O silêncio do elenco alvinegro — que em protesto contra os salários atrasados parou de falar com a imprensa e participar de ações de marketing do clube há nove dias —faz eco com o da diretoria, que evita o assunto. A inerente crise financeira do clube ganhou nos últimos meses uma companheira: a crise política, que divide os dirigentes do clube. Juntas, são resumidas nas palavras do ex-presidente Carlos Augusto Montenegro:

— O pior mês para o Botafogo é sempre o seguinte.

A pressão imposta pela ausência de declarações é resultado de uma sequência de fatos que remonta a antigas gestões, quando ninguém do atual elenco estava em General Severiano. A dívida do clube — de mais de R$ 700 milhões — foi construída ao longo da história, mas, desde 2014, a falta de dinheiro cobra mais caro. Naquele ano, a gestão de Maurício Assumpção terminou com o clube rebaixado à Série B e com os cofres combalidos.

No ano seguinte, Carlos Eduardo Pereira, o CEP, assumiu a presidência. A temporada na segunda divisão foi de austeridade, mas um 2016 surpreendente remontou a erros do passado. Com o time classificado à Libertadores e munido de adiantamentos das cotas de televisão, o Botafogo gastou mais do que devia e contraiu novos velhos problemas.

Antigo vice de CEP, Nelson Mufarrej assumiu a presidência em 2018, e, ainda que fosse parte da gestão, encontrou uma situação pior do que esperava no clube.

O problema é que, em 2019, a conta, enfim, chegou. Sem novas receitas nem patrocínio master, e, por isso, sem dinheiro para custear o clube, a diretoria viu o alvinegro acumular situações vergonhosas. O corte de luz e apenas R$ 33,22 encontrados na conta corrente, segundo despacho do juiz Márcio Alexandre Pacheco da Silva, não surpreenderam tanta gente no clube como na torcida.

Em campo, a equipe acabou eliminada pelo Juventude na terceira fase da Copa do Brasil. O orçamento previa a chegada às oitavas da competição. Os atrasos que calaram o elenco vieram depois do bom início no Brasileiro, já com Eduardo Barroca no comando, em que a tabela, ao menos por enquanto, não reflete a crise.

Ausência de dirigentes

Antes aliados, CEP e Mufarrej não fazem mais parte do mesmo grupo político e outros vice-presidentes romperam com a gestão.

Gerente de futebol, Anderson Barros acumula funções. Fechado ao seu entorno, o elenco se incomoda com a ausência dos dirigentes. A decisão de parar de falar foi leve, já que o intuito era uma greve até de treinos, ainda não descartada em caso de falta de acordo.

Endividado e num silêncio ensurdecedor, o Botafogo trabalha para pagar ao menos um mês de salário na próxima semana e trazer um pouco de paz. E de barulho.

Fonte: O Globo Online