Goleiro que é goleiro sabe que não pode errar, mas ato falho não é erro comum. É um lapso na fala, na memória, supostamente causada pelo inconsciente. Ao receber a reportagem de O GLOBO para uma entrevista sobre sua aposentadoria (ele será titular hoje, às 20h, contra o Paraná, em jogo que marcará sua despedida da torcida), Jefferson cometeu um.

Repassando as glórias de sua carreira, foi perguntado sobre a defesa do pênalti batido por Messi, pela seleção brasileira, em 2014. Respondeu, discorrendo sobre a defesa e sua importância, mas se confundiu: falou sobre a penalidade defendida pelo Botafogo, na conquista do Carioca de 2010, contra o Flamengo, chutada por Adriano. Só se tocou do erro quando alertado.

O ato falho só corroborou com o que tinha dito minutos antes: colocou o Botafogo, clube que defende desde 2009, à frente da seleção em momentos importantes na carreira, revista em um papo em que admitiu atritos com Seedorf, encantamento com o fato de ter virado ídolo e trabalho dobrado simplesmente por ser negro.

Goleiro que é goleiro sabe que em decisão tomada não se volta atrás. Jefferson, aos 35 anos, vai mesmo se aposentar. Mas ainda tem o que falar.

Uma coisa é anunciar a aposentadoria, outra é chegar a hora de aposentar…

É diferente… Confesso que não imaginava que estaria ansioso, com o coração apertado. Já vinha me preparando há bastante tempo, mas agora que a ficha está caindo. Vou me despedir de uma família, de uma segunda casa. Estou bastante ansioso e emocionado. Já vinha jogando pouco nos últimos anos. Claro que parar do nada é mais difícil, mas eu vim parando aos poucos nos últimos dois anos, pelo que aconteceu na minha carreira. Dentro de casa, minha esposa ficava até brincando que já estava acostumada comigo por perto.

Você só tem 35 anos. Não dava pra jogar mais?

Não estou parando pela idade, mas por propósitos. Tenho objetivos diferentes do futebol. Podia muito bem jogar mais dois, três anos. Não no Botafogo, porque reconheço que meu ciclo encerrou. Até pela grande pessoa e goleiro que é o Gatito, que vive excelente fase e já está fazendo sua história aqui. Reconheço isso. Mas daria pra jogar em outro clube. Estou com outros propósitos: família, amigos, Igreja… Tenho minha cafeteria, meus projetos, quero viajar mais. Quero em 2019 curtir mais outras coisas.

Por que você virou ídolo?

Pela entrega. Algo que marcou muito foi a lealdade que eu tive com o Botafogo, que abriu as portas pra mim em 2009, quando eu precisei. E quando o time precisou mais de mim, em 2015, eu permaneci. Foi um casamento perfeito que vai ficar na história. Não somente por títulos, mas também pela lealdade de ambas as partes.

Só Nilton Santos e Garrincha jogaram mais que você com essa camisa (458 jogos). Como é ser terceiro num ranking desses?

Um orgulho. Confesso que nunca imaginei chegar onde estou na minha carreira. Que faria história em um grande clube. Recebo mensagens de grandes jogadores me dizendo que sou vitorioso, que fiz história em um grande clube.

Faltou brilhar mais no Cruzeiro, Europa e seleção?

O Botafogo supre todos os sonhos que eu tive. Só tenho que agradecer, porque fiz história e um dos maiores clubes do Brasil e do mundo e tenho orgulho.

Em 2015 o Botafogo iria jogar a Série B, você tinha propostas, resolveu ficar. E a partir daquele ano as coisas ficaram mais difíceis para você. Se arrependeu?

Em nenhum momento. Sabia muito bem da decisão que estava tomando. Era uma decisão de risco. Coloquei o Botafogo à frente da seleção brasileira muitas vezes na carreira. Sabia que jogar uma Série B poderia prejudicar minha sequência. Mas não me arrependo. É o time que me identifiquei, que eu amo. Nossa história teve muito mais coisas boas do que negativas.

Que lugar o pênalti que você pegou do Messi em 2014 pela seleção tem na sua galeria?

(Jefferson se confunde e responde sobre a defesa do pênalti de Adriano, contra o Flamengo, pelo Carioca de 2010)

Foi um carimbo de uma grande história que eu fiz com o Botafogo. Tem uma importância muito grande. Cheguei no clube e fui mostrando mês a mês que tinha capacidade de defender. Fiz contrato de quatro meses primeiro, depois de seis meses e essa defesa e esse título me proporcionaram logo depois, em duas ou três semanas, mais dois anos de contrato. Depois de um mês fui chamado para a seleção brasileira. Foi um divisor de águas.

