Em longa entrevista, Oswaldo tenta explicar sucesso do Bota

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Campeão da Taça Guanabara e da Taça Rio, o que o levou ao título estadual sem precisar de uma final, líder do Brasileirão até o início da rodada que terminará neste domingo, quando enfrentará o Atlético-PR fora de casa, e em situação privilegiada na Copa do Brasil: eis o Botafogo dirigido por Oswaldo de Oliveira, técnico que consegue a proeza de manter sua equipe no topo mesmo com problemas crônicos de atraso de salários. Em entrevista exclusiva ao Estado, concedida na noite de sexta-feira, o treinador contou como essa façanha é possível, mas também falou sobre sua carreira e sobre seleção brasileira, entre outros assuntos.

 

ESTADO – Como conciliar salários atrasados com um rendimento que credencia o Botafogo a candidato ao título brasileiro?

OSWALDO – São inúmeros detalhes. Passa pelo nível dos profissionais da comissão técnica e dos jogadores. Há um encontro muito feliz no Botafogo entre pessoas e personalidades. Em conjunção, buscam o mesmo objetivo. Não há segredo. Para ser vencedora, uma equipe não depende de uma comissão técnica competente e de um time de qualidade. Precisa disso, claro, mas também de muita humildade, muita entrega, de se doar para que haja essa combinação e o vento sopre a favor.

 

ESTADO – Quando começou essa mudança?

OSWALDO – No ano passado, quando houve um processo seletivo de contratação de jogadores e outros profissionais. Fomos muito felizes com a permanência de alguns atletas, entre os quais Jefferson, Marcelo Mattos e Rafael Marques, e com a chegada de outros, como Bolívar e Julio Cesar, por exemplo.

 

ESTADO – É um momento novo para o Botafogo, com tantos jogadores formados em casa?

OSWALDO – É fruto de um investimento mais recente do clube. Quando cheguei ao Botafogo, em dezembro de 2011, depois de cinco anos no Japão, vi que havia um trabalho bem desenvolvido na base. Aos poucos, fomos incorporando ao grupo alguns desses valores e os resultados começam a surgir.

 

ESTADO – Vitinho parece cada vez mais à vontade no clube, com desenvoltura de um veterano…

OSWALDO – No ano passado, a gente percebia o potencial dele, mas era muito instável ainda. Não conseguia discernir o momento do chute, do drible, de buscar se posicionar bem. Ele foi aprendendo, aceitando as orientações e se desenvolvendo. Não é surpresa para nós que esteja causando tanto sucesso. Mas ainda está numa fase preliminar, eu diria. Não tem a mesma constância que Dória e Gabriel, outros criados na base do clube.

 

ESTADO – E qual o papel de Seedorf nessa transformação do Botafogo?

OSWALDO – Ele é diferente. Não estamos acostumados a ver nada parecido aqui no futebol brasileiro, não temos referência para lidar com esse perfil. Tem experiência de sobra, jogou por grandes equipes da Europa, conquistou títulos muito importantes, é um vencedor nato, altamente cuidadoso e atento. Ele se importa com tudo, procura auxiliar o tempo todo. Mas, acima de tudo, mantém uma disciplina, uma obediência, quase que militar.

 

 

 

 

 

ESTADO – Até que ponto há uma dependência de Seedorf no Botafogo?

OSWALDO – O jogo da última quinta-feira (vitória sobre o Atlético-MG) responde isso. Ele não atuou e o Botafogo fez uma grande partida. O time já teve outras ótimas atuações sem a presença dele. Claro que o Seedorf acrescenta. Aos 38 anos, com sua exuberância física, técnica e, sobretudo, tática, ele acaba tendo uma influência inquestionável na equipe. Sem deixar de lado que se trata de uma atração midiática. Mas temos no grupo o zagueiro Bolívar, com muita representatividade também. Temos o Jefferson, não menos influente, mas de outro modo, do jeito dele.

 

ESTADO – Você é um técnico vitorioso, tendo até sido campeão do mundo em 2000, pelo Corinthians. Desde então, o que mudou no seu modo de ver o futebol?

