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Jefferson defende Aranha em caso de racismo, mas acha que santista exagerou

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“O Jefferson não gosta de entrevistas por telefone”. A explicação da equipe de comunicação do goleiro do Botafogo e da seleção brasileira diz muito sobre a personalidade dele: assertivo, mas não espalhafatoso; incisivo, mas não polêmico. Dono da camisa 1 desde a Copa de 2014 (Júlio César usou a 12), o jogador de 31 anos hoje é uma das maiores referências da posição no país. A experiência e o status são suficientes até para ele se posicionar de forma contundente sobre o caso do santista Aranha, colega de posição e negro como Jefferson, alvo de insultos racistas em partida contra o Grêmio.

“Claro que a gente não tem de pegar ninguém para Cristo, mas todos em volta têm de se conscientizar sobre o que aconteceu. Acho que eu apoio o Aranha em todas as declarações, mas até ele mesmo sabe que não precisava chegar a esse ponto para que as coisas fossem resolvidas”, ponderou Jefferson em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

No bate-papo realizado antes de um treino do Botafogo, Jefferson falou sobre o recomeço da seleção após a Copa de 2014 e o papel que ele espera desempenhar nisso. O jogador foi titular da equipe nacional nos dois primeiros amistosos do técnico Dunga (vitórias sobre Colômbia e Equador, ambas por 1 a 0), mas sofreu uma luxação em dedo da mão esquerda na última quarta-feira (01). Não foi cortado, mas a comissão técnica ainda não sabe se ele poderá participar das partidas contra Argentina (11?10, em Pequim) e Japão (14?10, em Cingapura).

Além de ter sido feita antes da lesão, a entrevista com Jefferson aconteceu antes de o Botafogo ter escancarado um problema interno. Na última sexta-feira (03), o time alvinegro anunciou que os laterais Edilson e Júlio César, o zagueiro Bolivar e o atacante Emerson Sheik seriam dispensados. O goleiro, que também é um dos líderes da equipe, tem contrato até o fim de 2015 e não foi sequer cogitado na lista.

As dispensas foram apenas mais um capítulo da situação problemática do Botafogo, que tenta evitar o rebaixamento para a segunda divisão e acertar as contas – o clube deve salários e direitos de imagem aos atletas. E cada vez mais, as esperanças de uma reação passam pelas mãos de Jefferson. A redenção da seleção brasileira também.

Leia a seguir as principais respostas da entrevista com Jefferson:

UOL Esporte: Como você avalia sua história na seleção até aqui?
Jefferson:
Tive paciência. Tive paciência de esperar minha hora e perseverança para trabalhar. Cheguei a ser terceiro, quarto, segundo, joguei alguns jogos, mas tive a paciência de esperar minha vez, respeitando todos os goleiros que estavam na época. Hoje estou tendo oportunidade de mostrar meu trabalho. Sempre que estive na seleção, mostrei que estava preparado para assumir a titularidade.

UOL Esporte: Você começou a Copa como segundo goleiro, mas chegou a perder o posto para o Victor durante o torneio. Por quê?
Jefferson:
Acho que Felipão deixou bem claro que a confiança nos três era a mesma. Algo como: ‘Posso jogar a camisa para cima, e em quem cair a confiança será a mesma’. É claro que por critério e por tudo que representa o Júlio César foi titular, mas eu e o Victor revezávamos em todos os jogos. A confiança era a mesma, e a gente sempre se respeitou. Isso é bom para a seleção, que tinha três grandes goleiros em alto nível. Podia jogar qualquer um.

UOL Esporte: Você acha que ficou menos marcado por não ter jogado na derrota por 7 a 1 para a Alemanha?
Jefferson:
De maneira nenhuma. A gente ali era uma família, um corpo só. Quando batia em um, todos sentiam. Quando a gente perdeu para a Alemanha, o semblante de todos era de tristeza. Era praticamente um velório ali. Todo mundo sentiu a derrota, todo mundo sentiu aquele 7 a 1, e a ferida vai ficar em todo mundo. Mas a gente não tem de ficar triste por isso, e sim se orgulhar de uma Copa do Mundo no Brasil num nível alto. Independentemente de quem estava em campo, a gente deu o melhor. Isso vai ficar na memória e na história, mesmo não sendo bom. O vencedor é quem enfrenta, mesmo se não ganhar. Tem de dar a cara a tapa, e isso a gente fez.

