Não é novidade para ninguém que o Botafogo passa por uma grave crise financeira. E não é de hoje. A possibilidade dos irmãos Moreira Salles injetarem mais dinheiro e apostarem no departamento de futebol, isso após um estudo que está sendo desenvolvido pela empresa de auditoria Ernst & Young, causou um frisson na torcida. Mas é preciso de calma, até porque “não será de um dia para o outro” que a atual dívida estipulada em cerca de R$ 700 milhões diminuirá bruscamente ou deixará de ser uma dor de cabeça para o clube.

A frase destacada acima foi dita pelo ex-presidente do Botafogo e atual vice-vice-presidente geral, Carlos Eduardo Pereira, em recente entrevista à Rádio Globo. O dirigente não escondeu a realidade aos botafoguenses: os caminhos são mais sinuosos do que o popularizado, sobretudo nas redes sociais.

– Não colocaria como salvação, mas como expectativa. Pessoas do potencial financeiro do João e do Walter contratarem empresa de grande porte significa que estão analisando com seriedade e responsabilidade, um ótimo sinalizador. Não tenha dúvida que é uma possibilidade. Eles não querem aparecer, têm perfil reservado. Acho que não deve ser coisa imediata, alguns na internet estão tratando como algo muito imediato, mas todos devem entender que é negociação, apresentação de modelos, vai envolver toda uma parte profissional, não vai acontecer de um dia para o outro. É fundamental a torcida continuar apoiando, adquirir planos de sócios, que acabaram de ser lançados e não tiveram boa receptividade, apesar de os preços serem altamente convidativos. É a torcida seguir apoiando o clube, todos nós apoiaremos medidas favoráveis ao Botafogo e que representem recuperação financeira e esportiva – disse CEP.

Outro ex-presidente e influente nos bastidores do Glorioso, Carlos Augusto Montenegro se mostrou mais otimista em relação a como o Botafogo pode ser dirigido nas próximas temporadas. Montenegro se animou com a possibilidade do clube tornar-se uma empresa, com João Moreira Salles e Walter Salles como acionistas. E explicou o rascunho da “Companhia Botafogo”.

– Vou mostrar como seria a salvação. O Botafogo tem uma dívida entre R$550 a R$700 milhões. Não dá para saber o valor certo porque todo dia paga-se dívida. Uma parte trabalhista está no Ato. Uma parte de tributos está no PROFUT. Outra envolve a parte cível como PJ de jogadores, fornecedores… Com dinheiro em mãos tem como negociar e baixar a dívida pela metade talvez. Essa é a primeira parte. A segunda seria colocar um capital de giro na empresa. Para poder sobreviver, certas receitas foram adiantadas como Carioca de 2019, parte do Brasileiro de 2020. Tem que limpar isso para a receita voltar a entrar. Nesse caso, entraria na Companhia Botafogo o sócio-torcedor, Nilton Santos (com aluguel de placas, Naming Rights, lanchonete, camarotes), jogadores da base e profissional, material esportivo e TV, em troca os irmãos assumiriam a dívida. Teriam que dar X% ao Botafogo também para o custeio do clube social e talvez o remo, que é o único esporte que o Botafogo tem que se preocupar por causa do estatuto. O resto não tem obrigação. Basquete, Vôlei, Pólo Aquático faz se fabricar verba. O Botafogo já fez “220 auditorias” e todo mundo está careca de saber das dívidas e problemas. Contrataram uma empresa grande para estudarem um modelo de governança na Companhia Botafogo, modelo de convivência do clube com direitos e deveres de cada lado – disse Montenegro, em entrevista à Rádio Tupi, também nesta semana.

