Esperança olímpica passou a correr por ‘culpa’ do Globo Esporte e sonha com Bota

Compartilhe:

O brasileiro Daniel Chaves participa neste domingo da sua primeira maratona. Serão 42,195 km a percorrer. Em Amsterdã, na Holanda, o fundista deixará de ser o coelho (corredor com a função de ditar o ritmo inicial da prova e depois recuar ou abandoná-la), como nos últimos dois anos, e passará a ser um competidor com objetivos bem maiores. Ex-corredor das provas de 5.000m e 10.000m, o fundista nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, mudou da pista para a rua. Mudou de rotina e de treinador, acreditando que, nessa distância, a chance de conseguir visibilidade, patrocinadores e estrutura de trabalho será maior. Tudo isso pela busca de seu grande sonho: uma medalha olímpica.

Inspirado pelo queniano Paul Tergat e suas subidas na Brigadeiro Luís Antônio durante as vitórias na São Silvestre, e nos brasileiros Vanderlei Cordeiro de Lima, Marílson dos Santos e Ronaldo da Costa, Daniel já ultrapassou muitos obstáculos na vida. Vindo de uma família humilde, o corredor não tinha condições de ir e voltar da escola de ônibus. Como a distância de 4km entre sua casa e o colégio não era considerada tão grande, ia andando e voltava correndo, assim que a campainha ao final do turno diurno tocasse. O motivo era bem simples. Viciado em esportes, Daniel queria estar sentado no sofá às 12h45m, horário em que o programa Globo Esporte, da TV Globo, entra no ar.

– Na minha infância, eu sempre fui bem atlético, e, naquela época, em Petrópolis, todos os estudantes tinham que pagar a condução. Como não tinha dinheiro, eu ia andando e voltava correndo, pois queria chegar logo para ver o Globo Esporte. E vinha forte. Gostava muito da Glenda (Kozlowski). Depois de um tempo, vários amigos, que também não podiam pagar as passagens e tinham vergonha de demonstrar, passaram a voltar correndo comigo. Ajudei a quebrar um tabu porque era fascinado em futebol e esportes em geral. Ainda sou. Mas hoje, infelizmente, meu time não está muito bem e acompanho menos – afirmou o fundista, que é palmeirense por influência do seu padrasto.

Glenda e Ivan (Foto: Marcelo Prata)
Glenda, hoje, apresenta o Esporte Espetacular com Ivan Moré (Foto: Marcelo Prata)

Hoje, aos 25 anos, a vida mudou bastante. A profissionalização trouxe ao novo maratonista brasileiro a esperança de um horizonte melhor. E o primeiro passo já foi dado. Por causa das constantes viagens, o corredor se tornou uma espécie de nômade. Já morou em países como Colômbia e Holanda e adquiriu uma cultura jamais imaginada. Daniel fala, além do português, inglês e espanhol, que considera ser melhor do que sua língua natal. O próximo sonho fora das pistas é aprimorar o holandês. Dentro dela, a meta é a medalha olímpica no local onde tudo começou. Para isso, precisará superar quenianos e etíopes, o que não considera ser uma missão impossível.

– Não é impossível vencê-los. É possível e quero chegar no mesmo nível deles. Isso serve de inspiração. São meus grandes espelhos. Temos os exemplos do Vanderlei Cordeiro de Lima, que conquistou uma medalha olímpica (bronze em Atenas 2004), e do Marílson dos Santos, que venceu a maratona de Nova York (2006 e 2008). É o meu objetivo. Estou fazendo isso tudo pela medalha no meu estado. Em 2016, estarei dentro da minha casa, com a torcida a meu favor, em um clima favorável, com a comida que estou acostumado, a temperatura que conheço, ao lado dos amigos e da família – disse Daniel, que viajou duas semanas antes da Maratona de Amsterdã para Nijmegen, cidade que fica, aproximadamente, uma hora e meia ao sul da capital holandesa.

A rotina de mudanças deve-se aos métodos de treinamentos. Como forma de evoluir o condicionamento físico, o fundista costuma passar um tempo na cidade colombiana de La Ceja, a 2.600m de altitude, antes de grandes provas. O aumento no número de glóbulos vermelhos o ajuda na performance em localidades ao nível do mar. Sem almejar pódio na Holanda, o brasileiro espera que o fôlego redobrado o permita completar a prova entre os dez primeiros.

– É bem nítida a diferença que sinto em países ao nível do mar ou abaixo dele, como é o caso da Holanda. Mas minha expectativa é fazer uma boa prova e ficar entre as dez melhores marcas do Brasil de todos os tempos. Algo entre 2h09m e 2h10m. Por ser minha primeira maratona, não dá para esperar mais do que isso. O tempo que quero chegar deve me colocar entre os dez primeiros da prova também – analisou Daniel.

Daniel Chaves meia maratona (Foto: Divulgação)
Daniel Chaves completa em quinto lugar na Meia Maratona do Rio (Foto: Divulgação)

Daniel Chaves treina no time da ex-maratonista Márcia Narloch desde que saiu do Cruzeiro, no início desta temporada, após um desentendimento com o técnico. Todavia, sem um clube para se filiar, ele não pode disputar competições nacionais e nem ter o direito de tentar o índice olímpico, a partir de meados de 2015. Sem propostas, o atleta confessa que a busca por um “lar” começará assim que cruzar a linha de chegada no domingo. E tem um desejo: defender as cores do Botafogo.

– É o clube do meu patrocinador e fica na minha cidade. Quem sabe não posso vir a defender o Botafogo? Seria bem legal. O clube tem a pista do Engenhão, na qual estou acostumado, por já ter treinado lá algumas vezes – declarou.

Sonho de ser jornalista

Daniel pode ser considerado uma pessoa sonhadora e batalhadora. Após superar as barreiras sociais e, a cada dia, as esportivas, o petropolitano já sabe o que quer fazer no futuro próximo: o curso de jornalismo.

Ao projetar conciliar a vida de atleta com a de jornalista, o fundista almeja prestar vestibular para uma faculdade carioca e exercer a profissão, com ênfase na área esportiva.

– Tenho essa paixão. Vou começar a faculdade de Comunicação Social. Adoro essa profissão. Sou curioso, gosto de pesquisar as coisas, ver notícias. Sou “entrão” mesmo. Quero trabalhar na parte esportiva que é a minha praia – completou.

Após a Maratona de Amsterdã, Daniel Chaves permanece na Europa por mais duas semanas e depois retorna ao Brasil, onde iniciará a preparação para a sua primeira Corrida de São Silvestre, prova mais tradicional do atletismo brasileiro, disputada em São Paulo, sempre no último dia de cada ano: 31 de dezembro.

A Maratona de Amsterdã acontece neste domingo, às 4h30m (horário de Brasília). Na prova, o favorito é o atual bicampeão Wilson Chebet, do Quênia. A prova costuma ser vencida por quenianos e etíopes. A última vez que isso não ocorreu foi em 2001, quando o francês Driss El Himes cruzou a linha de chegada à frente de seus concorrentes. O SporTV transmite.

Daniel Chaves (Foto: Guto Gonçalves / Divulgação)
Daniel Chaves em ação no Troféu Brasil em junho (Foto: Guto Gonçalves / Divulgação)


Fonte: Globoesporte.com
Comentários