Emerson é a grande surpresa deste início de temporada no Botafogo. Aos 20 anos — completa 21 no dia 5 de abril —, ele parecia ser apenas mais um na pré-temporada. Entre os experientes zagueiros Renan Fonseca, antes absoluto, e Joel Carli e Emerson Silva, reforços para 2016, foi o jovem revelado pela base alvinegra quem mais atuou no Campeonato Carioca como titular do técnico Ricardo Gomes.

O garoto não tem fez feio, muito pelo contrário. Com apenas quatro gols sofridos em 10 partidas, o alvinegro tem a melhor defesa da competição ao lado do Flamengo. No primeiro confronto com o Vasco, Emerson cobrou falta com tanta força e efeito que inviabilizou qualquer tentativa de reação de Martín Silva, goleiro da seleção uruguaia. O gol, aos 42 minutos do segundo tempo, manteve a invencibilidade alvinegra.

Nenhuma dessas surpresas se compara à que Emerson recebeu em junho de 2014 após uma bateria de exames de rotina com as divisões de base. Aos 18 anos, ele teve detectada uma arritmia cardíaca.

— Eu não entendi direito na hora. Os médicos foram bem sinceros. Eles disseram: “Você vai ter que fazer uma cirurgia que pode definir sua carreira”. Dependendo da reação do meu corpo, eu poderia nunca mais jogar — lembra Emerson, que chorou depois de marcar contra o Vasco e voltou às lágrimas no vestiário. — Às vezes, numa situação adversa, eu me lembro disso. No momento do gol, foi a primeira coisa que veio à cabeça.

O susto durou pouco e, bem-sucedida, a cirurgia não abreviou o sonho nascido em Itaboraí. Em seu município, onde mora até hoje, Emerson jogou no Ferroviário e passou pelo ProFute. Até que um dia, já com 13 anos, durante um amistoso contra o Botafogo, chamou a atenção do clube.

Participação de Húngaro

Quem convidou Emerson para um teste foi Eduardo Húngaro. Hoje na Cabofriense, onde tenta reconstruir sua carreira de treinador profissional, Húngaro treinou grande parte dos jovens jogadores que surgiram nos últimos anos no Botafogo, como Vitinho, Dória e Gabriel.

Apesar do trabalho, Húngaro ficou marcado como aposta do ex-presidente Maurício Assumpção para dirigir a equipe na Libertadores de 2014. Retirado do cargo após a eliminação, seguiu no clube como um esvaziado auxiliar técnico. Para Emerson, no entanto, foi fundamental.

— Foi ele que descobriu esse meu talento de bater faltas. Eu até batia algumas, mas, quando cheguei, era tímido. No trabalho de finalização, ele me botava para bater faltas em Marechal Hermes — relembra o zagueiro. — De lá para cá, não parei de treinar. Hoje em dia, vejo que toda essa luta está valendo a pena.

Fã de Jefferson, como dez em cada dez jogadores da base alvinegra, Emerson tem a oportunidade de usar o ex-goleiro da seleção brasileira como sparring. De vez em quando, Emerson reconhece, o capitão se sai melhor na disputa.

— Ele pega algumas, mas eu também tenho os meus momentos de fazer gol. Ele me zoa na hora de treinar. Ele grita: “Vai, canhão, é sua hora” — conta, rindo.

Um paralelo pode ser feito entre Emerson e Dória, um ano mais velho, hoje no Granada, da Espanha. Eles foram companheiros no juvenil. No primeiro jogo profissional de Dória, em 2012, contra o Coritiba, a bola resvalou nele aos 30 segundos e enganou o goleiro do Botafogo. Depois, fez ótima partida, e o alvinegro virou o jogo.

No ano passado, Emerson já tinha feito dois jogos profissionais, ambos, contra o Capivariano, quando enfrentou seu primeiro time de Série A: o Figueirense. Ele entrou no intervalo e, em cinco minutos, tentou cortar, acertou Diego Giaretta e marcou contra. Depois, fez partida muito elogiada pelo técnico René Simões.

— Eu conseguiu levar bem o jogo depois daquilo — recorda-se Emerson, acrescentando que aprendeu com o companheiro mais velho. — Aprendi com ele que tem a hora de brincar, mas, na hora de trabalhar, é trabalho sério.

Fonte: O Globo Online