Faz pouco mais de duas semanas que o Homem de Gelo chorou ao abraçar a mãe, se despedir dos gramados e reverenciar a arquibancada. E faz pouco mais de uma semana que a reportagem do Lance! foi visitar o agora ex-goleiro Jefferson para uma entrevista descontraída e exclusiva.

Com o apartamento já cheio de caixas e a mudança para São José do Rio Preto (SP) sendo preparada, o eterno ídolo do Botafogo já sentou na cadeira mais leve. Conversou sem os pudores que o mundo da bola exige e contou histórias até então pouco conhecidas. Ao longo desta quarta-feira, você poderá conferir o bate-papo em quatro partes. Abaixo, a primeira.

Já aposentado, como se sente quando repórteres vêm te perturbar em casa?
A ficha ainda não caiu: “ah, estou aposentado”. Tenho pensado, primeiramente, que estou estou de férias. Antes de chegar nesse momento, liguei para algumas pessoas para saber como era depois de parar. Também li muitos comentários na internet e acabei observando que o jogador se cobra muito depois que para, entra até em depressão, ansioso para fazer algo. Então eu coloquei na cabeça que não iria me cobrar, pois as coisas vão se encaixando e, quando for ver, vou entrar numa rotina. Nas férias era assim: ficava longe e depois dava até preguiça de voltar (a treinar). Hoje me vejo como ex-goleiro profissional, mas sempre serei ex-goleiro.

Então topa agarrar numa pelada com a gente amanhã?
(Risos) Está vendo? É por isso que você nunca vai ser ex-goleiro. Sempre tem as peladas de fim de semana. Os caras sempre pedem que você vá para o gol, em jogo beneficente… Vê o Marcão (Marcos, ex-goleiro do Palmeiras e da Seleção), está sempre dando conta nas peladas por aí no gol.

Com quem pegou conselhos sobre a vida pós-futebol?
Uma das pessoas foi o Sandro (ex-zagueiro também ídolo alvinegro, com quem Jefferson jogou na primeira passagem). Foi um cara que me inspirou bastante na minha carreira. Está praticamente com a vida feita. É uma pessoa em quem me inspirei bastante.

Não deu para evitar. Pelo visto a partida de Niterói já está próxima. Caixas e mais caixas pela casa…
Está tudo empacotado. Minha esposa que gosta de empacotar, já está assim faz tempo. Vamos embora no dia 16 (dezembro), por aí, mas ela já guardou prato, garfo… Falei que ela tava com agonia de embora, como vamos comer?! (risos).

Você já disse que dava para estender a carreira. Quando começou a pensar em parar?
Sou um cara que me planejo muito. Desde novo, e é impressionante isso, já dizia que, com 34, 35 anos queria parar de jogar. Ainda era um garoto, lá no Cruzeiro. E sempre foquei nos 15 anos que teria de carreira. Conheço jogador que tem mais de 30 e está longe de planejar a aposentadoria. Claro que, com as lesões, você fica desmotivado. Mas eu olho para o lado positivo porque Deus trabalha de forma perfeita nas nossas vidas. Com as contusões, fui desacelerando aos poucos, sem perceber. Quando se para de repente que é um perigo, já que a rotina estava muito frenética… Até a esposa manda pra fora de casa, manda voltar pra a concentração. Como já vinha diminuindo o ritmo, até sem perceber, hoje não sinto tanta falta (da rotina do futebol).

Do que vai sentir menos falta?
Creio que a concentração é que o menos vou sentir falta. Treinar não, pois eu gosto demais. Na real, eu curto muito atividade física. Já fiz atletismo, capoeira… Mas a concentração, em si, é muito cansativa. Por isso que falam que lá fora é mais fácil de jogar, porque eles não concentram. Mas a cultura lá é diferente, né? Se não tiver que concentrar no Brasil, os caras chegam de ressaca pra jogar. Aqui, muitas vezes é preciso concentrar duas vezes por sua semana, isso quando não concentra dois dias antes. Um saco.

E com todo esse tempo em casa agora, já rolaram mais abraços ou bronca das filhas?
Ah, mais abraços, com certeza. Brinco com minhas filhas que vou fechar um contrato de mais um ano, daí elas reclamam muito. Elas querem que eu as leve para a escola, sentem orgulho do pai. O pessoal tieta e elas falam: “Ai, o Jefferson é meu pai!”. Já pediram até autógrafos para elas mesmo assinarem (risos). Curtem ser a filha do Jefferson.

Enfim você chorou publicamente quando viu a família antes do jogo de despedida…
Fiz questão de levá-las ao último jogo. Não sou acostumado porque sou muito apegado à minha família e, por conta da violência, não conseguiria focar nas partidas sabendo do risco que elas correriam para entrar, nas arquibancadas… Já vi jogador sair no intervalo do jogo por ficar sabendo que a família não conseguiu entrar no estádio. Ou então entrar em campo completamente desfocado por causa da preocupação. Ainda tem a questão de xingamento, filho voltar chorando porque a torcida vaiou ou algo do tipo. Minha esposa mesmo se foi em cinco jogos foi muito.

O Botafogo conseguiu esconder a presença da sua mãe naquela noite do dia 26 (de novembro)?
Conseguiram… Foi uma surpresa mesmo, nem passou pela minha cabeça. Minha mãe fica muito tensa acompanhando meus jogos. Emocionei-me assim que a vi, ela foi muito guerreira na vida.

A festa foi o que você esperava?
Foi muito mais porque a torcida fez uma festa que poucos jogadores tiveram a oportunidade de receber. Quero parabenizar os torcedores porque eles foram sensacionais e isso impactou o Brasil todo pela emoção. Às vezes, você não sente essa emoção em despedidas.

Tomou um golaço aquela noite. Chegou a brincar com o Alex Santana (meia do Paraná, que marcou o gol)?
Não… quer estragar a minha festa? (risos) Mas faz parte. Claro que estava muito ansioso e me cobrando muito quanto à performance. Não poderia encerrar a carreira com derrota.

Fonte: Terra