A vitória do Botafogo por 1 a 0 em sua estreia na Sul-Americana , com gol de Erik nos acréscimos , está longe de garantir vida tranquila para o próximo duelo contra o Defensa y Justicia , na Argentina, no próximo dia 20. No lado de lá da fronteira, o tropeço do único invicto do Campeonato Argentino, numa noite chuvosa no Rio, é visto mais como acidente de percurso, que não depõe contra a ascensão vivida pelo time nos últimos cinco anos. Nos capítulos abaixo, O GLOBO conta à torcida alvinegra o que esperar no jogo de volta contra os argentinos.

Dos ônibus aos voos internacionais

Na sua história e até na sua camisa, o Defensa y Justicia exibe as digitais de clube da periferia de Buenos Aires , capital e maior cidade da Argentina.

Fundado de forma amadora na década de 1930 por um grupo de amigos – sem que ninguém lembre a razão por trás do nome (“Defesa e Justiça”, em bom português) -, o Defensa y Justicia se profissionalizou nos anos 70 com o impulso de uma empresa de ônibus.

Conta-se a história de que a “Transportes Halcón” financiava o clube em suas origens, motivo para que as cores do escudo e do uniforme sejam verde e amarelo: são as mesmas da Linha 148, mantida pela Halcón, que liga a Praça da Constituição, uma das principais de Buenos Aires, a Florencio Varela, cidade onde fica a sede do Defensa y Justicia.

Há também uma versão que credita aos motoristas de ônibus da Transporte Halcón, bem sucedidos em torneios amadores, a motivação para o ingresso do Defensa y Justicia no futebol profissional.

Fato é que a memória dos ônibus segue viva para a torcida, que apelidou o clube de “Halcón de Varela” , numa referência à cidade e à empresa de transportes. O time que parecia viver de ônibus passou a andar bastante de avião desde que obteve seu primeiro acesso à primeira divisão, em 2014. No último ano, chegou às quartas de final da Sul-Americana, seu melhor resultado internacional até hoje.

Barulho patriótico

Não se engane com o verde e amarelo na camisa: a torcida do Defensa y Justicia é fanática pela Argentina . Nos últimos anos, os torcedores do “Halcón” criaram o hábito de entoar o hino nacional argentino no meio dos jogos, ao som de uma boa e velha charanga que acompanha o time em todo lugar.

E a charanga acompanha mesmo : em sua primeira viagem ao Brasil, em maio de 2017, para enfrentar o São Paulo , lá estava a charanga do Defensa y Justicia fazendo barulho pelas ruas da capital paulista.

Apesar de ser considerado um clube modesto, o barulho tem tudo para ser de gente grande no Estádio Norberto “Tito” Tomaghello, casa do Defensa y Justicia, que acomoda cerca de 18 mil pessoas. É lá que o time enfrentará o Botafogo no jogo de volta. Na última Sul-Americana, o time jogou no estádio do Independiente de Avellaneda, com 52 mil lugares, em fases mais avançadas.

– Como a maioria das torcidas argentinas, os hinchas do Defensa y Justicia são capazes de apoiar muito. Levam bastante gente ao estádio e cantam a todo momento. E enfrentar um clube brasileiro é sempre uma experiência particular para os argentinos – afirmou ao GLOBO o jornalista argentino Diego Paulich, do diário “Olé”.

Discípulo pilhado

Sebastian Beccacece , de 38 anos, trabalhou como auxiliar de Jorge Sampaoli na Universidad de Chile, na seleção chilena e, por fim, na seleção da Argentina durante a Copa do Mundo de 2018. Além de seguir o mesmo método de jogo, baseado no controle da posse de bola e na construção de lances pelo chão, Beccacece parece ter se inspirado no temperatemento explosivo de Sampaoli na área técnica.

É comum ver Beccacece apresentando comportamento inquieto e expansivo no comando do Defensa y Justicia. Em partida contra o San Martín de Tucuman, por exemplo, o treinador comemorou um gol de seu time gritando perto da câmera, numa imagem que lembrou a vibração de Diego Maradona após um gol contra a Grécia na Copa do Mundo de 1994.

– Beccacece é muito querido pelos torcedores do Defensa. É um técnico muito respeitado e esteve cotado nos últimos meses para dirigir clubes grandes, como Boca Jrs. e San Lorenzo, mas preferiu respeitar seu contrato, que vai até o fim de junho – observou Paulich.

Beccacece já mostrou que não guarda o que pensa para si – nem se o alvo for Sampaoli . Depois da desastrosa Copa do Mundo da Argentina, Beccacece optou por voltar ao Defensa y Justicia e, embora tenha dito que não se desentendeu com Sampaoli, deixou no ar certa insatisfação.

– Realmente, as coisas que tive que dizer, disse a ele pessoalmente e de forma privada – afirmou à época.

Depois da Copa, Beccacece conduziu o Defensa a uma campanha emocionante na Sul-Americana. Em um duelo contra o El Nacional (EQU), pela segunda fase, o treinador foi expulso por xingar a arbitragem e precisou cumprir suspensão. De volta à beira do campo nas quartas de final, contra o Junior Barranquilla (COL), foi expulso de novo ao ver seu time ser eliminado e chamou os árbitros de “ladrões”. Acabou suspenso mais uma vez.

Beccacece precisou assistir o jogo de ida contra o Botafogo nas tribunas do Nilton Santos. Segundo a imprensa argentina, a suspensão do treinador segue em vigor, e por isso ele não poderá ficar na área técnica na partida de volta, no dia 20.

Do que o Botafogo precisa?

Como venceu por 1 a 0 no Nilton Santos, o Botafogo joga por qualquer empate – ou vitória, é claro – para eliminar o Defensa y Justicia. Caso o time argentino vença por 1 a 0, a decisão vai para os pênaltis.

Vitória dos argentinos por qualquer outro placar, desde que com apenas um gol de diferença, classifica o Botafogo, graças ao critério do gol fora de casa – já que o alvinegro não sofreu gols no Rio.

O Defensa y Justicia precisará de uma vitória por dois ou mais gols de diferença para seguir na competição. Beccacece e seus comandados conseguiram um placar do tipo três vezes na última Sul-Americana: vitórias por 2 a 0 sobre El Nacional (EQU) e Banfield (ARG), e por 3 a 1 sobre o Junior Barranquilla (COL) nas quartas de final – jogo que acabou, no entanto, eliminando o Defensa, por ter perdido a ida por 2 a 0.

Fonte: O Globo Online