OSWALDO – Muita coisa, a gente aprende algo a cada dia. A minha experiência anterior como preparador físico foi fundamental para a minha vida como treinador. Passei a ser mais criterioso nos últimos anos. Cada vez mais transferindo o foco para as competições, para a temporada. Tive uma passagem muito boa no Japão, onde ganhei nove títulos em cinco anos.

 

ESTADO -Tem um salão de troféus em casa?

OSWALDO – Nem tantos troféus, mas muitas medalhas, fotografias de jornais, revistas e trouxe um arquivo vivo dos meus cinco anos de Japão: tenho os 250 jogos que comandei lá em DVDs.

 

ESTADO – Muito se diz que para ser campeão brasileiro não basta ter um time, é preciso de um elenco, de um grupo forte. Como o Botafogo se encaixara nessa lógica?

OSWALDO – Se você for fazer uma análise de momento, há hoje clubes como Internacional, Fluminense, Atlético-MG, Cruzeiro e Corinthians com grupos fortíssimos, de jogadores muito conhecidos. Mas, por outro lado, o trabalho desenvolvido no Botafogo nos permite achar um ponto de equilíbrio.

 

ESTADO – Com o campeonato próximo da metade, já dá para apontar os favoritos ao título?

OSWALDO – Esse Brasileiro não é um campeonato de time. É de elenco. É muito difícil sobreviver na competição, especialmente neste ano, com a Copa das Confederações, e também vai ser assim no ano que vem, com a Copa do Mundo, sem um grupo forte. Então, a gente por um lado tem os elencos formados, com firma reconhecida e patenteados. E do outro, no nosso caso, a expectativa de que mais garotos apareçam e outros em quem apostamos cresçam. Ainda há, na minha opinião, vários favoritos. Pode surgir um clube que venha atropelando todo mundo. Acho que pode acontecer com os outros três cariocas, com o próprio São Paulo ou o Atlético-MG, sem contar os que já estão ali no alto da tabela. Faltam 69 pontos ainda.

 

ESTADO – A ida de Neymar para o futebol espanhol sinaliza que o Brasil não tem condições de segurar seus craques?

OSWALDO – Ele é um caso extra. Daqui a dez anos, vamos considerá-lo um dos dez melhores jogadores de todos os tempos do Brasil, mas acho que o futebol brasileiro tem se esforçado para manter aqui os grandes nomes. Perdemos também o Paulinho (ex-Corinthians), mas não vejo a saída do Neymar como uma ruptura nesse processo, lento, de permanência de nossos craques no País.

 

ESTADO – A seleção brasileira é a grande favorita para a Copa do Mundo de 2014?

OSWALDO – Se me perguntasse antes da Copa das Confederações, eu diria que não. Mas, depois, a confiança cresceu absurdamente. Somos, sim, os favoritos. Aquele descrédito com o ranqueamento da Fifa abateu muita gente, mas aquilo é muito estranho. Uma coisa é o técnico reunir os jogadores por dois dias e enfrentar a Inglaterra. Agora, se há tempo, foi o que se viu na Copa das Confederações, quando não deixamos jogar o badaladíssimo time da Espanha.

 

ESTADO – Você seria candidato a técnico da seleção depois da Copa do Mundo?

OSWALDO – Existem muitos grandes treinadores no País. Vamos ver o que vai acontecer. Eu já fui cotado duas vezes. Sinceramente, isso é algo que não me seduz, embora ninguém possa negar que esse é um trabalho bem específico e de excelência.

 

ESTADO – Recentemente, sua esposa, a atriz Jeniffer Setti, usou as redes sociais para criticar o Botafogo. Ela falou sobre o atraso nos salários e a necessidade de reforços. A repercussão daquelas declarações teve algum efeito?

OSWALDO – É melhor esquecer isso, botar um peso em cima. Quando o Botafogo está bem, qualquer coisa ganha uma dimensão negativa incrível.

 

ESTADO – Mas o atraso nos salários afeta bastante o grupo, não é?

OSWALDO – Claro que afeta, afeta muito. Ninguém está satisfeito com isso, todos nós reclamamos. Estaríamos muito mais tranquilos se os salários estivessem em dia. Sei e vejo que existe um esforço dos dirigentes para tentar resolver a questão.



Fonte: Estadão
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