UOL Esporte: O que deu errado na Copa?
Jefferson:
As pessoas pegam a derrota para a Alemanha como o jogo da Copa, mas não fizemos somente essa partida. Foi atípico. Deu um apagão em todo mundo, geral, e eu acho que o que talvez tenha atrapalhado não foi dentro de campo; foi o psicológico. Por mais que tivéssemos jogadores experientes e rodados, jogar uma Copa do Mundo no Brasil, com a pressão que foi… tanto que jogamos a Copa das Confederações praticamente com o mesmo grupo, mas a cobrança não era a mesma. Entramos na Copa das Confederações sem obrigação de título, e essa é a realidade. Jogamos soltos. Na Copa do Mundo não, e isso foi nítido. O grupo não conseguiu se soltar como fez na Copa das Confederações.

UOL Esporte: Essa pressão que vocês sentiram na Copa ainda afeta o grupo? Como?
Jefferson:
O ambiente era totalmente diferente. Na chegada, na Granja, a gente fazia o máximo possível para estar fechado ali e não ver notícia de fora, mas era inevitável: chegava do celular ou da família. Foi uma experiência muito boa, mas muitos jogadores que estiveram na Copa vão chegar à Copa de 2018 com outra cabeça. É dar tempo ao tempo, e a gente não teve essa cabeça. A Alemanha foi campeã, mas tinha jogadores que estiveram na Copa em 2010 e 2006. Isso faz diferença. Hoje o Gilmar e o Dunga estão mesclando os jogadores, e eu tenho certeza que a gente vai chegar forte.

UOL Esporte: Antes dos primeiros amistosos do Dunga, o Claudio Taffarel, preparador de goleiros da seleção brasileira, fez elogios ao Rafael Cabral, do Napoli, que tem um estilo muito diferente do seu (ele é mais rápido e melhor com a bola nos pés, por exemplo). O alemão Neuer, um dos destaques da Copa de 2014, também chamou atenção por atuar adiantado e trabalhar muito com os pés. Você acha que ainda precisa mudar algo no seu estilo ou em fundamentos? O quê?
Jefferson:
Aprimorar o goleiro sempre precisa: saída de gol, jogar com os pés, reposição… enquanto a gente estiver jogando, é preciso aprimorar. É claro que alguns têm mais facilidade num ponto ou em outro, mas não se pode mudar a característica totalmente. O Rafael tem uma característica, e eu tenho outra. Um goleiro que eu admiro muito, que era simples e objetivo, era o Marcos. Ele falava: ‘Aqui na área, deixa comigo. Mas não recua a bola para mim, não, que vai dar zica’. Nem por isso ele deixou de ser campeão do mundo. É você reconhecer suas limitações, trabalhar, mas não querer inventar e não querer achar que todo goleiro vai ser como o Neuer. Isso é ilusão.

UOL Esporte: Você tem 31 anos (02?01?1983). Ainda é possível chegar bem até a Copa de 2018 ou você se considera apenas uma transição até a consolidação de um goleiro mais novo?
Jefferson:
Eu me vejo num dos melhores momentos da carreira. O goleiro chega ao ápice a partir dos 30, quando tem experiência, e eu sei que vou chegar bem, se Deus quiser. Mas sei que vai ser minha última oportunidade, e isso é bom para que eu possa me preparar para chegar voando e para que eu possa estar bem na Copa.

UOL Esporte: Como você faz para conciliar seus planos para a seleção com seus objetivos no Botafogo?
Jefferson:
Isso pega para qualquer jogador. Nosso primeiro foco e nosso primeiro compromisso é o clube, que é quem vai dar oportunidade de chegar à seleção. Você precisa ser maduro o suficiente para separar as duas coisas. É nesse momento que o jogador se atrapalha na carreira. Quando eu estou no Botafogo, penso no Botafogo. Não adianta ficar pensando na Argentina ou na seleção. A partir do momento em que eu me apresento à seleção, penso nos adversários de lá. Tem de separar muito bem. Minha preparação no Botafogo é manter a regularidade aqui. Consequentemente, vou estar preparado para a Copa.