– O receio deles (Moreira Salles) é fazer o investimento, aportarem o dinheiro, limpar a vida do Botafogo e amanhã aparecer um maluco dizendo que não queria isso e voltar ao que era antes. Não pode fazer isso! Tem que respeitar o contrato. Esse estudo está previsto para acabar no fim de março. Quando estiver pronto vão apresentar aos irmãos Moreira Salles. Eles topando o próximo passo é se reunir com a diretoria e mostrar como vai ser. Acho q nem precisa de negociação. Tem coisas que não podem mudar como uniforme, bandeira, hino e cores. Nem acredito que eles queiram mudar também. O formato está sendo visto independentemente de nomes. O modelo precisar se perpetuar e o clube crescer a partir daí. É um espelho de clubes de fora como Chelsea, Manchester City, Juventus. Não precisa inventar a roda – completou.

PROJEÇÕES E NECESSIDADES

Uma venda como a de Matheus Fernandes, por 3,5 milhões de euros (cerca de R$ 15 milhões) para o Palmeiras, por 75% dos direitos econômicos do volante, era necessária para aliviar os cofres do Botafogo. E é possível que haja outra saída, como a do valorizado Igor Rabello, nesta janela. Já em relação a compras, não dá para imaginar investimentos consideráveis; diversos empréstimos, como ocorreu em 2018, são os rumos mais prováveis quanto a reforços.

Financeiramente, dá para afirmar que o próximo ano deve ser menos sufocante. Também à Rádio Globo, Luis Luis Felipe Novis, vice-presidente financeiro do Botafogo, teceu a respeito da proposta de orçamento para a temporada 2019,  encaminhada para a ciência do conselho fiscal – para, em seguida, ser votada no conselho deliberativo.

– O que posso dizer para tranquilizar a torcida é que o orçamento foi feito, foi reduzido em relação ao ano passado, temos uma previsão menor de receitas e de despesas, mas estamos fazendo de forma totalmente transparente. Há risco de não cumprir? Obviamente que há. Mas fomos os mais rigorosos possíveis, conservadores. Gostaria de deixar a torcida confiante, é um trabalho bastante sério da equipe financeira, que trabalhou bastante – salientou Novis, que, em contato ao LANCE!, frisou a importância de uma resposta positiva dos Salles:

– A parceria (com os Irmãos Moreira Salles) está sendo avaliada e o interesse por parte deles ainda precisa ser confirmado, mas dá para dizer que seria algo que, efetivamente, resolveria os problemas e permitiria que o Botafogo se mantenha. Hoje, aqui no clube, já está bastante claro que as operações de créditos tradicionais, feitas pontualmente para nos ajudar no fluxo de caixa, não são sustentáveis a longo prazo para lidar com a nossa situação. Então, temos que seguir atrás de soluções mais estruturais para chegarmos a um patamar mais competitivo no futebol brasileiro – explicou o VP de finanças.

A tendência é que o Botafogo tenha uma receita de até R$ 230 milhões em 2019, dependendo de variáveis, como vendas de atletas, captação de recursos, premiações de campeonatos e bilheterias.

SOBRE O CT

Ainda sem data para ser finalizado, o novo CT do Botafogo, situado em Vargem Pequena, mais precisamente no Espaço Lonier, não será o local da pré-temporada do time de Zé Ricardo, que terá que se preparar no Estádio Nilton Santos – onde habitualmente já treina. A expectativa interna é que a base faça a sua mudança definitiva na metade do próximo ano. Os profissionais, de maneira gradual, passariam a treinar na nova casa em seguida.

Como a crise financeira afetou no cronograma de utilizar o CT já em janeiro, as obras seguirão a passos tardios. Há seis etapas definidas quanto ao projeto, que contará com sete campos. Os gramados devem estar aptos em abril.

O CT, cabe destacar, contou com uma doação inicial dos irmãos Moreira Salles, na casa dos R$ 5 milhões, mas que pode ultrapassar os R$ 25 milhões a partir de 2019 – este número final era oriundo de um empréstimo, aprovado em julho de 2017 pelo conselho deliberativo e que seria quitado em 30 anos. Ou seja, este tende a ser outro respiro para um clube sufocado.

Fonte: Terra