Olha o seu ato falho. Te perguntei sobre a do Messi, você respondeu sobre a do Adriano…

(Risos) É? A do Messi também foi muito importante, mas poderia ter sido mais. Poderia ter sido como no Botafogo, porque você defender um pênalti do melhor jogador do mundo justamente em um momento de mudança e de afirmação na seleção. Confesso que achei que aquele pênalti mostraria que eu vim para ficar, mas não foi o que aconteceu. Mas repercute até hoje e fico muito feliz de ter vivido isto.

Como é ser um goleiro negro que chegou ao topo?

Eu representei muitos goleiros negros. Não adianta negar, o Brasil infelizmente tem seus preconceitos. Não digo diretamente, mas indiretamente tem. Nas escolhas, se você analisar, é apresentador, treinador, não é só goleiro. Pessoas negras são minoria em posições de destaque. Graças a Deus rompi essa barreira.

Mas já sofreu racismo?

Sempre tive ciência que, por ser negro, eu tinha que matar dois leões por dia,não só um, ao contrário de outros.

Isso onde?

No Botafogo e na seleção. Tenho total consciência. Mas nunca usei como algo para me desmotivar, pelo contrário. Sempre sabia que tinha que estar melhor que os outros, trabalhar mais, dar menos oportunidade de falar de mim. Sempre fiquei bastante atento com isso. A gente sabe que na hora que botam na balança é complicado para gente.

Acha, por exemplo, que poderia ter mais oportunidade para ser titular na Copa de 2014?

Acho que não. Agradeço ao Mano por ter me dado oportunidade, um cara que respeito e é muito justo. Ali a seleção tava com todo mundo novo e outros saíram na frente. Eu estava novo, eram minhas primeiras convocações, estava aguardando minhas oportunidades. Acho que faltou depois de 2014. Fiz jogos importantes contra Argentina e França, mas infelizmente não tive sequência.

O Dunga te barrou depois da estreia nas Eliminatórias, você disse que faltou ele te dar crédito, ele não te chamou mais. Ficou uma mágoa?

Futebol não te dá espaço para mágoas. É resultado, oportunidade, momento… Não guardo mágoa nenhuma do Dunga. Me posicionei na época porque era o que eu achava. Ele teve a opinião dele e eu tive a minha. Profissionalmente. Ele era o treinador da seleção e teve que tomar as decisões dele. Fora de campo, não guardo mágoa. Não só o Dunga, mas em todo futebol, fiz muito mais amigos do que inimigos.

No Botafogo, dizem que você teve rusgas com outros ídolos, como o Seedorf e o Loco Abreu….

São jogadores com personalidade fortes. O Loco Abreu é um cara mais malucão, né? Mas admiro muito, converso com ele até hoje e não tivemos nenhum atrito. Com Seedorf tive. Uma ou outra coisa, mas sempre pelo grupo. Nada pessoal ou particular. Tanto que a gente já se falou depois. Futebol é isso.

Que tipos de atrito?

Sou muito transparente e gosto muito da figura do leão. Eu fui um leão dentro do Botafogo e para ser leão você acaba sendo cobrado e briga com outras pessoas. Sempre me posicionei diante da diretoria pelo grupo, nunca usei o poder que eu sempre tive aqui como capitão e líder para poder me beneficiar em coisas particulares. Nisso você acaba não agradando certas pessoas.

Você vai embora, outros virão. Por que um jogador deveria vir jogar no Botafogo?

Porque aqui você vai encontrar uma família. Vai encontrar uma torcida completamente apaixonada e fanática. Vejo muitos jogadores que saem daqui e se arrependem. Depois me falam que eram felizes e não sabiam. O Botafogo é diferenciado.

Como acha que vai ser o jogo contra o Paraná?

Vai ser emocionante. Uma festa. A gente precisa de mais um empate ou uma vitória, mas é uma festa com responsabilidade. Quero curtir muito este calor dos torcedores, que será o último como jogador. Quero aproveitar.

Você é muito religioso. Tem um salmo, uma passagem, que está guardando para este momento de aposentadoria?

Eu combati com todo meu coração, lutei, e hoje estou acabando a carreira, mas o mais importante é guardar a fé, seus princípios, sua família. Muitos jogadores conquistam muita coisa, mas perdem o principal, que é a família e os amigos mais próximos. Eu tenho orgulho de dizer que guardei a fé também. Então tem as palavras do Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, mas guardei a fé”. É isso.

Fonte: Extra Online