A final do Campeonato Carioca de 1997 entre Botafogo e Vasco tem lugar de destaque na história do futebol brasileiro. Um fato ocorrido aos 44 minutos do segundo tempo, no jogo de ida da final do Estadual, contribui e muito para isso. Com o Vasco vencendo por 1 a 0, o craque do time, Edmundo, pára a bola na linha lateral do campo, leva as mãos ao joelho e, sem mais nem menos, passa a rebolar na frente  do seu marcador, no caso, o  companheiro de Seleção Brasileira, Gonçalves, ex-zagueiro e capitão do Botafogo.

Mas o  Fogão não deixaria barato: inflamado pela provocação do rival, reverteu a vantagem vascaína no jogo de volta e se sagrou campeão estadual.Às vésperas de mais uma final de Campeonato Carioca entre Botafogo e Vasco da Gama, o eterno xerife do Fogão conversou com a reportagem do CRAQUE e lembrou da emblemática final e do título sobre o clube de São Januário, que meses tarde, naquele mesmo ano, se sagraria campeão brasileiro.

“O Vasco era um time em ascensão, um time de muita qualidade. No primeiro jogo da final, o Edmundo deu aquela rebolada, o que acabou dando uma motivação extra para que superássemos a equipe do Vasco e conquistássemos o Estadual”, recorda Gonçalves, contando também que a atitude do “Animal” não só despertou a fúria botaguense como deu um tempero especial ao segundo jogo da final.

“Isso promeveu ainda mais o segundo jogo, o Maracanã lotou e conseguimos aquele título que entrou pra história dos Campeonatos Cariocas”, disse o ex-jogador, de quem partiu a ideia de, após o jogo, provocar a torcida vascaína imitando a dança de Edmundo em versão coletiva. “Essa irreverência faz parte, é saudável no futebol, desde que não incite a violência”, declarou Gonçalves, que declarou ser grande amigo de Edmundo.

“Nossos filhos são melhores amigos”, diz ele, que também falou sobre a amizade com o técnico do Bota, René Simões, o caso Jobson e, claro, descorreu sobre o clássico de hoje, que colocará Vasco e Botafogo mais uma vez frente à frente numa final, na qual o Fogão traz como trunfo o fato de nunca ter sido derrotado pelo Cruzmaltino numa partida derradeira de campeonato. “Se eu bem conheço René, ele vai usar isso para motivar seus atletas”, disse Gonçalves.

Confira a entrevista completa:

Quais as lembranças que você tem daquela final?

Aquele campeonato foi muito especial na minha carreira. Tive a felicidade de fazer o gol do título da Taça Guanabara, sobre o Vasco. Vencemos o segundo turno  de forma invicta, perdemos o terceiro. O Vasco era um time  em ascensão, time de muita qualidade. O nosso time já vinha se sentindo desgastado. No primeiro jogo da final, perdemos um a zero, com gol de Ramon. O Edmundo deu aquela rebolada, o que acabou dando motivação extra pra superamos a equipe do Vasco e conquistamos o estadual. Em função da polêmica que rolou em torno da atitude do Edmundo, acabou se tornando um campeonato histórico, muito lembrado pelos torcedores de ambos os times. Depois do título, combinei com jogadores de fazer a dança pra torcida do Vasco. Foi uma curtição muito grande (risos).

O que passou na sua cabeça quando o Edmundo começou a rebolar?

Na verdade, nos éramos companheiros da Seleção Brasileira e durante a Copa América, ele falou que se vencesse ia me zoar de alguma forma. Não esperava que fosse fazer aquilo. No momento que ele fez, eu não vi, porque estava muito concentrado em desarmar ele. A intenção era me zoar e até provocar uma expulsão minha. Eu estava muito bem, era zagueiro da Seleção, mas isso acabou  provocando uma motivação muito grande na nossa equipe.

E a situação extremeceu a relação com o Edmundo?

Não, somos amigos fora de campo. Meu filho e o filho dele são melhores amigos, nasceram no mesmo ano, em 98. A gente se dá super bem, ele sabe, é futebol. É válido! Agora nem tanto, mas antigamente existia muita provocação dos jogadores. No Rio, tinha aquela disputa pra ver quem era o ‘Rei do Rio’. Essa irreverência faz parte, é saudável no futebol, desde que não incite a violência. Aquilo foi bacana, porque promoveu ainda mais o segundo jogo. O Maracanã lotou, conseguimos aquele título e a final entrou pra história dos Campeonatos Cariocas.

