A velocidade do jogo não é a mesma e os padrões táticos ficam de lado. As substituições também não são controladas, não há risco de punição por escalação irregular. Mas mesmo em clima extraoficial, as ‘peladas’ beneficentes de fim de ano atraem de empresários que buscam visibilidade para seus jogadores às emissoras interessadas em manterem o futebol em suas grades. E arrecadam tanto quanto em jogos oficiais.

O exemplo de maior sucesso no Brasil é o ‘Jogo das Estrelas’, organizado por Zico e que completa uma década em 2013. A partida deste ano será realizada no Maracanã, no dia 28 deste mês. Terá a presença, por exemplo, de Adriano, que está treinando no Atlético-PR, Conca, que retornou ao Fluminense, e Emerson Sheik, do Corinthians.

Responsável por todas as negociações do evento, o filho de Zico, Arthur Antunes Coimbra Júnior, ou simplesmente Júnior, admite que muitos empresários tentam uma vaga na pelada para utilizarem como ‘vitrine’. O período de férias dos jogadores coincide com o momento de maior movimentação no mercado de transferências das equipes nacionais.

“Alguns [empresários] ‘cavam’, ligam meses antes pedindo para nós colocarmos os jogadores em campo, pedem até alguns minutos para tentar dar visibilidade. É comum principalmente com os atletas que estão em equipes menores. Mas a gente não pode abrir para a maioria dos pedidos, neste ano já estamos com 45 jogadores. Alguns até colocamos, por conta da amizade”, disse Júnior.

Um agente ouvido pelo UOL Esporte que não quis se identificar confirmou que muitos jogadores aproveitam as ‘peladas’. Os lances de efeito para a torcida costumam ser sucedidos de entrevistas em que os atletas ressaltam que estão no mercado.

Em 2008, o ex-atacante e atualmente comentarista da TV Bandeirantes Denílson deu show em um amistoso na Vila Belmiro. Após a partida, sem renovar contrato com o Palmeiras, o pentacampeão não se fez de rogado e se ofereceu ao Santos.

“Prefiro jogar na Alemanha, México ou até mesmo na Grécia. Mas não descarto ficar no Brasil se nenhuma proposta me agradar. O meu pai, que é santista, adoraria me ver jogando aqui”, disse na época, após ter sido o destaque da partida.

Ajuda na grade da TV

Muitos jogos também ajudam a preencher a grade das emissoras esportivas. Apenas na última semana, o canal SporTV transmitiu os jogos entre ‘amigos do Washington x amigos do Cafu’, ‘amigos de Dedé x amigos de Diego Souza’ e também exibirá a partida de Zico.

As partes não entram em detalhes sobre valores para transmissão, mas o acordo – em geral intermediado por uma empresa de eventos – auxilia no aluguel dos estádios e empresas contratadas para segurança. No jogo de Zico, por exemplo, o consórcio Maracana S/A cobrou para receber a partida amistosa. O Vasco pagou R$ 400 mil para atuar lá em 2013.

“Temos patrocinadores que pagam as conta desse evento. A renda da bilheteria é totalmente destinada às instituições de caridade, mas temos outros custos para cobrir e a TV é importante parceria nisso. Sempre fizemos questão de pagar o aluguel de todos os estádios”, destacou Júnior.

Os grandes patrocínios e arrecadações milionárias também dividem espaço com outros eventos menos ‘glamourosos’. A partida beneficente de Luiz Antônio não contou justamente com o próprio volante do Flamengo, que entrou em litígio com o clube carioca cobrando salários atrasados. Para não ter que falar sobre o tema, o jogador nem apareceu.

Já a partida entre ‘amigos de Wellington Nem x amigos de Alex Teixeira’, por exemplo, teve o patrocínio do ‘Serginho da Pastelaria’. Ninguém deve ter passado fome no amistoso.

O ‘Jogo das Estrelas’ terá também a presença da taça de campeão da Copa do Brasil do Flamengo. Além disso, sócios-torcedores da equipe carioca também terão desconto de 50% na partida. Para 2014, Júnior prevê mudanças com os atletas veteranos atuando numa preliminar.

“Meu pai não está suportando mais, tem algumas dores no joelho. Ai para manter o nível legal, vamos colocar ele e os amigos em uma preliminar, estamos definindo isso”, disse Junior, que também diz não acreditar que os jogos podem atrapalhar o descanso dos jogadores.

“O pessoal confunde, vê o Bom Senso FC falando do calendário cansativo, mas futebol profissional é totalmente diferente. Você tem a concentração, o desgaste físico. Aqui eles se divertem, não existe violência na disputa de bola. E após o Brasileirão acabar, muitas torcidas como de Flamengo e Cruzeiro ficam querendo mais jogos, ídolos”.

Fonte: UOL