamengo, ora é outro. Em geral, um time com ambição ofensiva, mas sem ter uma recomposição à altura quando é atacado. É assim com Zé Ricardo, há bastante tempo. O técnico também oscila no comando, ora com uma fase de jogos bem disputados, com organização, ora com decisões inexplicáveis nas escalações e nas substituições.

Zé Ricardo é, ele próprio, o símbolo da irregularidade do Flamengo. Há por todos os lados, inclusive na mídia, quem seja favorável à sua saída e há também quem repudie qualquer crítica ao treinador. No caso específico do jogo e da surra que levou do Santos, é inconcebível — num time de elenco geralmente elogiado — a escalação, acima de tudo e de todos, de Muralha e Rafael Vaz. Sem esquecer outros nomes como Márcio Araújo e até Gabriel, que irrompeu no campo, em meio ao jogo.

Dos quatro gols do Santos, dois nasceram em falhas de Muralha na saída em bolas altas, coisa que ele nunca soube fazer, e outro na tolice indescritível que Rafael Vaz cometeu na linha de fundo e que resultou em córner. Não são apenas organização e regularidade que faltam ao Flamengo. Falta ainda um time titular, que Zé Ricardo jamais encontrou.

Desvalorização do Brasileiro

Jair Ventura ressaltou o planejamento feito pela comissão técnica do Botafogo, que inclui a estratégia de poupar jogadores, como aconteceu na partida anterior, contra o Atlético Goianiense, pelo Campeonato Brasileiro. Em consequência, segundo ele, o time entrou mais “leve e descansado” contra o Atlético Mineiro. Faz sentido, sem esquecer porém que, no primeiro, o Botafogo perdeu dois pontinhos exatamente contra o lanterna do Brasileirão.

A estratégia de Jair é adotada não só por ele, mas por todos os técnicos da Primeira Divisão cujos times estão envolvidos também com Copa do Brasil ou Libertadores, por exemplo. Isso significa, infelizmente, a desvalorização do Campeonato Brasileiro, nossa competição mais importante. Jair, ele mesmo, considera uma pena abrir mão do Brasileiro, mas acrescenta que “ninguém joga com intensidade na segunda-feira, na quarta e no domingo”. O que é verdade. Ele quer dizer: o problema é esse calendário ensandecido.

Fonte: Coluna do Fernando Calazans - O Globo