Enteado de Garrincha lança livro com casos inéditos

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No último dia 20 de janeiro, a morte de Garrincha completou 30 anos. Quatro meses depois, na noite desta terça-feira, um lado mais intimista, com histórias inéditas de Manuel Francisco dos Santos, chegou ao conhecimento de fãs do eterno camisa 7 do Botafogo. Gerson Soares, filho de Elza Soares e que conviveu com o mito dos oito aos 20 anos, lançou o livro “De Pernas para o ar – minhas memórias com Garrincha” (Oficina Raquel, R$ 29,90). Em 196 páginas, o enteado recorda casos, a problemática relação com o álcool e também passagens irreverentes que marcaram a vida de Mané, como o texto “E a governanta sumiu…”,  sobre suposta investida do ex-jogador diante de uma empregada, quando usou trocadilhos picantes com o nome da terra onde nasceu.

Entre saudosas e felizes lembranças, o autor e enteado não esquece a tristeza do massacre que sofreu quando a opinião pública apontou Elza Soares como culpada da separação do craque e sua família.

– No início do relacionamento com a Elza, sofremos uma perseguição muito perversa, de uma sociedade hipócrita que colocou como se Elza tivesse arrancado o Garrincha do seio de uma família. Sofremos muito. Não foi nada disso, Garrincha já estava fora de casa há muito tempo. Eu era criança, fiquei muito confuso nesse emaranhado de agressões. A imagem daquele cara que o mundo exaltava e ajoelhava aos pés sendo perseguido. Tivemos que mudar de casa. São imagens tristes. Mas depois, não. Veio um novo Garrincha, bem mais amável – recordou Gerson Soares.

Garrincha conheceu Elza no fim de 1961, quando ela estava no auge da sua carreira.

Entre as histórias do livro “De Pernas para o ar”, Gerson Soares exalta duas que mais lhe marcaram: O trem caipira e Os Caranguejos.

– A do trem foi muito emocionante. Centenas de pessoas do vagão de um trem que reconheceram Garrincha e acenavam como se fosse um Deus. Ele ficou emocionado, chorando, teve que parar para voltar a dirigir. A outra foi uma festa em casa. As pessoas não foram embora, eram nove dormindo num quarto. Garrincha ficou irritado, foi à feira comigo e comprou 24 caranguejos. Soltou no quarto e as pessoas saíam correndo, parecia a explosão de uma bomba (risos).

Os textos curtos e de fácil leitura trazem outros casos como “E a governanta sumiu…”, quando Garrincha, na ausência de Elza, paquerava uma das empregadas da casa fazendo trocadilhos com o nome da cidade onde nasceu: Pau Grande.

Ela deu bola para Mané, enquanto a outra criada, religiosa ao extremo, flagrou o ex-jogador de short e visivelmente excitado. Resultado: a primeira e mais assanhada foi demitida; a segunda simplesmente desapareceu.

A intenção de Gerson com o livro foi trazer à tona o lado desnudo de Mané:

– Muitos chamavam o Garrincha de matuto, de caipira que deu certo, e não é isso. Ele era genial, inteligentíssimo. Tive a idéia de escrever algumas histórias que mostravam o lado lúdico, brincalhão, divertido do Mané. João Saldanha falou uma frase lapidar: “Durante 500 anos vai se falar de Garrincha”. Tive ideia de pegar essas passagens, com gente em casa, do muro para dentro, Garrincha de calção, sem camisa, totalmente desnudo do uniforme. Não era o Garrincha, era o Manuel Francisco dos Santos. Passar esse lado mais intimista, uma relação de pai com filho.

“Lembro de um dia quando ao atravessarmos a Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, um fã ajoelhou-se aos seus pés e pediu para beijar sua mão como a um santo. Mané pediu que se levantasse.
– Sou apenas um jogador de futebol.
O homem emendou:
– Pra muita gente, você pode ser apenas um jogador de futebol; para mim, você é Deus. Porque aquele Deus lá do céu, que acredito existir e tenho por Ele fé, eu nunca vi, mas voce, Mané Garrincha, eu vi jogar.
Trecho de O Ídolo

O autor revela que os dois tinham relação de pai e filho. E, ao contrário da lenda de que Garrincha chamava seus marcadores de João – a história teria sido inventada por seu amigo, o jornalista Sandro Moreyra, em 1957 -, em casa era fato: todo mundo virava Juca.

– Éramos iguais: Mané era filho, irmão, pai, não havia ídolo. Ele rejeitava o rótulo de ídolo, mito, era totalmente igual, uma criança como nós. Ele se igualava em todos os sentidos, nas brincadeiras. Era sacaneado por ele, sempre muito astuto nas brincadeiras. Pescávamos, jogávamos pelada, discutíamos. Era o Manuel, que chamava a gente de Juca. Dentro de casa era Juca.

Gerson não acredita que o livro possa causar alguma reação contrária das sete filhas de Garrincha, que entraram na Justiça depois do lançamento de “Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha”, biografia escrita por Ruy Castro. À época, elas alegaram que a publicação não teve prévia autorização delas e sustentaram que o livro agredira a intimidade do jogador.

– Escrevi crônicas do meu relacionamento com ele. Não é biografia, são causos, histórias de um enteado com o pai. Não acredito que tenha problema – afirmou o autor.

O ex-goleiro Ubirajara, que marcou época defendendo Bangu, Botafogo e Flamengo nas décadas de 60 e 70, prestigiou o lançamento. Aos 76 anos, o ex-jogador não atuou ao lado de Garrincha, mas contra ele:

– Era difícil de pará-lo.

Um banner no bar do lançamento do livero faz referência a Garrincha (Foto: Janir Júnior)
Banner no bar do lançamento do livro  faz referência a Garrincha (Foto: Janir Jr)

O evento de lançamento do livro aconteceu no Bar Eva, no Grajaú, zona Norte do Rio, que traz em seu salão motivos futebolísticos de épocas gloriosas e românticas do futebol brasileiro. Enteado de Garrincha, Gerson Soares citou o fato de um bar ter sido escolhido para o local de lançamento:

– Ele estaria sentado numa mesinha dessas feliz da vida.

Para alertar sobre os riscos do consumo excessivo de álcool, foi estendido um cartaz no bar do lançamento do livro: “Beba com moderação para não ficar torto como os adversário de Mané”.

Na foto, um adversário torto, não pela bebida que tanto prejudicou Garrincha, mas pelas pernas tortas de Mané.

Fonte: Globoesporte.com

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