O que espera para este segundo jogo da final do Cariocão?

Um jogo muito equilibrado, assim como foi o primeiro dessa final. O Botafogo fez um bom jogo, teve chance de fazer o gol, infelizmente não conseguiu finalizar com eficiência, acabou levando gol no acréscimo. O Vasco teve mérito e reverteu a vantagem que era do Botafogo. Agora quem tem vantagem do empate são eles (o Bota jogava por dois empates). Se repetir a atuação do domingo, a tendência é jogo equilibrado, qualquer um pode vencer. O Botafogo mostrou que tem equipe pra vencer o Vasco. Só precisa ter atenção nas bolas paradas, que é um ponto forte da equipe do Vasco, jogar determinado e ser eficiente nas chances que tiver.

O que acha da questão do Jobson? Muito dura a pena para o jogador?

Sempre teve essa questão (de uso de drogas entre atletas). Acho que o Jobson errou pelo fato de ter se negado a fazer (exame anti-doping). Não pensou nas consequências, achou que se não fizesse não teria nenhum problema. Como é uma determinação da Fifa, acabou sendo punido. Agora o Botafogo vai tentar reverter a sentença. Acho difícil ser absolvido, mas tomara que o Botafogo possa reduzir a pena para que ele não fique muito tempo afastado dos campos de futebol.

Quem você vê que pode fazer a diferença na ausência dele?

O Botafogo não tem nenhum jogador que possa se destacar dos demais. O time criou um conjunto muito bem treinado pelo René Simões, demonstra ter um grupo unido… É um time que se caracterizou por construir as vitórias no segundo tempo nesse estadual. Espero que tenha condições de fazer um bom jogo tanto no primeiro quanto no segundo tempo. O time também tem um ataque que fez muitos gols, com Jobson, Bill, Pimpão… O Pimpão é um jogador que pode ser importante pra equipe do Botafogo.Você tem boa relação com o René Simões. O que acha do trabalho do treinador no comando do Fogão?Acho ele excelente profissional. Conheço bem, acompanho a trajetória, desde a época que ele foi treinador juvenil do Fluminense e eu estava na base do Olaria. Ele tem tremenda facilidade com as palavras, sabe motivar, sabe colocar seu raciocínio para se fazer entender. Recentemente, fomos companheiros num MBA em gestão esportiva pela Fifa e Fundação Getúlio Vargas. Torço muito pelo trabalho dele, para que possa alcançar o objetivo da diretoria  do Botafogo de, além do Estadual, montar uma equipe que possa conquistar o Brasileiro (da Série B) ou ficar entre as quatro equipes.

O Vasco nunca ganhou uma final do Botafogo. A história pode mexer em algum momento com os brios dos jogadores?

Acho que a história existe e pra ser contada. E com certeza o Simões deve estar trabalhando isso na cabeça dos jogadores. Importantes esses dados estatísticos, para que o jogador possa confiar cada vez mais na possibilidade de uma conquista. Lógico que isso é positivo para a preparação da equipe. Conhecendo o René como conheço, tenho certeza que ele está resgatando essa história de tabu entre Botafogo e Vasco em finais de campeonato. Isso pode fortalecer o psicológico do time, que passa a acreditar e se sentir mais capaz de vencer e conquistar mais um título, mantendo esse tabu, que tomara possa fazer presente mais uma vez na história desse clássico.

E, 18 anos depois daquela final, o que o ex-zagueiro Gonçalves está fazendo agora?

Eu vivo no Rio de Janeiro, me especializei em gestão esportiva e estou aguardando oportunidade para trabalhar como diretor esportivo, sendo que já sou formado em Educação Física a mais de 20 anos e tenho duas MBA de gestão esportiva. Tenho uma academia de futebol pra crianças há 17 anos na Barra da Tijuca. Meu nome foi muito cogitado pra assumir o Botafogo no inicio do ano, mas acabou não acontecendo. Estou aguardando um momento de ter uma oportunidade pra aquilo que gosto, tenho capacidade, conhecimento… Além disso, sou comentarista de uma rádio do grupo Bandeirantes. E preciso até terminar a entrevista para tomar um banho e comentar Capivariano e Botafogo (risos).

Fonte: A Crítica