Assim como fizeram quando tinham Santos e XV de Piracicaba na mão, os executivos da Globo decidiram outra vez apelar hoje para o Homem-Aranha. E poupar grande parte do país do tradicional futebol na noite desta quarta-feira. A emissora se recusa a mostrar o Palmeiras contra o Sampaio Corrêa, Botafogo diante do Capivariano. E a fina da Copa do Nordeste entre Ceará e Bahia.

Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais (exceto Juiz de Fora, Uberlândia e Ituiutaba), Espírito Santo, Goiás, Pará (menos Santarém), Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá e Distrito Federal estarão livres de palmeirenses, botafoguenses, cearenses e baianos. E também de outras duas partidas ‘desinteressantes’. Na velha política de comprar e só mostrar o futebol quando lhe interessar, a Globo mostrará o aracnídeo para esses estados.

O jogo do Palmeiras será mostrado para São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O do Botafogo apenas para o Rio de Janeiro. Só Bahia e Ceará assistirão a definição da Copa do Nordeste com os dois times homônimos. Pernambuco verá a primeira partida da decisão do campeonato estadual entre Salgueiro e Santa Cruz. O mesmo vale para Alagoas, com ASA contra o CRB.

A decisão foi tomada por vários motivos. O primeiro é que Corinthians e Flamengo, os favoritos da emissora e campeões de audiência nos últimos anos, não estão envolvidos nas partidas. Segundo, Palmeiras e Botafogo participam das decisões paulista e carioca. Não vão colocar seus titulares nestes jogos que encavalam o calendário. Terceiro, para a emissora, Copa do Nordeste, Campeonato Pernambucano e Alagoano têm interesse apenas regional. E a quarta e decisiva razão: a certeza que Homem-Aranha atrairá mais telespectadores do que esses confrontos.

Ambev, Itaú, Johnson & Johnson, Magazine Luiza, Vivo, Volkswagen pagam mais de R$ 1,3 bilhão para expor suas marcas durante os jogos mostrados pela Globo. Foi assim que o diretor-geral da emissora, Willy Haas, comemorava o fechamento do acordo bilionário no fim do ano passado.

“É a certeza de que vale a pena anunciar produtos e empresas para o consumidor nacional, de que vale a pena construir valor de marca associado ao futebol, e de que vale a pena estar perto das famílias brasileiras através da Globo e da qualidade de sua cobertura”, disse a revista Exame.

Garantiu que o futebol chegaria a 98,6% dos municípios brasileiros. Fora a cobertura na Internet. Discursava entusiasmado.

“Ter ao nosso lado marcas tão importantes, de diferentes setores da economia, é um incentivo para que a gente continue a investir no futebol. Desta forma, reafirmamos o nosso compromisso de continuar investindo na qualidade dos nossos produtos e talentos, na abrangência da nossa cobertura, na eficiência e solidez da nossa grade e no respeito ao mercado publicitário.”

O alívio era nítido. Afinal, a cúpula da detentora do monopólio do futebol neste país estava tensa. Afinal, o Brasil havia dado um vexame homérico na Copa do Mundo de 2014. O medo era que os anunciantes não quisessem pagar o preço exigido pela emissora.

A poderosa Coca Cola foi a primeira a cair fora. Não quis seguir bancando o esporte na emissora depois do que aconteceu no Mundial. Foi um sinal ao mercado. Quando a Coca Cola desiste de bancar um evento é significativo.

Oito agências tiveram de se desdobraram para manter seis patrocinadores. O Magazine Luiza entrou no lugar do refrigerante. AlmapBBDO (Ambev e Volkswagen), África (Ambev, Itaú e Vivo), DM9DDB (Itaú, Johnson & Johnson e Vivo), DPZ (Vivo), Etco Ogilvy (Magazine Luiza), F/Nazca S&S (Ambev), JWT (Johnson & Johnson) e Y&R (Vivo).

O descontentamento com o futebol no país é claro. As agências e os patrocinadores sabem muito bem que o nível técnico é fraco. Empresas fogem de patrocinar clubes importantes. O Cruzeiro, atual bicampeão do país, não tem patrocínio master há quatro meses. O Santos e o São Paulo também.

Tudo na publicidade é feito baseado em pesquisas. Não é por acaso que a Globo discute a sério a possibilidade de mostrar pelo menos um campeonato nacional europeu. O Espanhol por causa de Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo seria o mais atraente. Assim como mostrar mais jogos da Champions League.

Nada mais será automático. A emissora não quer a obrigação de transmitir jogos às quartas e domingos. Se seus executivos entenderem que o jogo não vai interessar seu telespectador, não mostrará. Palmeirenses e botafoguenses de fora de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e Rio, podem reclamar à vontade. Assim como quem desejava ver a final da Copa do Nordeste e não mora no Ceará ou na Bahia.

Mas não adianta campanha, gritaria, boicote. Quando os jogos forem considerados desinteressantes, não serão mostrados. Essa é uma decisão irreversível. Nos últimos dez anos, a audiência do futebol na Globo caiu 28% em média. E a emissora não adotará uma postura suicida. Se as partidas têm potencial para afugentar os telespectadores serão desprezadas. Trocadas por filmes, sem dor na consciência.

É exatamente o caso de hoje à noite. Quase metade do Brasil estará livre de Palmeiras e Sampaio Corrêa e Botafogo e Capivariano. Da final da Copa do Nordeste. No lugar destes jogos, o indefectível Homem-Aranha…

Fonte: Blog do Cosme Rimoli - R7