Gilberto Silva, aos 37 anos, recupara-se de uma cirurgia no joelho direito. Sonha em jogar ainda por um tempo e depois ser um gestor de futebol. “Vou estudar muito para isso”, diz o jogador, campeão do mundo em 2002 e um dos líderes do Bom Senso.

Em entrevista ao UOL Esporte, comemorou o adiamento da votação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, o que chamou de “uma pequena vitória e um passo importante”. E deixou claro que a situação do Botafogo não será resolvida com faixas de esclarecimento a torcedores. “Se fosse em uma empresa qualquer, já haveria greve. Se houver, eu apoio”.

UOL Esporte: Qual sua análise sobre a decisão de adiar a votação a Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte?
Gilberto Silva:
Foi superpositiva para nós. Conseguimos colocar nossas ideias, mostrar o que temos buscado e haverá nova votação. Tomara que nossas ideias e reivindicações sejam implementadas na nova votação. Elas pedem uma responsabilidade maior dos clubes para que novo refinanciamento seja feito. Senti que o deputado Otávio Leite está muito aberto as nossas sugestões.

UOL Esporte: Foi uma vitória?
Gilberto Silva
: Foi uma pequena vitória, um passo importante foi dado dentro do que temos buscado desde o ano passado. Se nossas ideias forem aceitas junto ao que já tem no projeto, será um grande avanço. O importante é saber que não queremos melhorias em proveito próprio e sim para o bem do futebol.

UOL Esporte: Conseguiram novos aliados?
Gilberto Silva:
Sim, o trabalho com o Romário foi muito bom. Ele vestiu nossa camisa. O senador Randolfe Rodrigues também compreendeu e aceitou nossas propostas. Mostramos que não queremos nenhuma loucura, apenas uma responsabilidade maior para os clubes. Os clubes endividados só pensam em fazer novas dívidas. Ninguém quer gastar menos do que arrecada. A responsabilidade é boa para os clubes também.

UOL Esporte: Como analisa a atuação do governo?
Gilberto Silva:
A partir do momento que há uma abertura, pode-se dizer que é uma coisa muito importante. Fomos recebidos pela presidente, mostra que há interesse dela. Mas agora estamos esperando uma contrapartida. Receberam nossa proposta, falaram com os clubes e espero que se chegue a um consenso.

UOL Esporte: De quanto é a dívida?
Gilberto Silva:
Já ouvi falar que é de R$3 bilhões, 3,5 bilhões, R$ 4 bilhões. Os clubes não sabem qual é a dívida real.

UOL Esporte: E como se chega a uma dívida dessas?
Gilberto Silva:
Má gestão. Gastam mais do que arrecadam. Devem para banco, devem imposto, têm dívida trabalhista. Não consigo entender como se chega a uma situação dessas. Não se pode mais administrar com paixão, com coração. É preciso ter um gestor qualificado.

UOL Esporte: E o produto que eles gerenciam é bom?
Gilberto Silva:
É ótimo. Futebol é a maior empresa do mundo, está em todos os países. E os clubes conseguem chegar a uma situação terrível como essa. O nível técnico está fraco. A infraestrutura melhorou com a Copa, mas precisa melhorar ainda mais. Os clubes precisam ser mais bem dirigidos. Não se pode gastar como se gasta na Europa, é necessário uma adaptação à realidade.

UOL Esporte: Você acha correto contratar jogadores como Pato e Robinho, pagando salários acima de R$ 600 mil, como se fosse a Europa?
Gilberto Silva:
Não vou entrar no mérito de merecimento, cada um sabe o que merece. Não estou falando do valor técnico dos jogadores, mas é estranho pagar maiores salários aqui do que lá. Querem dar uma resposta imediata à torcida e deixam o clube endividado. E depois atrasa o salário de alguém que ganha um salário mínimo. Estou falando de forma geral, não é do Santos, do Corinthians, do Pato e do Robinho. Há outros exemplos. Um garoto da base faz dois jogos bons e passa a valer cem vezes mais. Será que vale mesmo? Pode ter sido um bom momento de futebol, ninguém sabe se será constante. Precisa de uma avaliação melhor, criar um modelo de gestão. Caso contrário, os clubes não crescem.

UOL Esporte: Quais as mudanças que vocês querem na Lei?
Gilberto Silva:
Uma fiscalização independente, mais frequente e que as punições sejam escalonadas. Não queremos arrebentar com os clubes.

UOL Esporte: A Globo apoia a Lei como está…
Gilberto Silva:
Ela é detentora dos direitos e os clubes dependem dela. Está exigindo um produto melhor para ter mais audiência. E como se pode chegar a um produto melhor? Tudo precisa começar na base.

UOL Esporte: Como a CBF pode ajudar?
Gilberto Silva:
Tem obrigação de ajudar o futebol a se tornar um produto melhor. Precisa se abrir, fazer cursos de captação, trazer atletas em final de carreira para o futebol. Torná-los pessoas bem capacitadas.  O Parreira disse que a CBF não forma jogador. Tudo bem, não está no dia a dia do clube, mas poderia ajudar de maneira macro, formando melhores treinadores, melhores profissionais de futebol e dando condições para que os jogadores melhorem.

UOL Esporte: Como foi o diálogo com a CBF?
Gilberto Silva:
Foi uma reunião só e não houve resposta ao que falamos. Marcaram uma nova reunião e desmarcaram depois. Conversamos com a presidente Dilma, com o ministro Aldo, com deputados, senadores, com dirigentes de clubes. O pior contato foi com a CBF, sem dúvida alguma.

UOL Esporte: Como a CBF vê o Bom Senso?
Gilberto Silva:
Como inimigo. E isso é um erro. Se o futebol melhorar, melhora para todos. Já tenho 37 anos e não vou usufruir as melhoras na prática, mas vou ficar feliz em ver um estádio cheio, clubes com receita, como uma boa empresa deve ser.

UOL Esporte: A situação do Botafogo pode levar a uma greve?
Gilberto Silva:
Quando há uma situação de conflito, tudo deve ser feito para evitar a greve. Quando não há solução, deve se fazer greve.

UOL Esporte: E quanto ao Botafogo?
Gilberto Silva:
A situação é muito crítica. Se fizerem greve, eu apoio. O que aconteceria em uma empresa de qualquer setor se o salário atrasasse por cinco meses? Adianta entrar com faixa em campo dizendo como tudo está ruim? Tem de agir. Jogador sofre preconceito, quando reclama é taxado de milionário. Parece que não tem democracia no Brasil.

UOL Esporte: Mas todo mundo pode falar. Vocês, do Bom Senso, estão falando….
Gilberto Silva:
Isso é verdade. Jogador também peca por omissão. Veja o caso do André Santos, que foi agredido por torcedores, foi afastado do time e não teve a solidariedade de nenhum companheiro do elenco.

UOL Esporte: O 7 a 1 da Alemanha escancarou os problemas do futebol brasileiro. Estamos perdendo a chance de enfrentá-los?
Gilberto Silva:
Não sei. Vamos esperar. Ainda não sei se perdeu a chance, se nada for feito, sim, é lógico. Nossos jogadores não têm estudo, trabalham desde cedo e fazem do futebol um meio de vida, de subsistência. É mais do que uma profissão. Precisariam estudar mais, conhecer tática, ter mais força emocional, saber de sua responsabilidade. Ela não termina em campo, se o cara coloca o pé na rua, está representando um clube e precisa saber fazer isso. A parte técnica é natural e também pode melhorar com treinamentos. Se tudo isso existisse, seria mais fácil aprender com o 7 a 1 e sair dessa situação que é péssima.

Fonte: UOL