Jóbson treina em casa enquanto espera decisão da Fifa que pode abreviar carreira

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Os primeiros adversários foram facilmente batidos. Ninguém conseguiu segurar Jóbson Leandro Pereira de Oliveira em sua estreia, aos 10 anos, na escolinha do Associação Atlética Ponte Preta, em Conceição do Araguaia, sul do Pará, em 1998. Deter aquele moleque “habilidoso da porra, só na quebra”, recorda-se o técnico Everaldo Lisboa Rocha. Depois, vieram obstáculos mais duros. O início de carreira no Distrito Federal, defendendo o Brasiliense; a transferência para o Rio e a luta para salvar o Botafogo do rebaixamento em 2009; a vida errática, o álcool, a cocaína; as punições, as brigas, os muitos retornos e as juras de nova vida. Após a sucessão de dribles, o atacante se vê agora defronte a um paredão: suspenso pela Fifa por quatro anos, por se recusar a fazer um exame antidoping na Arábia Saudita, já não depende do próprio talento para superar outro revés. Se os advogados não conseguirem driblar o Comitê de Apelação da entidade, será a pena de morte, como definiu o técnico do Botafogo, René Simões.

Desde que foi comunicado, na segunda-feira retrasada, no dia 27 de abril, que a punição o impediria de treinar no clube, Jóbson desapareceu do Botafogo. Há tentativa de blindá-lo. O advogado que o representa na Fifa, Marcos Motta, diz desconhecer o paradeiro do atacante. Os empresários não atendem as ligações. Especula-se que ele estaria na companhia da mãe, dona Lourdes, recluso em casa, na Barra da Tijuca.

O Botafogo destacou um profissional para apoiar psicologicamente o atleta. Eles se falam frequentemente por telefone. Um preparador físico vai diariamente ao condomínio de Jóbson para treiná-lo. São tentativas de mantê-lo em forma e próximo da rotina da profissão. É esse o lado mais dramático da punição ao jogador, que leva no braço a “Vida Loka” tatuada. Se confirmados, os quatro anos de afastamento podem retirá-lo definitivamente dos campos. E, mais que isso, empurrá-lo para a depressão e a dependência química.

O caso de Jóbson ressuscitou o debate sobre a forma adequada de lidar com usuários de drogas ilícitas ou não. O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, sugere que o jogador passe por controle antidoping mensal e tratamento obrigatório. Francisco Inácio Bastos, especialista em saúde pública e pesquisador do LIS/Icect da Fiocruz, diz que a punição da Fifa contraria práticas médicas e previdenciárias.

— Essa pena situa nos campos moral e penal uma questão de saúde. Um período tão longo de suspensão corta a possibilidade de um indivíduo se reinserir após um tratamento que duraria até 12 meses. A medicina caminha no sentido contrário.

O técnico do Botafogo diz que Jóbson, não tendo sido diagnosticado como incapaz, tem de assumir a responsabilidade por seus atos. Mas quatro anos de suspensão é um castigo forte demais:

— Isso não existe. O certo seria ele fazer um exame antidoping por mês, pagando do próprio bolso, ou doar cestas básicas.

Jóbson foi afastado justamente quando o Botafogo inicia a luta para deixar a segunda divisão do Brasileirão. A situação se assemelha à crise que encontrara na chegada ao clube, no segundo semestre de 2009. O ex-presidente Mauricio Assumpção, que assumira quatro meses antes, montara um time na base do “cata-cata” e se recusava a comprar um craque consagrado em caráter de emergência e, com isso, estourar o orçamento. Foi então que o gerente de Futebol, Anderson Barros, sugeriu a jogada de risco:

— Presidente, nos ofereceram um garoto do Brasiliense. Chama-se Jóbson e está voando em campo. Só tem um detalhe: ele tem problemas com álcool.

Mauricio tentou saber mais sobre o jogador, mas a urgência falou mais alto, e o Botafogo topou o empréstimo. No Brasilisense desde 2003, o atacante já vinha de uma temporada no futebol sul-coreano. Fora despachado de Brasília pelo então presidente do clube, o ex-senador Luiz Estevão, depois de envolver-se com más companhias e inevitáveis noitadas regadas a bebidas e drogas.

Naquele 4 de outubro, o Botafogo empatava sem gols com o Goiás no Estádio Serra Dourada, em Goiânia, quando, no intervalo, o técnico Estevam Soares sacou Reinaldo para apostar no desconhecido. Jóbson marcou o primeiro gol, deu passe para o segundo e infernizou a defesa adversária. No fim, a vitória por 3 a 1 deu novo ânimo contra o rebaixamento.

Talento e problemas desembarcaram juntos no Rio. Jóbson driblara todas as tentativas de enquadramento do Brasiliense. Ao perceberem que o jovem paraense, nascido em Emerêncio, bairro da periferia miserável de Conceição do Araguaia, começava a ganhar dinheiro e tornava-se presa fácil para os amigos de ocasião, os dirigentes do clube convocaram a mãe. Passaram a entregar metade dos rendimentos a ela e inauguraram o repertório de conselhos que Jóbson voltaria a ouvir muitas vezes na carreira.

AÇÃO CONTRA OS ÁRABES

O primeiro baque veio dois meses depois da estreia. No início de dezembro, a CBF comunicou ao Botafogo que o laudo da comissão de dopagem acusara presença de substâncias encontradas na cocaína no exame de Jóbson. O teste fora feito após o jogo contra o Coritiba, no dia 8 de novembro. Uma semana depois do primeiro resultado, veio uma nova confirmação, dessa vez na partida contra o Palmeiras, em 6 de dezembro.

No julgamento, Jóbson admitiu ter consumido crack mais de uma vez. Acabou suspenso por dois anos pela Justiça Desportiva. Em nova audiência, a punição foi reduzida a seis meses e o jogador voltou ao Botafogo. Até retornar ao time em 2014, ele passou por Atlético Mineiro, Bahia, Barueri e pelo saudita Al-Ittihad. Na Arábia Saudita, o craque protagonizou o episódio que pode pôr um ponto final em sua carreira. A pedido dos árabes, foi punido pela Fifa. O advogado do jogador, Marcos Motta, rebate a acusação:

— Essa briga não é por doping. Não houve exame, mas uma negativa. Não foram respeitados os procedimentos de controle de dopagem, o direito de defesa foi cerceado e Jóbson não foi citado. Além disso, a tentativa de exame se deu em meio a uma ação milionária ajuizada por meu cliente contra o clube.

Motta já encaminhou a defesa, mas não há previsão de julgamento do recurso.



Fonte: O Globo Online
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