UOL Esporte: Os momentos do Botafogo e da seleção são completamente diferentes. Uma fase conturbada como a que você vive no clube pode ajudar o goleiro, que é mais exigido e tem mais chance de se destacar?
Jefferson:
Quando o time não passa por um bom momento, automaticamente você é mais exigido e vai precisar estar pronto para esse desafio. Mas tem um bom sentido porque todo mundo passa por isso na carreira, e é nesses momentos que a gente vê quais são os jogadores qualificados. Quando as coisas estão bem é fácil você se destacar, e quando elas estão cambaleando você vê quem é quem. Na seleção é a mesma coisa: há momentos em que as coisas não estão legais, e é aí que os jogadores de qualidade e personalidade têm de sobressair e mostrar personalidade.

UOL Esporte: Você já pensa sobre a possibilidade de enfrentar Lionel Messi no Superclássico? Que clima você espera encontrar?
Jefferson:
Isso é inevitável. Claro que a gente não pensa ‘ah, vou pegar um chute do Messi’, mas Brasil x Argentina é diferente. No sub-20 a gente foi campeão mundial, e na semifinal a gente ganhou da Argentina. É muito bom jogar contra eles e poder ganhar. É um clássico, e todo jogador quer jogar um clássico.

UOL Esporte: Depois das vitórias sobre Colômbia e Equador, dá para dizer que o jogo contra a Argentina será o primeiro grande teste da nova seleção?
Jefferson:
O primeiro teste a gente já passou. Enfrentar a Colômbia no primeiro jogo, com a seleção que a Colômbia está, foi um teste de fogo. Mas para a sequência da preparação é importante ter esses jogos contra Argentina e Japão. Vão ser jogos muito bons.

UOL Esporte: A primeira passagem do Dunga pelo comando da seleção brasileira ficou marcada pelo foco em resultados. É isso que podemos esperar agora também?
Jefferson:
O Dunga tem tempo, e a gente sabe que a seleção é cobrada por resultados, mas a gente tem de entender que é uma preparação. Não adianta ganhar da Argentina e achar que é a melhor seleção do mundo ou perder e achar que é a pior. A gente tem de ter tempo para chegar bem lá na frente, nas Eliminatórias.

UOL Esporte: Você hoje ocupa o principal posto para um goleiro brasileiro, que é o de titular da seleção brasileira. Como referência e como negro, o que você achou de tudo que aconteceu com o Aranha*?
Jefferson:
Todo mundo tem de comprar essa briga, mas cada um tem uma forma diferente de agir. Não tem como eu dizer o que faria, até porque cada um tem uma reação na hora, mas são episódios que acontecem e que a gente devia dar um basta. Isso não vai levar ninguém a lugar nenhum. Claro que a gente não tem de pegar ninguém para Cristo, mas todos em volta têm de se conscientizar sobre o que aconteceu. Acho que eu apoio o Aranha em todas as declarações, mas até ele mesmo sabe que não precisava chegar a esse ponto para que as coisas fossem resolvidas.

* Nota da redação: No dia 28 de agosto de 2014, em vitória do Santos por 2 a 0 sobre o Grêmio na Arena Grêmio, o titular da equipe visitante foi alvo de ofensas racistas. Antes de cobrar um tiro de meta, ele interpelou o árbitro e reclamou de forma veemente. O time gaúcho perdeu pontos e acabou eliminado da Copa do Brasil por causa do incidente, e quatro torcedores foram indiciados pela Polícia Civil. Outras três pessoas envolvidas no episódio ainda não foram identificadas.

UOL Esporte: Você já passou por algo similar?
Jefferson:
Se eu passei eu não sei. Entro em campo tão focado que nem escuto o que estão falando de mim fora, mas isso dói. Só quem está ali pode falar, mas eu nunca passei por isso.

UOL Esporte: Você teria reagido de forma mais contida, então?
Jefferson:
Não sei. Pimenta no olho dos outros é refresco. Não tem como dizer o que eu faria porque só quem está ali na hora sabe o que acontece.

UOL Esporte: Algumas pessoas reagiram de forma violenta, e a casa da família da torcedora Patrícia Moreira, flagrada pelas câmeras de TV ofendendo Aranha, chegou a ser incendiada. Houve exagero também no repúdio ao assunto?
Jefferson:
Acho que não precisava esse negócio de botar fogo na casa da menina. A gente não vai vencer o mal com o mal, mas hoje o Brasil é preconceituoso. Houve esse caso, e esse caso foi meio que um bode expiatório.

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