Se voltássemos duas décadas no tempo neste sábado, o Botafogo estaria em situação bem melhor, levantando uma taça, ainda que de um torneio amistoso. No dia 2 de agosto de 1994 o time alvinegro venceu o português União da Ilha da Madeira e conquistou um torneio que, curiosamente, leva o nome do hoje prefeito do Rio de Janeiro: Torneio Internacional Triangular Eduardo Paes. Mais curioso é observar que Paes, na época, tinha apenas 24 anos e já era nome de campeonato de futebol.

“Eu lembro do torneio e lembro do atual prefeito lá sim, bem novo. Não acompanhei a trajetória dele, só agora recentemente, mas acho que foi bem no início da carreira política”, recorda Wilson Gottardo, que disputou o torneio como zagueiro do Botafogo.

Em 1994, o atual prefeito do Rio e hoje homem importante na organização do maior evento esportivo do planeta, os Jogos Olímpicos de 2016, era apenas um político em início de carreira. Paes era subprefeito da Barra da Tijuca, na época da gestão do hoje seu adversário político César Maia. Ainda não tinha se candidatado a nenhum cargo público e tinha recém terminado a faculdade de Direito na PUC do Rio de Janeiro. Mesmo assim, antes mesmo de completar 25 anos, teve um torneio internacional de futebol com o seu próprio nome.

“Há um paralelismo entre futebol e política no Brasil. É usual se construir uma carreira política patrocinando pequenos clubes de futebol ou organizando campeonatos regionais. Obviamente que os candidatos e aspirantes a uma carreira política tendem a se vincular à paixão nacional do futebol como forma de se promover. O caminho de uma pessoa do esporte entrar na política é tão comum como uma pessoa da política querer entrar no mundo do esporte, como forma de ganhar visibilidade e reconhecimento”, analisa o doutorando em Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Lucas Cunha.

O Torneio Internacional Triangular Eduardo Paes foi idealizado para acontecer logo após a Copa do Mundo de 1994. Claro, como o “dono” do campeonato era subprefeito da Barra, foi lá que a bola rolou. Um campo pequeno, com poucas arquibancadas, onde futuramente funcionaria o Vasco-Barra, centro de treinamentos vascaíno, foi a sede. Um time hoje já extinto, o Barra da Tijuca, na época na terceira divisão do Campeonato Carioca, foi convidado, juntamente com o Botafogo. O Vasco, time do coração de Eduardo, não pôde participar porque disputaria a semifinal da Copa do Brasil contra o Grêmio.

Reprodução/Arquivo Jornal do Brasil

Eduardo Paes (à esq.) como subprefeito da Barra da Tijuca em 1995
Eduardo Paes (à esq.) como subprefeito da Barra da Tijuca em 1995 

Botafogo foi campeão do Eduardo Paes com gol de lateral que foi assassinado

Para virar “triangular” e “internacional” um time estrangeiro foi chamado. O escolhido, ou ao menos o que topou, foi o União da Ilha da Madeira, de Portugal. E na “abertura” do torneio os visitantes não se deram bem. Derrota de 3 a 0 para o Barra da Tijuca, time que não tinha nem um ano de vida.

Dias depois, foi a vez do Botafogo estrear contra o time do bairro. Com dificuldades, o time alvinegro venceu por 1 a 0 com gol de Clei, promissor lateral botafoguense, assassinado três anos depois por traficantes no subúrbio do Rio de Janeiro. Foi o único gol de Clei com a camisa do Botafogo.

Assim, o Fogão seguiu para a última partida do torneio precisando apenas de um empate para ser campeão. E apesar de não encantar, e mesmo tendo Nelinho e Sérgio Manoel expulsos, o time venceu facilmente o União da Ilha da Madeira pelo placar mínimo, gol de Batata. E assim, Wilson Gottardo, hoje diretor de futebol do clube, na época capitão, levantou a taça, “claramente constrangido”, segundo reportagem do Jornal do Brasil do dia.

“Constrangido a imprensa fala por causa dessa síndrome do vira lata do brasileiro de só valorizar o que é de fora. Tinha que chamar o Real Madrid para o torneio ser importante? Esses torneios eram legais, bacanas de ganhar. Teve o Tereza Herrera que ganhamos na Europa uns anos depois e muita gente comemorou. Só não entendi porque o prefeito não chamou o Vasco, que é o time dele”, declara Gottardo, com bom humor.

O Botafogo foi campeão com Wágner, Germano (Robinho), Wilson Gottardo, Márcio Theodoro,Clei; Moisés, Nélson (Pardal), Beto, Sérgio Manoel; Róbson, Marcos Paulo (Batata); Treinador: Renato Trindade.

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O prefeito do Rio, Eduardo Paes, em evento em junho de 2014
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, em evento em junho de 2014

Após o torneio, carreira política de Eduardo Paes decola

Na época do torneio, Eduardo Paes já vislumbrava sua candidatura nas eleições de dois anos depois. Assim, em 1996, Paes surfou na onda do sucesso da administração municipal de César Maia e foi eleito vereador do Rio pelo PV (Partido Verde) com mais de 82 mil votos. Não cumpriu o mandato até o fim, sendo eleito deputado federal em 1998 com 117 mil votos. Reeleito em 2002, se candidatou a Governador do Rio em 2006, mas teve só 5,5% dos votos.

Em 2008, depois de passar pelo PSDB e já no PMDB, venceu pela primeira vez uma eleição majoritária, para prefeito do Rio de Janeiro, superando Fernando Gabeira, do PV, seu primeiro partido, no segundo turno. Quatro anos depois foi reeleito ainda no primeiro turno. Era o prefeito quando o Rio foi escolhido cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016 e será o mandatário da cidade durante a competição.

“A construção de uma imagem política pode ganhar destaque quando se tem o seu nome associado a um campeonato. Isso pode sugerir uma associação da imagem do político ao desenvolvimento do esporte, da cultura e da juventude. É certamente uma estratégia de construir uma imagem associada à promoção de bens coletivos. É uma estratégia política associar o seu próprio nome a um campeonato de futebol. E no Brasil isso ajuda a ganhar votos”, conclui o cientista político Lucas Cunha.

Fonte: ESPN.com.br